Mensagem de Reflexão para Julho

 
 

A vaidade é filha da ignorância.

 

 

DESAFIOS - NA CULTURA E NA POLÍTICA

 

Se recuarmos aos tempos mais antigos e seguirmos, ao longo da História, o percurso da vida quotidiana dos povos, veremos que o modo de vida se identificava primordialmente com o ambiente, naturalmente rude e agressivo. Tal como os outros seres vivos, os humanos iam-se adaptando às condições ecológicas e climatéricas e subsistiam, ou morriam, pautando-se pelas simples e puras leis da natureza.

À medida, porém, que seguimos a sua evolução, verificamos que foram perdendo algo: conhecimento de objectos e de técnicas, estados de espírito, crenças ou hábitos, substituindo umas mundividências por outras. Era como se fossem trocando de “transporte”, desde a simples tracção animal pela bicicleta e esta pelo mais sofisticado motor.

A natureza humana era o que ia permanecendo no decurso dessas mudanças, ao passo que o sistema sociocultural se identificava com tudo aquilo que produzira e impusera a utilização do que ia sendo abandonado no caminho. Podemos assim comprovar a seguinte lei: “nunca se pode fazer o menor progresso senão à custa de alguma faculdade que previamente se possuía” (1) .

1. Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo; Lxª 2005, p. 239.

Logo que um indivíduo — daqueles que, segundo Jean-Jacques Rouseau (1712-1778), teriam sido inicialmente bons, mas que, na verdade, não eram nem bons nem maus — “abriu os olhos” (2) e reagiu contra os elementares modos de vida descobrindo meios de fugir a tão inclementes condições, fê-lo porque já conquistara qualidades de pensamento para tanto. Mas fê-lo para si e à sua medida, visto que essas qualidades lhe haviam permitido inovar e conviver de outra maneira com o mundo material (3).

2. Id., Ob. cit.,pp. 283-284.
3. Id., Ob. cit.,pp. 266-267.

É por essa altura, em momento ecologicamente favorável, que terá surgido a “cultura”. Este factor determinou que a sociedade deixasse de ser um elemento natural e se tornasse um elemento cultural, ficando subordinada a outras regras, diferentes da orientação imprimida pela evolução biológica às outras espécies vivas. O homem “deixou de ser um autómato”. Daqui em diante, o ser humano seria orientado pelo esforço do espírito. E era-lhe permitido, através de uma acção interior e exterior, reflexiva e objectivadora, autonomizar-se em relação aos condicionalismos materiais do passado. Diremos, então, que a essência da cultura é de natureza espiritual e intelectual e que ela inclui o conjunto de crenças e conhecimentos que habilitam o ser humano a compartilhar a vida civilizacional (4). Este corte entre a vida natural e a vida cultural, sendo esta determinada pela evolução biológica e construída muitas vezes em oposição às regras daquela evolução, é assinalado em todos os grandes mitos da Antiguidade como um “pecado original” ou um “castigo” e, em alguns, como prenúncio da destruição final da humanidade.

4. A civilização, por seu lado, poderá ter uma origem predominantemente emocional e afectiva. Cf. F.M.C, “Cultura e Evolução”, Rosacruz, nº 416, (1-7).

Evidenciam-se neste percurso as dificuldades com que os pioneiros das civilizações tiveram de confrontar-se, vencendo ou sublimando os impulsos básicos remanescentes da sua ancestralidade. Fixados no sexo, nos mitos sociais ou nas relações humanas conflituosas, acabaram por impor a necessidade de formulários ou códigos de regras norteadores do comportamento, com determinado perfil ou estilo, a fim de fazer progredir a natureza humana e dar-lhe o carácter que ela veio revelando ao longo do tempo.

Então, e os outros? Os outros, aquela parte da sociedade humana mais limitada nas suas capacidades criativas e adaptativas, viriam mais tarde a beneficiar, ou a “apropriarem-se”, gradualmente, dos meios ideais que os pioneiros desenvolveram. Compreensível é que até tivessem reagido a esse desafio com agressividade crescente e outros sentimentos inferiores, de ódio, inveja e vingança, dando origem a um problema que arrastaria consequências futuras de ordem social (5).

5. Id., Ob. cit.,p. 283

É o que temos visto ao longo dos séculos. Quando, por exemplo, o desenvolvimento ocorrido na Europa Ocidental nos séculos XVII e XVIII — a Revolução Industrial, o urbanismo, as técnicas, etc. — trouxe indivíduos dos campos para as cidades. O choque entre o mundo material e o mundo social, isto é, entre uma concepção urbana da vida, com ambiente psicológico e material cada vez mais complexo, e uma visão mais rural da existência, gerou reacções instintivas agressivas. As formas de protesto assumiram aspectos de choques emocionais, vandalismos e manifestações colectivas, mesmo entre grupos sociais que viviam em áreas geográficas e históricas com alguma proximidade.

Esta nova ordem de relações que se veio formando impôs uma orientação prática com base em códigos de comportamento cada vez mais elaborados, capazes de promover a transmutação daqueles impulsos agressivos.

Dado que a estruturação social passou a proteger o grupo em vez de (e de certo modo contra) o indivíduo ou a espécie, os mais rebeldes introverteram os seus anseios competitivos para depois os extroverterem, de forma abstracta e sublimada: deixavam de ser uns heróis-por-si-e-para-si, para se converterem em heróis-para-os-outros-e-pelos-outros.
Mas nem todos foram capazes de ultrapassar as diversas crises dessa transmutação pessoal e de integração no novo sistema de vida. Havia quem já não fosse o homo primigenius do passado longínquo, mas que também não era ainda o “outro” homem, o novo homem capaz de se integrar no mundo que se ia edificando sob a acção directa ou indirecta da cultura. Existiam, por assim dizer, indivíduos que viviam organizados segundo os modernos padrões superiores da existência, mas que continuavam suspensos das suas próprias limitações, não havendo sequer uma religião que lhes valesse ou os compensasse.

Embora os fluxos migratórios fossem sendo alterados e assumissem diferentes proporções, o objectivo permanecia o mesmo: procurar uma vida melhor (6).

6. A América foi um destino eleito pelos europeus — incluindo os portugueses, especialmente até aos anos 60 do século XX. Pelas mesmas razões, a Europa, outrora grande exportadora de migrantes para a América e dotada de elevada taxa de natalidade, debate-se agora com sérios problemas demográficos.

 Um dos desafios decisivos que a nova Europa enfrenta é o da relação com o “Sul do Mundo” e as migrações crescentes que dali se dirigem para o ambiente-sistema do Velho Continente. Não se trata apenas de um desafio económico ou logístico. Um influxo de “migrantes” com esta dimensão levanta dúvidas sobre a possibilidade de, em tempo útil, se harmonizarem culturas, leis, costumes, modas e crenças distintas, que prefiguram mentalidades e modos de vida potencialmente conflituantes (7).

7. “Migrantes”: termo da novilíngua do actual jornalismo “politicamente correcto” que designa indistintamente “deslocados de guerra”, “imigrantes” e outros.

A Europa tem-se mostrado espantosamente amnésica dos seus referenciais históricos e do passado recente; e até adormecida para uma realidade que desde 2006 parecia iminente (8). É natural que se goste mais dos sonhos do futuro do que da História do passado. Porém, aqueles que são incapazes de a relembrar estão condenados a repeti-la, já que, como dizia Konrad Adenauer, a “História é a ilustração das coisas que podiam ser evitadas”.

8. O conceito de Europa foi-se aperfeiçoando, primeiro com os Romanos, cujo Império abrangia o Norte de África e a Ásia Menor. Depois, com os Bárbaros, que deram origem à pluralidade que é agora a característica principal da Europa e ajudaram a definir as suas fronteiras, abrangendo o actual Norte da Europa, que não fazia parte do Império Romano, e retirando-lhe o Oriente. A conversão ao cristianismo contribuiu decisivamente para a unificação da Europa na Idade Média. Finalmente, os Árabes quebraram a unidade política e religiosa no Mediterrâneo e empurraram o cristianismo para o Norte deste mar. Tudo isto é do conhecimento geral, mas convém recordá-lo, já que a perspectivação do futuro não se pode fazer sem um referencial histórico.

As tentativas de implantação de sociedades “multiculturalistas” em França, na Grã-Bretanha e na Holanda não tiveram êxito (9). Pelo contrário: deram origem a guetos, fechados em si mesmos, geradores de tensões sociais. A esmagadora maioria dos seus membros preferiu manter-se alheia ao nosso tipo de humanidade individual e social e ao que ela tem de mais essencial e que é mais impossível de rejeitar na sociedade europeia (10).

 9. O “multiculturalismo” é um conceito filosófico e ideológico. Confunde-se frequentemente com “pluralismo”, que é a característica das nações democráticas ocidentais.

10. Jorge A. Fernandes, “Atentados em Londres…” Público, 7 de Julho de 2006; António Paim, “O Vazio Deixado pelo Multiculturalismo”, Público, 10 de Julho de 2006.

Os censos e inquéritos realizados nos Estados Unidos e na Europa também revelaram que os descendentes de imigrantes, seja de segunda ou de terceira geração, permanecem alheios aos valores culturais dos países que os acolheram (11).

11. Ricardo Reis, “Conservadorismo Europeu”, Jornal de Notícias, 5 de Setembro de 2015.

Para sermos justos, importa reconhecer a dificuldade em delinear uma integração não coerciva mas sujeita a formas, ainda que mínimas, de unificação, mesmo no plano normativo. Admitem-se mesmo naturais recusas de submissão às regras estruturais do ocidente e até de um esforço de solidariedade e integração. Ou até uma aceitação aparentemente fraterna — mas que lentamente poderá levar à rejeição das regras e estruturas sociais dando origem a “contra-sociedades” (como a dos hippies, por exemplo, com a sua preferência por “contra-valores” sociais) (12).

12. O auxílio da Cruz Vermelha foi recusado alegadamente por as embalagens terem no logótipo da instituição uma cruz http://www.rtp.pt/noticias/mundo/video-mostra-migrantes-a-recusarem-ajuda-da-cruz-vermelha_n854278 ; 7 de Setembro de 2015

Isto não significa, todavia, que se julgue adequado ultrapassar a diferenciação, ou a oposição, ao modo de vida ocidental, por via de uma cultura abstractamente unificada. Mas parece razoável que se deva promover, por intervenção supranacional, a abertura de cada uma delas às outras, a fim de reconhecer, na forma que é própria de uma cultura, o carácter comum essencial do ser humano.

Em todo o caso, importa sublinhar que a religião não pode ser considerada como um valor absoluto ou soberano. Tal visão não corresponde ao que a cultura em que se insere deve ser de direito, nem tão-pouco, e por isso mesmo, às actuais necessidades de progresso. Só uma cultura estática, que não contribui para a criatividade e o desenvolvimento espiritual-social, desenvolve essa retórica insana de pretensa defesa de valores de sublime exclusividade mas que se revelam, na prática, como política de descrédito do valor da vida e de desprezo pelo espírito.

A consequência que daqui se pode tirar é que se torna indispensável uma integração planificada na unidade básica de valores, de interesses e de cultura da Europa e nas suas estruturas: escolares, culturais, assistenciais, jurídicas, laborais, etc.

Contará muito para esta transmutação de hábitos, idêntica à de outras eras, a maneira como se proporcionar a osmose das ideias, valores e atitudes que prevalecem na nossa sociedade, para aproximar os espíritos daqueles valores que caracterizam a sociedade europeia — do respeito pela vida, da integridade de pessoas e bens, da recusa da violência como instrumento político, etc.

Ainda que as grandes alterações culturais ocorram geralmente com precipitação, a sua plena interiorização pode estender-se por várias décadas. E é sempre caracterizada por um certo desnorte, que exige mais do que uma simples orientação marginal, esporádica e de certo modo subterrânea.

Mas reconhecemos, francamente, que, se este esforço já é difícil ao nível de culturas que compartilham meios geográficos e históricos, o problema se torna imensamente mais agudo quando as imigrações arrastam consigo outras culturas. Importa reconhecer, por isso, que uma solução de enclaves estrangeiros pode ser uma solução estéril — por mais fecundas que sejam as esperanças dos geneticistas políticos.

Aqui, sob a aparência de uma solução fácil e bem conseguida, as maneiras radicalmente distintas de encarar a vida e o mundo, com mentalidades em diferentes estádios de evolução e coexistindo em ambiente de expectativa e de ameaçadora desagregação, podem produzir gestos inesperados e acções premeditadas — ou servir para a divulgação de uma teocracia político-religiosa em nome do respeito pelas religiões e culturas.

Esta realidade vem sublinhar um dos mais inquietantes problemas de alguns dos 28 estados da União: que a Europa, espiritualmente desvertebrada e com uma grave défice demográfico, possa ficar refém de fluxos migratórios (13). É, na verdade, uma possibilidade que não se pode iludir.

Feitas as contas, concluir-se-á facilmente que, em termos de probabilidade, esta solução pode ser um mau negócio.

A organização tradicional dos indivíduos em nações protegidas por leis e fronteiras revela uma cada vez maior fragilidade à medida que o desenvolvimento frenético das tecnologias de informação estimula a curiosidade natural do ser humano para ir ao encontro desses mundos (14).

13. Philippe Gélie, “Le Compte n’est pas Bom”; Le Fígaro, 10 de Setembro de 2015. Os Pais Fundadores (J. Monnet, K. Adenauer, M. Schuman, etc.), conhecedores do espírito da Europa humanista, que aprenderam com a I e a II Guerras Mundiais, nunca pretenderam limitar a definição da Europa a critérios estratégicos e económicos. Sublinharam sempre a importância das suas raízes nas civilizações greco-latina e judaico-cristã. Mas, em 2000, o corpo de valores básicos europeus definidos no Tratado de Nice privilegiou o ponto de vista dos direitos humanos e da utopia internacionalista

14. Max Heindel, Ob. cit., pp. 279

Se este encontro com os “outros” nos deixa mais capazes e mais esclarecidos, e nos transforma por meio dessa aprendizagem, tanto mais se torna necessário que os valores fundamentais da nossa convivência civilizacional, quanto mais indiscutíveis, mais tenham de ser constantemente defendidos.

A solidariedade, do nosso ponto de vista, deve ser possuidora do dinamismo próprio da “fraternidade”. Nasce e termina no engrandecimento da “dignidade” de todo o ser humano, segundo o conceito lapidar: “o homem é, para o homem, uma coisa sagrada. Não se pode limitar, por isso mesmo, a uma óptica de mera assistência de consolação, ou de simples esforços lenitivos para situações negativas pontuais, como também não deverá servir para iludir as responsabilidades associadas a dramas individuais ou colectivos.

O desafio que, em termos culturais e políticos, se nos apresenta, será então o do discernimento, o do esforço de separar o essencial a ser intransigentemente defendido, do acessório constituído simplesmente por outras formas de ver. Trata-se, com efeito, de contribuir para transformar as bases do sistema com vista a permitir, de modo consciente, que se institua um novo relacionamento dentro da espécie, a fim de que a humanidade como um todo possa evoluir espiritualmente rumo a estádios de vida superiores.

Cabe-nos então, a todos mas a nós em particular, para que haja futuro e a fraternidade humana não seja uma palavra desacreditada neste mundo bélico, neurótico, pseudo-artístico, virulento, tão “normal”, tão intelectual, tão superficial, tão material e tão sem rumo, cumprir a tarefa de promover uma mudança no olhar com que nos encaramos uns aos outros. Mas sem aquela demissão de pensar que constitui uma das enfermidades mais radicais da nossa era, característica de certa minoria pensante mas tolhida e farisaicamente engastada no tradicionalismo passivo e cómodo de uma mentalidade que recebeu na poltrona, já estereotipada e anacrónica.


F. M. C.