Mensagem de Reflexão para o mês de Outubro

 

 
A caridade começa em nós e, na maior parte das vezes, termina onde começa.

 

 

 

A Não-Aceitação da Identidade Sexual e a Memória de Vidas Passadas.

 

 Resumo

Objectivos

Este estudo investiga crianças que não aceitam a sua própria identidade sexual e a relação deste facto com as memórias que essas mesmas crianças têm de uma suposta vida anterior.

 

Método

Estudaram-se 469 crianças que referem ter memórias de uma vida passada. Usou-se o método de regressão logística para avaliar se essas crianças tinham comportamentos indicadores de não aceitação da sua identidade sexual.

 

Resultados

As crianças que referem ter sido de um sexo diferente numa vida anterior têm uma maior probabilidade de não aceitarem a sua identidade sexual actual, do que as que referem memórias de ter sido do mesmo sexo.

 

Conclusões

Após exploradas várias hipóteses, concluímos que as memórias de vidas passadas representam um novo factor eventualmente associado à não aceitação da identidade sexual por parte das crianças.

 

Introdução

Apesar de algumas excepções, desde cedo que rapazes e raparigas tendem a mostrar diferenças de comportamento, manifestando diferentes preferências relativamente a brinquedos, brincadeiras e escolha de companheiros de brincadeira (Campbell, Shirley, & Caygill, 2002; Golombok, Rust, Zervoulis, Golding, & Hines, 2012; Hines, 2010).

 

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Bruce Greyson, Ed Kelly, Marieta Pehlivanova, Kim Penberthy, and UVA DOPS Director, Jim B. Tucker (Photo: Nile Hawver)

Image source: University of Virginia School of Medicine

A partir dos três anos (ou ainda mais cedo), as raparigas costumam mostrar mais interesse em brincar com bonecas, casas de bonecas, serviços de chá, e geralmente envolvem-se em brincadeiras em que colaboram umas com as outras. Já os rapazes preferem brincar com camiões, carros, comboios ou armas de brincar, preferindo brincadeiras de maior acção (Maccoby, Jacklin, 1987; O’Brien  Huston, 1985; Pasterski et al., 2007; Pitcher & Schultz, 1983; Ruble, Martin & Berenbaum, 2006; Servin, Bohlin & Berlin, 1999; Todd et al., 2018; Weisgram, Fulcher, & Dinella, 2014). Com efeito, a partir dos 3 anos de idade, a maioria das crianças prefere brincar com crianças do mesmo sexo (La Freniere, Straynor, & Gauthier, 1984; Martin & Fabes, 2001; Zucker, 2005). Este tipo de comportamento tende a aumentar à medida que as crianças crescem e mantém-se estável mesmo durante a adolescência. (Golombok et al., 2012, Martin & Fabes, 2001). Estas preferências foram ainda observadas em grupos de crianças mais pequenas (entre os 9 e os 17 meses) ou seja, antes mesmo da idade em que a identidade sexual é geralmente demonstrada (Todd, Barry, & Thommessen, 2017).

No entanto, estes resultados têm vindo a mudar, com estudos mais recentes mostrando que algumas crianças (de ambos os sexos, mas principalmente raparigas) brincam agora menos com brinquedos tipicamente femininos ou masculinos. Este facto pode estar relacionado com os esforços que alguns pais e alguns educadores têm feito para que se passem a utilizar brinquedos mais neutros.(Todd et al. 2018).

Em geral, rapazes e raparigas tendem a adoptar comportamentos de acordo com seu sexo. No entanto, algumas crianças têm tendência a ter comportamentos diferentes do habitual. Quando isto acontece, diz-se que a criança apresenta um quadro de Não-Aceitação da sua Identidade Sexual (van Beijsterveldt, Hudziak & Boomsma, 2006). A Não-Aceitação da Identidade sexual não é considerada uma doença. As estimativas sugerem que, por volta dos 7 anos de idade, cerca de 3,2 % dos rapazes e 5,2% das raparigas têm comportamentos que não condizem com o seu sexo.

Neste artigo, iremos focar-nos num novo factor que pode estar associado ao desenvolvimento da Não-Aceitação da Identidade Sexual.

A causa das diferenças individuais em relação à Não-Aceitação da Identidade Sexual foi avaliada em estudos feitos com gémeos. Estes estudos lançaram uma nova luz em relação à eventual contribuição dos factores genéticos e dos factores ambientais no desenvolvimento da Não Aceitação da Identidade Sexual.

Os resultados destes estudos têm sido relativamente consistentes.

Resultados de estudos feitos com gémeos mostram que tanto factores genéticos como fatores ambientais parecem estar envolvidos no desenvolvimento da Não-Aceitação da Identidade Sexual (Alnako et al. 2010; Bailey, Dunne, Martin, 2000; Knafo, Iervolino, Plomin, 2005; Van Beijstervledt, Hudziak, Boomsma, 2006). No entanto, parece haver uma maior contribuição genética no caso das raparigas, mas menos consistentemente apresentada nos rapazes. (Iervolino, Hines, Golombok, Rust, & Plomim, 2005; Kanfo et al. 2005; Bailey et al., 2000; van Beijsterveldt et al., 2006). No entanto, a natureza específica da contribuição de todos estes factores continua por esclarecer.

Os factores relacionados com o meio ambiente incluem:

Factores sociais, como o tipo de educação dos pais ou as relações pais-filhos (Alanko et al. 2009; Landolt et al. 2004);

Factores biológicos, como a exposição à testosterona na fase pré-natal, que mostrou ser um factor potenciador no desenvolvimento de comportamentos de tipo masculino (sobre este assunto, ver Hines, 2010).

Neste artigo, consideramos um factor que ainda nunca foi explorado (que também ocorre na infância) e que pode influenciar os casos de Não-Aceitação da Identidade Sexual, tanto por rapazes como por raparigas. Este fato, a memória de supostas vidas passadas, não pode ser categorizado nem como fato genético nem como fato ambiental.

Casos de tipo-reincarnação

O fenómeno de existirem crianças que se lembram de terem tido uma suposta vida anterior, ocorre em países de todo o mundo (Stevenson, 2001). Nos últimos 50 anos, investigadores compilaram estes casos, estudaram-nos e encontraram características comuns entre eles. Estes casos foram relatados na literatura como sendo casos tipo-reincarnação (CTR).

 Estas crianças geralmente começam a falar espontaneamente acerca da vida de uma outra pessoa, a que se referem como sendo a sua “personalidade anterior” (PA). Este fenómeno é transitório, iniciando-se geralmente entre os 2 e os 5 anos de idade e terminando, também espontaneamente, entre os 6 e os 8 anos.

Em alguns casos, as informações que a criança transmite acerca da sua suposta PA, são tão específicas que permitem mesmo a identificação de uma pessoa falecida com características correspondentes às que a criança refere.

Às vezes, esses casos incluem características adicionais que vão para além dos relatos orais das crianças, como por exemplo:

— A criança ter nascido com uma marca de nascença ou com algum defeito no corpo que corresponda a feridas fatais das suas supostas PA (Stevenson, 1997);

— A criança ter comportamentos, gostos, preferências ou medos que são coincidentes com os da sua suposta PA.

Uma característica interessante, cientificamente documentada, é que crianças que se lembram de uma suposta vida anterior em que tinham um sexo diferente do que têm agora, têm muitas vezes comportamentos que não estão de acordo com a sua sexualidade actual. (Stevenson, 1977; Tucker, & Keil; 2001).

Neste artigo, vamos explorar a possível relação entre crianças que referem ter tido um sexo diferente numa suposta vida anterior e a Não-Aceitação da sua própria sexualidade. Vamos também avaliar quais as possíveis explicações para este facto.

 

Métodos Usados

Existem mais de 2200 CTR, registados em vários países, que foram investigados e devidamente documentados pela Departamento de Estudos da Percepção da Universidade de Virgínia, de acordo com um protocolo desenvolvido pelo professor Ian Stevenson (1977a). Quando um caso novo é identificado, um investigador conduz uma exaustiva investigação através de várias entrevistas com a criança, com os pais da criança e com os seus parentes próximos, para obter informações detalhadas sobre o caso.
 Estas entrevistas decorrem de acordo com um guião próprio, de modo a garantir uma uniformidade na recolha de dados. As entrevistas recolhiam, entre outras informações:

— os dados demográficos da cada criança e da sua PA;  

— algumas características, tais como a presença de marcas de nascimento;

— comportamentos associados aos da suposta PA.

Todas as pessoas entrevistadas deram o seu consentimento informado para participar. Este estudo foi aprovado pelo Conselho de Revisão Institucional da Universidade para Ciências Sociais e Comportamentais.

Participantes

A nossa amostra é constituída por 469 casos de crianças de ambos os sexos que referem ter lembranças de uma vida passada e foi retirada desta vasta base de dados.

Para cada um destes casos, considerámos a seguinte informação:

— Sexo da criança

— Sexo da suposta PA

— Informação acerca de comportamentos que não se identificam com a sexualidade padrão.

Os casos estudados têm a sua origem num total de 23 países diferentes, incluindo Sri Lanka (29% da amostra total), Turquia (27%), Índia (10%), Myanmar (10%), Estados Unidos (10%), Tailândia, Líbano, Canadá e Brasil. A maior parte destes países têm uma crença cultural em reencarnação.

A média de idade em que as crianças começaram a falar acerca de uma suposta vida passada foi de 2,77 anos (sendo 12 anos a idade mais avançada).

Os 469 casos que registámos têm uma relação directa entre a criança e a sua PA.

Estes casos foram definidos do seguinte modo:

Casos de sexo diferente – quando a criança e a sua PA eram de sexos diferentes (107 casos - 22,8%).

Casos de sexo idêntico – quando a criança e a sua PA eram do mesmo sexo (362 – 77,2%).

Esta informação foi posteriormente codificada como:

Positivo - para os casos de sexo diferente

Negativo - para os casos de sexo idêntico

Os comportamentos de Não-Aceitação da sua Identidade Sexual incluem as crianças:

—  Usarem roupas e cortes de cabelo mais típicas do sexo oposto.

—  Terem estilo de brincadeiras características do sexo oposto (ou mesmo mostrarem relutância em ter brincadeiras características do seu próprio sexo).

—  Mostrarem relutância em brincar com outras crianças do mesmo sexo.

A informação acerca da Não-Aceitação da sua Identidade Sexual foi retirada de um conjunto de notas dos investigadores e/ou das narrativas das crianças e de membros das suas famílias.

 

Resultados do estudo

A associação entre o tipo de memórias que as crianças têm das suas supostas vidas passadas e a não aceitação da sua identidade sexual é estatisticamente muito significativa.

As crianças que têm memórias de, na suposta vida anterior, terem sido de um sexo diferente daquele que actualmente são, têm muito mais probabilidades de não aceitar a sua sexualidade actual (80% das crianças) do que as crianças que têm memória de ter sido do mesmo sexo (5,8% das crianças).

 

Agradecimentos

Agradecemos a Bruce Greyson a sua permanente disponibilidade para analisar e comentar o presente estudo

 

Declaração Final

Os autores declaram ter realizado o presente estudo sem quaisquer apoios financeiros, de entidades individuais ou colectivas, sendo alheios a interesses ou simpatias de qualquer natureza. Todo o esforço realizado na presente actividade científica e investigativa ocorreu, por isso, de forma inteiramente autónoma, livre e voluntária. 

 

Marieta Pehlivanova, Monica J. Janke,
Jack Lee, Jim B. Tucker
Centro de Estudos da Percepção
Departamento de Psiquiatria e Ciências Neuro-behavioristas
Universidade da Virgínia — Charlottesville, E.U.A.

 

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