Mensagem de Reflexão para Setembro

  

Nada é mais difícil do que conhecer-se a si próprio.

 

 A propriedade dos pólos opostos da Natureza não é exclusiva da matéria: ela representa um princípio geral da vida. Todos os seres organizados, até os mais inferiores, sofrem a influência deste laço que permite a manifestação e o desenvolvimento da vida nos diversos reinos da Natureza. E, como tal, ao nível humano assume uma característica de que nos habituámos a considerar apenas o aspecto sentimental que denominamos “amor”: a afinidade do ser pelo ser.

A multiplicação das espécies é um fenómeno biológico. Propagar a vida humana através das gerações é um acontecimento universal. O homem e a mulher procuram-se irresistivelmente a fim de realizarem a unidade primária do esquema do grupo social. Tal como na Natureza, os contrários atraem-se enquanto os iguais se repelem.

Ser homem ou ser mulher não é uma realidade secundária ou acidental na vida de alguém, mas sim algo que transcende a simples diferenciação sexual: generaliza-se a todo o ser, atinge as dimensões inconscientes do espírito e interfere nos comportamentos pessoais dinamizando-os constantemente.

Esta atracção dos contrários é a condição natural da procriação. A consequência social imediata de uma sociedade pai-mãe — formada entre um homem e uma mulher — é a que resulta do aparecimento do filho. A relação de pai para filho sucede à relação de marido para mulher. E é em virtude desta parentalidade natural que ambos têm algum direito sobre o filho e lhe possibilitam um importante treino de adaptação à vida exterior, conducente a uma relação social equilibrada.

O natural é o que corresponde às leis que fazem do ser humano parte integrante da Natureza, tornando-o expressão da lei moral natural. Estando a moral sexual, enraizada nas leis da Natureza, não constitui um simples código de regras mais ou menos convencionais e de dimensão relativa que possa variar de acordo com as características da época ou do lugar, por imposição ideológica ou transcendente. Trata-se, pelo contrário, de um perene e universal imperativo da Natureza.

O conceito de Natureza é objectivo e designa o que se oferece ao pensamento e à acção. Mas é também um conceito de valor e significa uma norma válida para esse pensamento e essa acção: o que é são, justo, sábio e perfeito, numa palavra, o que é “natural”. A este conceito opõe-se o não-natural, o que é artificial, anormal, doente, corrompido.

Enquanto realidade corporal e espiritual, o homem pertence também à Natureza. Mas, também na medida em que se lhe opõe, separa-se dela, desencadeando uma crise capaz de atingir a ordem social.

Considera-se, por isso, que a Lei, ao regular sobre a estrutura das relações afectivas centrada no casamento e na adopção de crianças, não deve ser indiferente à ordem natural — nem permeável a focos de pressão social. Deve, sim, limitar-se a ordenar o bem comum copiando os procedimentos naturais, proporcionando um pai ou uma mãe, originais ou adoptivos, a quem não os tem e segundo o modelo da família natural.

No afã de estabelecer igualdade de direitos e de excluir qualquer discriminação, esquece-se que — como dizia um antigo professor de Coimbra — a verdadeira igualdade consiste em “tratar desigualmente as pessoas colocadas em situações ‘naturalmente’ desiguais”.

Se a paternidade/maternidade responsável se prolonga muito para além dos actos inicias, a função educativa não é a única após o nascimento. O certo é que a vida afectiva dos esposos é fundamental para o equilíbrio do casal, mas os filhos precisam do amor dos pais para se estruturarem equilibradamente. Por outras palavras, é a relação triangular de equilíbrio afectivo dos esposos entre si e destes com os filhos que sobretudo importa para uma estruturação harmónica do núcleo familiar.

Privar uma criança da diferença sexuada entre o pai e a mãe é, desde logo, privá-la das aptidões individuais e dificultar-lhe a própria aceitação como homem, se é homem; como mulher, se é mulher. E, por isso, não tem o direito de gerar ou educar uma criança quem não esteja disposto e em condições de viver uma via de amor matrimonial segundo a ordem natural.

O mesmo se diga em relação à forma e aos argumentos como as confissões religiosas cristãs têm discutido a definição da família (2).

Não há dúvida de que o cristianismo autêntico deve abster-se de toda a mentalidade fixista e classificadora em compartimentos estanques.

Contudo, a simples mudança de uma linguagem “moralista” para outra mais “inclusiva e compreensiva”, dando satisfação a reivindicações inéditas e controversas na área das relações familiares, sugere uma clara indulgência pelo conceito “moderno” de “família não natural”, produto este essencialmente cultural e, portanto, condicionado por realidades sociais e políticas. Ora, não se vê como conciliar esta indulgência com a ordem moral que, estando intimamente ligada à ordem ontológica, não constitui um simples código de regras mais ou menos convencionais e passíveis de variar caso a caso — nem decorre de imposições ideológicas ou transcendentes.

Esta falsificação do conceito de família leva à “coisificação” da pessoa. Pior: rebaixa o “amor” à posição de mera função hedonista e compromete o esforço imparcial para alcançar o conhecimento científico de como se ordena o mundo.

Felizmente, as religiões tendem agora a convergir para o cristianismo autêntico e sempre renovado. Porém, tal convergência só poderá operar-se na linha de síntese da fé com uma visão científica do mundo. E esta via de espiritualização, que confere a dimensão cósmica ao cristianismo, passa naturalmente pelo rosacrucianismo, que confere um sentido supremo a tudo o que existiu, existe e existirá.

Sendo assim, impõe-se da nossa parte, com particular urgência, uma dinâmica que faça convergir e desenvolver todas as possibilidades da evolução ou, por outras palavras, todas as forças espirituais.

F.M.C.

(1) Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 4ª ed.,  pp 98, 149, 254.
(2) Cf. Jean-Marie Guénois, Défense de la Famille Tradicionelle, in “Le Figaro Évenement – Le Pape François”, Octobre 2014; João César das Neves, O Programa de Francisco, in “Nova Cidadania”, Verão 2014.

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