Mensagem de Reflexão para o mês de Abril

 

 
O fim da existência não é a felicidade: é a perfeição espiritual, intelectual e moral.

 

Viagens Filosóficas   — 2020

 

Évora - Foral de 1503


Évora — O Sagrado e o Profano

 
A cidade de Évora chamava-se, no ano 59 a.C., Liberalitas Julia, nome atribuído por César Augusto em homenagem ao deus Júpiter. Teve enorme importância económica na antiga Lusitânia. Foi elevada a município pelo imperador romano Flávio Vespasiano, com o privilégio de cunhagem de moeda. Quinto Sertório (c.122 a.C. - 72 a. C.), general romano e antigo pretor (magistrado da antiga Roma encarregado da Justiça), fixou-se na região e iniciou a construção das primeiras fortificações e edifícios. Entre eles avulta o Templo Romano situado na acrópole, a parte mais alta da cidade, o espaço outrora divinizado e já local de cultos pré-cristãos do Neolítico.

Depois da queda do Império Romano e durante a ocupação árabe, esta cidade ficou integrada no Andaluz com o nome de Ebris. Com a expulsão definitiva dos invasores, no Outono de 1165, pela intervenção de Geraldo sem Pavor, D. Afonso Henriques iniciou o repovoamento da região e concedeu-lhe foral (1).

Évora foi a cidade escolhida para a nossa viagem filosófica do ano em título.

Lugares Altos

A escolha do espaço para a implantação de um local de culto recai, em regra, em lugares elevados. A atracção pelas alturas é uma característica do comportamento religioso.  O Deus “altíssimo” (Gn 14, 18-20) manifesta-se sobre o “monte ou a montanha” (Ex 3,1; 19,3-25, etc.). Na Bíblia, “santuário” e “lugar alto” chegam a ser sinónimos (Deut 12, 2-3). O Criador está associado à ideia de altura (Sl 148,1). Esta prática é comum às religiões dos Semitas e persiste igualmente no islamismo
(2).

(…)

Na cidade de Évora, o cimo da única colina proeminente da cidade já estava ocupado pelo Templo Romano desde as primeiras décadas do século III d. C.. Mas os construtores da Catedral souberam respeitar as ruínas existentes naquele “local de santidade geográfica” onde se identificava uma força misteriosa conhecida por genius loci, o espírito do lugar. Para não se distanciarem dele, ergueram-na numa encosta do terreno livre, o que parece demonstrar que esta apropriação dos antigos locais sagrados por parte dos romanos e, mais tarde, pelos cristãos, era uma prática comum e deliberada.

A cidade antiga, como associação religiosa e política das famílias e tribos, reflecte a construção ternária do universo. A divisão da cidade tradicional inclui os três mundos em que decorre a presente fase do desenvolvimento humano: a esfera espiritual, a emocional ou psíquica e a física ou material (3).

(…)

Como é de esperar, a Catedral está orientada para o nascente: o altar está do lado do Oriente, ponto que marca o nascer do Sol; e a entrada principal do lado oposto, no Ocidente. Em regra, todas as igrejas desta época têm esta orientação (4). O Sol era, para muito povos, uma manifestação da divindade (epifania uraniana), não só a fonte da luz e do calor, mas também da vida (5).  Por isso, os seus raios representam as influências celestes, ou espirituais. É uma orientação invariável e de tal modo, que fiéis e profanos, entrando no templo do lado poente, caminham em direcção ao altar-mor do lado do Oriente.

A Catedral de Évora foi consagrada em 1204. O Ritual Romano determinava que a consagração só podia ter lugar ao domingo, o dia do Sol, sendo precedida de uma vigília no dia anterior. Esta cerimónia,  presidida pelo Bispo da diocese, incluía a bênção, a purificação do edi-fício com água benta e três circum-ambulações em torno do templo. Identifica-se neste acto uma visão do universo com base numa tripla simbologia: a do eixo vertical, em que se distinguem vários planos do cosmo; o plano horizontal, que está marcado pela noção do centro, “o umbigo do mundo” (Ez 38,12), que se opõe à periferia; e, finalmente, a do tempo, isto é, a eternidade.

No trajecto circular da circum-ambulação há dois semicírculos: um representa o arco descendente (involução) e o outro o arco ascen-dente, da ascensão para a luz do conhecimento. Em Portugal, este preceito nem sempre foi cumprido.

(…)

A Sé de Évora foi dedicada, muito acertadamente, a Santa Maria, personagem venerada desde os períodos pré-históricos do antigo mundo mediterrânico. Em latim, “maria” é o plural (neutro) de “mare” (mar), e traduz-se à letra por “mares”, com um sentido que nos remete para o texto do Génesis 1, 2: “o espírito de Deus era levado sobre as águas”. Estas “águas-mães” são a mater da Natureza visível, de todos os organismos físicos, e é interpenetrada pela Natureza invisível, com a qual forma uma unidade (6). É o princípio feminino universal personificado na forma de uma figura humana que tem sido venerada nas diversas formas das deusas-mães: a Magna Mater Deum, a Grande Mãe dos deuses, que se tornou, no fim do Império Romano, a Mãe e protectora de todos: dos deuses, do estado e da vida (7). Mais tarde foi cristianizada com as correspondentes Nossas Senhoras.

Esta mater é a matéria do polo negativo do Espírito Universal, a que chamamos “Substância-Raiz-Cósmica”, enquanto que o Grande Ser Criador, a quem chamamos Deus (e do qual, como espírito, participamos), é a expressão da energia positiva do mesmo Espírito Universal (8)!

(…)

É, com efeito, impossível que o visitante ignore o sistema de símbolos usado na construção daquela igreja, concluída em 1245, e o modo como se articulam com a lógica interna da exegese cristã dos escritos bíblicos, isto é, com o estudo do significado de um texto na sua originalidade, história, etc.

Diz Victor Hugo (9): “cada pedra daquele venerável monumento é uma página, não só da história do país, mas também da ciência e da arte (…) onde até os herméticos acham nos símbolos do grande portal uma abreviatura satisfatória da sua ciência (...). A arte gótica, a arte saxónia, o pesado pilar redondo, que faz recordar Gregório VII, o simbolismo hermético pelo qual Nicolau Flamel preludiava Lutero, a unidade papal, o cisma, S. Germano-dos-Prados, S. Tiago do Matadouro, tudo está fundido, combinado, amalgamado na igreja de Nossa Senhora”.

Como iremos ver, a Sé de Évora é também um exemplo claro de um livro mudo, com páginas de pedra onde se podem encontrar mensagens e sinais da Grande Obra fundada na ciência alquímica e reveladas através dos segredos geométricos da lendária Escola de Pitágoras. Esse procedimento tradicional, sempre rodeado de uma aura de conotações místicas transmitidas mestre a aprendiz, conseguia despertar uma sinestesia psicossomática dedicada ao serviço do espírito aproveitando o contributo da arte.

Ariel

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