Mensagem de Reflexão para Março

 
 

Quem não tem carácter não é homem, é uma coisa.

 

 

 

 Viagens Culturais - I

Visita à Cidade Templária

 

Em Junho cumpriu-se o programa de viagens culturais para o ano em curso destinado a membros da F. R. P. e familiares com uma visita à cidade templária de Tomar. Antes de recordar o passeio, aliás rápido como todos, não nos podemos furtar a alguns apontamentos históricos que talvez não venham fora de propósito para melhor se compreender a origem dos factos a que nos referimos.

 

Afonso Henriques e Gualdim Pais

A fixação dos Templários em Portugal remonta à época do governo de D. Teresa, viúva de D. Henrique de Borgonha e mãe de D. Afonso Henriques (1109-1185). Em 1126 já se encontravam instalados em Braga e em 1128 receberam a doação do castelo de Soure. Admite-se que neste ano a Ordem estivesse dotada de um contingente militar capaz de enfrentar os muçulmanos, embora se desconheça o número dos seus efectivos(1).

Pouco depois da batalha de Ourique (1139), Gualdim Pais (1125?-1195) foi armado cavaleiro por D. Afonso Henriques e partiu com destino à Palestina. Aqui deve ter completado a iniciação na Sabedoria tradicional e, por isso, quando regressa a Portugal é investido como 6º Mestre da Ordem Templária Portuguesa.

Enriquecida com a presença da Ordem, à qual foi doada como feudo pelo primeiro rei português, Tomar adquiriu as características de uma “Cidade Santa”. À semelhança de Roma ou de Constantinopla, tem sete colinas (a Mata dos Sete Montes) e um modelo castelar com o espaço divido em três grandes segmentos separados por muralhas internas. Este desenho evoca a tripla divisão do Templo de Salomão, que tinha a mesma planta do Tabernáculo do Deserto: o Átrio, o Lugar Santo e o Santo do Santos(2). No caso da cidade templária portuguesa, esse modelo desenvolve-se do seguinte modo: localizada na zona mais elevada, a Alcáçova era reservada aos freires Templários; no Pátio Central, logo abaixo, acolhia-se a população da zona em caso de ataque; por fim, na zona residencial intramuros conhecida por Almedina, situada a sul do Pátio Central, nasceu o primitivo núcleo urbano.

Com toda esta simbologia, reforçada pela ideia de verticalidade da Charola-oratório, como a escada de Jacob, que representa o fluxo cognitivo entre níveis de realidades diferentes(3),Tomar tornou-se um referencial espiritual do pólo da Cidade Santa.

(1) Nuno V. Oliveira, Castelos Templários em Portugal; Ésquilo, 2010.

(2) Max Heindel, Iniciação Antiga e Moderna; F.R. P., Lxª; 1999.

(3) Templum Domini – A Herança Templária, in ROSACRUZ nº 409, Julho-Agosto-Setembro de 2013.

 

O Senhor da Europa

Por esta altura, e desde o início do século XII, os reis franceses vinham reforçando uma política centralizadora que passava por colocar as cidades sob a sua dependência. Filipe IV (1285-1314), chamado O Belo pelos aduladores, foi um importante seguidor dessa orientação, pelo que não admira que, vendo com maus olhos o facto de os territórios do clero continuarem independentes da jurisdição régia, alimentasse uma luta contra o Papado.

Diga-se com clareza que o seu programa de governo era válido, pois destinava-se a eliminar poderes exteriores que se sobrepusessem ao Estado. Os custos dessa política eram, no entanto, elevadíssimos. Com efeito, ela forçava-o a manter um permanente estado de guerra contra os poderosos barões e contra a Inglaterra, que tinha importantes possessões em França.

Na tentativa de alcançar o desafogo financeiro, Filipe O Belo lançou mão de vários expedientes: desvalorizou a moeda, confiscou bens a banqueiros e cambistas, extorquiu somas avultadas à Ordem de Cister e aumentou assustadoramente os impostos — deixando porém os nobres isentos. Depois, recorreu ao imenso alfobre da Igreja e acusou o papa Bonifácio VIII de crimes reais e imaginários. Em resposta, o pontífice declarou ilegal o alargamento de impostos ao clero, mas pecava por ter pouca autoridade na matéria, visto ter previamente desviado dinheiro destinado a financiar as Cruzadas para uma guerra privada(4). Em 1301, Bonifácio VIII reactiva uma bula caída no esquecimento e reitera a ilegalidade do lançamento de impostos sobre a Igreja — à semelhança do que se passava com os nobres. A querela cresceu, e em 1302 o Papa promulga a grande bula Unam Sanctam, em que lembra ser “necessário, para a salvação, que todas as criaturas humanas se submetam ao Pontífice Romano”. O poder temporal da Europa estava, de facto, nas mãos do Papa; podia delegá-lo, mas também podia retirá-lo(5).

Como o monarca francês parecesse imune às ameaças, em 13 de Junho de 1303 Bonifácio VIII promulgou a bula da sua excomunhão, declarando-o expulso da sociedade cristã e libertando os seus súbditos do dever de obediência.

 



À esquerda: O selo mais comum da Ordem do Templo.

À direita: o selo do Grão-Mestre. Existem vários modelos do selo do Grão-Mestre. Na inscrição lê-se: S’TVBE TEMPLI XPI, ou seja, SIGILUM TUBE CRISTO: o selo do túmulo de Cristo.


Ocorreu então em Roma uma rápida sucessão de papas. Morto Bento XI, sucessor de Bonifácio VIII, Filipe IV fez eleger um papa francês, Clemente V (1305-1314). Este, quatro anos depois de se ter sentado na “cadeira de Pedro” deixou a Cidade Eterna e foi estabelecer a corte pontifícia em Avinhão, na própria França, cidade que seria a sede do Papado durante cerca de 70 anos — o chamado cativeiro de Avinhão.

Na mesma altura, Filipe IV abre hostilidades contra os cavaleiros da Ordem do Templo, fazendo-os condenar por vários crimes. Ora, o papa Clemente V, eleito como vimos com os favores de Filipe IV, cede às pressões do monarca francês e, em 1308, pela bula Regnans in coelis, ordena ao nosso D. Dinis que desencadeie inquirições sobre o comportamento dos Templários em Portugal. Neste mesmo ano, em Dezembro, ordena a prisão dos Templários, o arresto dos seus bens e a sua entrega às autoridades eclesiásticas mesmo antes de a Igreja chegar a uma conclusão sobre as acusações de que eles eram alvo. Só em 1312 a bula Vox in excelso oficializa a suspensão da Ordem do Templo e a integração do seu património na Ordem do Hospital. O Grão-Mestre, Jacques de Molay, seria executado na fogueira dois anos mais tarde, em 1314(6).

A forma como a riqueza dos Templários foi divida revela o móbil e a natureza da acusação, ao mesmo tempo que explica o aparecimento de falsos testemunhos, habilmente insinuados no acanhado espírito dos denunciantes com um fim utilitário bem determinado. Nessa partilha, Filipe, O Belo, tomou posse das terras, como pretendia, enquanto Clemente V ficou com todos os outros bens, fundamentalmente constituídos por somas de dinheiro e ornamentos de ouro e prata(7).

(4) E. R. Chamberlin, Papas Perversos, 1976, p. 138)

(5) E. R. Chamberlin, Papas Perversos, 1976, p. 141).Recorde-se que, para se evitarem excessos, D. Pedro I (1320-1367) ordenou, apesar dos protestos do clero, que nenhum documento emanado da Santa Sé fosse publicado em Portugal sem, primeiro, ser por ele examinado, estabelecendo o princípio do “beneplácito régio”.

(6) Admite-se como certo que a fundação da Fraternidade Rosacruz está associada à suspensão da Ordem do Templo pelo Concílio de Viena. De facto, se esta Fraternidade “só teve origem na Alemanha durante o século XVII, como se justifica a ocorrência, no Convento de Cristo, já antes de 1535, dos símbolos que o ramo germânico só cerca de um século mais tarde havia de adoptar?” (Cf. Manuel J. Gandra, “Esquissos Sobre a Rosa-Cruz Templarista em Portugal”, Mafra, 2012; Ariel, A Fraternidade Rosacruz Foi Fundada há 700 Anos, Revista Rosacruz nº 410, Outubro-Novembro-Dezembro de 2013). 

(7) Maurício de Lachatre, Crimes dos Papas, Vol. II; Barata & Cª, Lxª, 1874., 340)

 

A Criação da Ordem de Cristo

Em Portugal, D. Dinis (1261-1325) responde à bula Regnans in coelis através de vários recursos (processos judicias, inquirições, cartas de mercê) fundamentando o direito da Coroa portuguesa aos bens da Ordem com o facto de a milícia templária apenas deter o seu usufruto. Do ponto de vista do soberano luso, era pois legítima a reintegração desses bens no património régio(8).

 

A argumentação do monarca português, através dos seus representantes e delegados junto do Papa, suportava ainda o pedido de instituição de uma nova ordem militar na linha sul da costa algarvia, com fundamento na ameaça muçulmana proveniente de Granada e do Norte de África. E também deixava claro que era sua intenção conceder à nova ordem a posse da fortaleza de Castro Marim.


O rei Trovador seguiu a política dos seus antecessores tanto nos aspectos administrativos, como nos económicos e administrativos. O que todavia sobressai do seu governo é o interesse pela actividade marítima, traduzido no fomento da construção de navios destinados à marinha de guerra(9). Consciente da necessidade de o Reino dispor de uma frota capaz de vencer os perigos do mar oceano, o monarca decidiu mandar plantar o chamado “Pinhal de Leiria”, ainda hoje existente, porque os Árabes haviam devastado as antigas florestas portuguesas de robles, cedros e castanheiros. Os pinheiros serviam, naturalmente, para fixação da terra arenosa da orla marítima, mas a sua maior importância estava no fornecimento de madeira própria para a construção naval que estava em crescimento.


Os Templários portugueses também adoptaram a cruz com as extremidades em arcos convexos irradiando do centro do círculo. É a cruz típica na construção do Convento de Tomar. Mas durante a edificação dos anexos modificaram-na eliminando os arcos convexos das extremidades. Em 1400 é introduzida uma ligeira modificação no símbolo, que só adquire a sua forma definitiva em 1460.

Finalmente, a 14 de Março de 1319, o papa João XXII, que residia em Avinhão, institucionalizava a nova ordem militar do reino de Portugal, pensada e criada por D. Dinis, a Ordem da Cavalaria de Jesus Cristo, uma instituição inteiramente nacional, gorando a expectativa do seu amigo cardeal Bertrand a quem já havia prometido o castelo de Tomar(10). Na realidade, esta nova Ordem era formada pelos antigos membros dos Templários e respectivos bens. Para estabelecer uma demarcação formal da oficialmente extinta Ordem do Templo e melhor justificar a sua existência, a nova Ordem de Cristo estabeleceu a sua sede em Castro Marim. Porém, em 1357, relativamente acalmadas as paixões, D. Pedro I (1357-1367) transferiu-a definitivamente para Tomar.

Com o falecimento de Clemente V, em 20 de Abril desse ano de 1314, e durante o período de sede vacante (cerca de dois anos), instala-se um clima de conflito, intrigas e pilhagem dos bens eclesiásticos até à eleição do novo papa(11).  Decorridos quarenta dias de jejum forçado pediram ao cardeal Jacques d’Euse (1249-1334) para escolher o que julgasse mais digno de todos para sucessor de Pedro. O orgulhoso prelado “lançou mão da tiara e proclamou-se Papa a si mesmo com o nome de João XXII” (1245-1334).

(8) José Albuquerque Carreiras (Ed.), I Colóquio Internacional Cister, os Templários e a Ordem de Cristo — Actas; Tomar, 2012.

(9José Augusto S. M. Pizzaro, D.Dinis, Lxª, 2008, p.222)

(10Maurício de Lachatre, Crimes dos Papas, Vol. II, Barata & Cª; Lisboa 1874, pp 343-344.

(11) Paulo A. Loução, O Espírito dos Descobrimentos Portugueses, Lisboa, 1998, p.135. Cf. Maurício de Lachatre, Crimes dos Papas, Vol. II, Barata & Cª, Lisboa 1874, p.337.


A Cruz Templária e da Ordem de Cristo

 Na Revista Rosacruz nº 421 (Julho-Agosto-Setembro de 2016) faz-se o estudo das principais variantes da cruz da Ordem do Templo.



Ariel