Mensagem de Reflexão para Dezembro

  

A preguiça é o único refúgio dos espíritos débeis.

 

 

A Natureza Humana

 

Um olhar objectivo que lancemos sobre o tempo já percorrido no actual século deixar-nos-á, inevitavelmente, muitíssimo perplexos. Até há bem pouco, pareceria disparatado admitir que, ao mesmo tempo que diminuía o analfabetismo, se venciam doenças epidémicas e se melhorava o nível de vida, pudessem agravar-se certos índices morais da civilização que sempre haviam sido associados à penúria e à ignorância. E apresentava-se como controverso que relatórios futurizantes registassem, em certas nações ou zonas ditas civilizadas, o recrudescimento de um tipo de actos que a opinião solene das classes educadas afirmava ser irrepetível nos seus países.

Todavia, a pressão demográfica, a divulgação tecnológica e a incapacidade de submeter pela via educativa os instintos e as derivações patológicas do homem contemporâneo viriam dar razão àquelas previsões. Observa-se, assim, a multiplicação de certos delitos a que, por analogia com as expressões do Direito, chamamos “privados”, e que são cometidos por pessoas ou organizações isoladas e desconhecidas, com violência armada ou ideológica, bem como de conflitos gerais normalmente localizados nas franjas incómodas dos centros urbanos. Ficou também patente que o agravamento quantitativo destas ocorrências está associado a uma mudança radical da sua qualidade, funcionando aqui a lei da conversão da quantidade em qualidade.


Por outro lado, mercê da atenção dos media de todo o mundo, começou a adquirir visibilidade outro nível de delitos, que designamos “públicos”, cometidos por figuras representativas das cúpulas da hierarquia social e para satisfação das suas aspirações paranóicas, quando não por grupos socialmente protegidos ou beneficiários de estatutos de privilégio.

Mas, na medida em que se puxam os cordéis da responsabilidade individual para se compreender esta ordem de desgraças, cai-se no absurdo. Ou se verifica uma diluição crescente da responsabilidade, ou uma concentração da mesma em determinadas figuras, funções e ideais. É como se cada uma destas fosse uma peça de um complicado xadrez em que todos os lances, dos menos aos mais inspirados, permitissem estratégias diversas, que tanto pode ser a do astucioso Príncipe de Nicolau Maquiavel (1469-1527) e da sua moral de conveniência, como a do Leviatã de Tomás Hobbes (1588-1679) e do seu paradigma do Estado absoluto, civil ou eclesiástico. Em ambos os casos fica patente uma concepção pessimista da natureza humana, cujo fundo perverso e desprezível é usado seja em benefício da política do príncipe (Maquiavel), seja com o fim de alcançar a ordem e a paz dos estados (Hobbes).

Perguntar-se-á agora como pode um engravatado burocrata ou gestor simpático e sorridente adoptar comportamentos tão carecidos das qualidades básicas que a sua função exigiria, sujeito a impulsos arbitrários e sem alicerces de ordem moral, denunciadores de uma visão unilateral do mundo.

Significará isto que o exercício do dever, ou o que possa ser entendido como tal, pode embotar o sentido crítico de cidadãos aparentemente dedicados e disciplinados, de modo a levá-los, com o fito de alcançar determinados objectivos, a usar um palavreado jurídico e pseudo--humanístico para emular valores, fingir qualidades e desempenhar comportamentos que depois se revelam um tanto insanos?

A possível sucessão de perguntas torna-se cada vez mais incómoda à medida que se observa poder esta calamidade vir a converter--se num mecanismo intrínseco às estruturas sociais de todas as sociedades. Ora, admitida a existência do espírito no homem, a transgressão das normas morais universalmente aceites que servem de sedimento à vivência civilizacional choca pelo contra-senso e assume, naturalmente, dimensão espiritual. E aqui o problema sobe de tom e de acuidade, revelando que o assunto à volta deste comportamento acaba por esconder outro muito mais importante, que é o de saber se ele permite, ou não, o progresso de modo que sejam vividas, respeitadas e garantidas determinadas liberdades e se torne possível desenvolver, a nível colectivo, certas e específicas potencialidades humanas e espirituais.

Se é verdade que o homem social sempre tem acusado uma certa debilidade, patente nos sacrifícios humanos, nos homicídios e na disparidade entre os progressos técnico e ético, o que nesta época de subversão de valores históricos e sociais basicamente ocorre é uma alteração qualitativa da força moral, que é a qualidade mais típica do carácter e a sua verdadeira marca pessoal (1).

Ao atentarmos nos títulos dos espectáculos ou ao escutarmos e virmos os programas da rádio e televisão com maior aceitação pública, verificamos que uma crescente vaga mediocrática, com a sua gradual desassimilação aos preceitos sociais vigentes, contribui para a acumulação de elementos e factores patogénicos numa sociedade que, ao sabor de uma rude e fria ética esclerosada e com níveis elevados de incompetência, gerou o clima onde preponderam o “especialista”, o “habilidoso” e o “artificioso” (2).

Dito isto, vê-se que o motivo fundamental por que o homem se desorbitou face a um conjunto de alterações exteriores que o levaram a desadaptar-se e a seguir uma senda divergente dos desígnios naturais, colocando-o abaixo do seu habitual nível de assimilação civilizacional — mais do que a dificuldade de as gerações ancestrais educarem e absorverem as gerações emergentes — foi a incapacidade da educação para proceder à mútua adaptação entre a hereditariedade individual e a mentalidade colectiva, de tal modo que a subjectividade, a intersubjectividade e a objectividade se anarquizam por falta de uma análise do valor absoluto e relativo destas manifestações espirituais.

Como disse Henrique Bergson (1859-1941), “o cristianismo permite a síntese autêntica dos três termos” do célebre trinómio “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” do século XVIII, que são três referências transcendentes para o fundamento dos direitos do homem e para a solidariedade que desapareceram gradualmente na Idade Moderna. Mas a uma primeira fase da modernidade europeia em que os valores morais, embora já parcialmente desligados da sua matriz espiritual, permaneciam ainda cristãos, sucedeu-se uma outra na qual o desenraizamento fez sentir mais fortemente os seus efeitos.

Bem se compreende, por isso, um certo sentimento de frustração com que normalmente as pessoas se referem ao enorme esforço da humanidade, desenvolvido dentro das coordenadas instituídas pela religião, como uma simples domesticação ética e automatização do pensamento e dos gestos, que não passou da superfície3. E agora, nos limites da sua capacidade formadora, corre o risco altamente provável de se revelar completamente incapaz de servir de impulso para a humanidade poder continuar a evoluir no sentido da sua espiritualização e em direcção a estádios de vida superiores.

Falhou, portanto, no esforço da religião, a função “autoconsciencializadora” do homem para saber o que é o espírito e para que tende o espírito, extraindo desse conhecimento os elementos que lhe permitissem compreender o lugar que o espírito (através do homem) ocupa no mundo e como o génio da vida, através da evolução biológica, vai empurrando todas as formas para novos estádios de consciência. A religião tem passado, assim, não raras vezes, por ser uma forma doutrinária estranha e indefinida, confusa e parabólica. E ao não ser bem definida, ao ver-se incompreendida, ao ser revestida de roupagens um tanto ou quanto impalpáveis, veiculando ideias diáfanas e figuras aparentemente inacessíveis, converteu-se num vocábulo tímido, numa ideia imprecisa, prestando-se a baixas especulações de indivíduos familiarizados com uma certa terminologia.

De forma idêntica falhou a instrução, por ter sido levada a cabo de modo facilitista e destituído de rigor e exigência, segundo critérios ad hoc e através de sucessivos experimentalismos conforme as modas pedagógicas, incapaz de incutir na juventude a noção de responsabilidade e dever cívico. Eis, portanto, instalado o clima natural do paraíso da infracultura, da pseudo-cultura e da crítica diminuída, em que preponderam problemas que não podem ser ignorados — como a droga, a decadência familiar, a agressividade ou a imoralidade no sentido universal da vida pública e no domínio privado. E isto é certo mesmo que procure encontrar-se uma justificação no argumento da liberdade, da livre iniciativa e do dever dos poderes públicos de não interferirem com as opções individuais e colectivas, desde que não ameacem directamente a sobrevivência da vida em sociedade. Trata-se de um argumento que não colhe, porquanto tais fenómenos representam ameaças efectivas não só à vida em sociedade, mas até mesmo à própria sobrevivência do homem.

Descortinada assim a causa da galopante disparidade entre os progressos técnico e ético-espiritual, falta apenas lembrar que a aptidão retórica e o especial talento para falar às massas, com refinadas técnicas de convencimento e organização, é um meio de acção que se deve ao engenho dos que se julgam capazes de resolver os problemas candentes da humanidade por via de um espírito de simples assistência ou de consolação, de meras alterações de carácter social e político, de justiça económica e abundante informação técnica e científica.

Num plano distinto situam-se os que procuram as causas, não somente exteriores ao género humano mas também internas e relacionadas com a natureza, origem e actual composição da espécie. Qual a lógica da natureza, quais as razões da espécie humana, quais os objectivos da evolução e de que modo se enquadram nestes o passado e o presente da nossa vida, quer individual, quer em sociedade.

Todas estas questões ultrapassam largamente uma abordagem em que os sistemas políticos são vistos como “certos” ou “errados” e se invocam razões meramente técnicas e exteriores ao homem, para se situarem no cerne do problema humano — por outras palavras, no próprio homem enquanto sujeito natural e social.

É este o nível em que a filosofia rosacruz se insere naturalmente, o que lhe permite fornecer as linhas mestras que iluminarão as ciências naturais e culturais envolvidas no estudo do homem.

Sendo o seu dever transformar o mundo tornando-o habitado por pessoas mais perfeitas porquanto naturalmente mais bem adestrados para a batalha da evolução, ou seja, para o futuro do universo, esta filosofia deverá também fornecer dinamicamente uma terapêutica que permita inverter esta ordem das coisas, com vista a remediar erros e a corrigir vícios e atrasos históricos.

E assim, ao reencaminhar o homem no sentido naturalmente correcto, que é o da sua espiritualização, a filosofia rosacruz acabará por instituir simultaneamente as bases de uma convivência frutuosa e altamente repercutiva no aceleramento da evolução espiritual da humanidade.

F. M. C.

1. Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 4ª Ed.;, Lxª  2005, pp. 77, 92.
2. Vd. MP Vai ter Plataforma Informática Sobre Corrupção; in Jornal “Público”, 13 de Março de 2018.