1. Clínica Principal (Direcção: Prof Dr, K. Wolff) e Instituto da História da Medicina (Direcção: Prof Dr. H. Wyklicky) da Universidade de Viena - Áustria

Como fonte portuguesa da seguinte argumentação é utilizada a tradução unificada da Bíblia (Difusora Bíblica) (2), quando nenhuma tradução é referida separadamente. A história do monumento funerário em si, fica fora de qualquer argumentação: relativamente a isso remete-se para a vasta literatura existente (1,3,6).

“Salzburgo tem em São Sebastião um Cemitério, certamente único para cá dos Alpes. Não só a localização da cidade principesca com as suas igrejas, praças e palácios irradia o espírito do Renascimento; quem tem sentido e alma para tal, pode seguir o rasto da “Italianità” desta cidade até ao reino dos mortos” (August Stockklausner, no prólogo do livro de Conrad Dom sobre este cemitério) (3).

Aqui também descansa Paracelso, cujo túmulo é um epitáfio erguido em 1752, que hoje em dia está entre a entrada do cemitério da igreja de São Sebastião e o chamado “Bruderhof”. Este epitáfio [(3), pag. 10 e 188, 189], apresenta uma imagem em relevo de Paracelso (Tondo) (3) [antigamente encontrava-se ali a imagem de seu pai (1)], tanto como duas inscrições: uma mais abaixo, na parte integrada já no epitáfio anterior do mestre (1); uma mais acima (figura 1) que se encontra num acrescento em forma de pirâmide acima da imagem e que data de 1752. Vamo-nos debruçar sobre esta última.

No tratado de Aberle ela é directamente legível, enquanto a referência “Job c. 19” só dificilmente se lê, com a lupa; na imagem de Dorn (3) quase não é legível, mas em contrapartida encontra-se na página seguinte (pág. 188) a inscrição impressa a latim e a alemão (3), em Hüber (6), não se encontram imagens. A inscrição diz:

Pilippi Theophrasti Paracelsi
Qui tantam Orbis Famam
ex Auro Chymico
Adeptus est,
Effigies et Ossa,
donec rurus
circurndabitur pelle sua
Job. c: 19


Tradução, em português:

Do Phillipus Theoprastus ParaceIsus,
que com a alquimia
adquiriu no mundo
tão grande fama,
a imagem e os ossos,
até que serão novamente
cobertos da sua pele
Job cap. 19

Esta indicação do livro de Job que já por sua vez representa um texto especial do Antigo Testamento, deve ser comentada agora.

Obviamente só a última frase desta parte da inscrição pode servir como indicação ao livro de Job, mas não o seu nome, nem a sua fama devida a alquimia; ou seja a formulação “até que serão novamente cobertos de pele” ( “os ossos”, como sujeito, mais do que “a imagem”, ou ambos).
No capítulo 19 do livro de Job encontram-se duas vezes mencionadas a “pele”: 19,20
19,26. Estas passagens são:
“A minha pele cola-se aos meus ossos descarnados fujo apenas com apele dos meus lábios em torno dos meus dentes”

-“e depois que a minha pele se desprenda da minha carne na minha própria carne verei a Deus” e Torezyser (8) traduz Job no seu comentário exaustivo da seguinte maneira:

19,20- “My palate-bone cleaveth to my (skin and) tongue.”

Nos seus comentários (pág. 301) este autor (8) escreve então, que isto seria de entender como “My palate bone cleaves to my líps and tongue so that I cannot open my mouth to speak”, com referência para o Salmo 102,6 também mencionando o facto, que isto devia ser entendido no contexto das lamentações de Job “crying... wears out his voice; because of it his tongue cleaves to his palate” (pag. 301) (8).

Torczyner (8) explica Job 19,26 ao contrário da tradução unificada(2) “Out of my flesh I want to see (my) God”, ou seja: na minha própria carne, “ainda vivo”, verei Deus (pág. 306/ 307) (8).

Relativamente ao conteúdo destas duas citações, o capítulo 19 do livro de Job dificilmente se oferece como objectivo da alusão do acima referido epitáfio; nem se fala do “acto de envolver” (com pele) (através de Deus), nem de “estado de estar envolvido com pele”. Fica então a questão, se estará aludido a outra parte do livro de Job, que se adapte melhor.

A menção de pele, em hebraico `or , em Job aparece nove vezes (7): 2,4; 10, 11; 19,20; 7,5) ; e também 19,26; 30,30; 19,20; 18,13; 40,3 1.

(A cronologia é determinada pelo alinhamento das citações na concordância, dependentemente se o lexema aparece com o seu artigo, conjunção, preposição ou construções gramaticais especiais) (7).

Examinam-se estas passagens ou as suas traduções respectivamente, só se propõe uma única passagem, Job 10, 11 como ponto de referência à alusão do epitáfio:

“De pele e de carne me revestiste, de ossos e de nervos me consolidaste” (analogamente à tradução de Torczyner) (8).

Teoricamente ainda resta a hipótese que até se queria aludir a outra passagem do Antigo Testamento. Examina-se a seguir a concordância (7), e então chega-se a conclusão que (tendo em conta os diferentes significados que a palavra 'or pode ter, ou seja [71, pág. 835, "culis hominum, corpus, cutis animalium, coriiim') existem numerosas possibilidades (mais de 80).

Só no livro do Levítico 48 vezes, no de Job 9; no do Êxodo 8, no livro dos Números 5 vezes, no de Threni 3 vezes, 2 vezes no do Génesis, no de Ezequiel e no de Miqueias; uma vez no 2º livro dos Reis e no de Jeremias. Depois do livro do Levítico é no livro de Job que o termo ‘pele’ aparece mais vezes, a expressão 'ori “a minha pele”, ou b’ori “na minha pele” aparece somente no livro de Job.

Para o dermatólogo (5) pode além disso ser interessante, que a expressão para “arranhar” (secahere, scalpere) (7), l`hitgared somente aparece no livro de Job, ou seja que representa um chamado “hapax legomenon” no corpo do Antigo Testamento (7) pág. 273.

De todas estas passagens, uma está excluída porque não se refere a pele humana. Daquelas passagens em que se fala de vestir (revestir) (através do Senhor) ou de pele humana respectivamente (Génesis 3,21; Threni 3,4; 4,8; 5,10; Miqueias 3,3 e 26; e Ezequiel 37,6 e 8), a primeira exclui-se, porque Adão e Eva devem ser cobertos, ou seja vestidos.

As partes das lamentações é igualmente excluída devido ao seu sentido totalmente diferente; as de Miqueias porque se fala de “tirar a pele”. Fica então só Ezequiel. A sua expressão é a seguinte (37,6 e 8): “Dar-vos-ei nervos, farei crescer a carne que revestirei de pele e depois meter-vos-ei o sopro da vida para que revivais. Sabereis assim que eu sou o Senhor.”

“Olhei e eis que se formaram nervos, a carne crescia, e a pele os cobria por cima, mas neles não havia espírito.”

Fundamentalmente como se fala tanto de pele humana como de “cobrir” (através do Senhor) estas duas passagens adaptam-se bem a uma alusão no texto epitáfio.

Mas é positivamente improvável que o projectista do texto ou o escrivão dum texto eventualmente dado se tenha enganado de tal maneira (confundir Job com Ezequiel).

Pondo em questão porque é que então está no túmulo gravado Job 19 (e não Job 10 por exemplo), não se chega a uma resposta conclusiva. Começando-se a especular, então poderia encontrar-se uma solução nas seguintes teorias.

i) Ao copiar o número do capítulo de um texto dado (por um escrivão, eventualmente mais tarde também pelo entalhador de pedra) foi lido " 19,' em vez de " 10,', ou seja foi acrescentado um pezinho ao zero, o que pode perfeitamente acontecer com um zero um pouco negligencialmente escrito.

ii) Ao citar passagens, especialmente da Bíblia, o número do capítulo é (era) dado em cifras romanas; os números das páginas ou dos versos ou linhas respectivamente são dados com cifras árabes. Certamente este não é o caso no epitáfio do Paracelso (diz Job c.19), mas pode perfeitamente ter aparecido assim num texto dado a um escrivão ou também ao entalhador da pedra.

Segundo a acima referida argumentação, a passagem de Job 10, 11 adaptar-se-ia muito melhor ao texto do túmulo do que o citado capítulo 19.

Suponhamos que a passagem 10, 11 foi escrita por engano, tanto o número do capítulo como o do verso, em cifras romanas, nesse caso seria XXI. Contrapondo agora o X:Xl ao XIX então só a posição do “I” está trocada; uma vez depois de dois dez, outra vez entre dois dez. 0 autor encara também essa possibilidade.

Com isso também estaria explicado porque no túmulo só está indicado o capítulo e não, como é costume, também o verso (uma estrofe, uma linha).

As duas possibilidades entram em consideração, embora a primeira seja mais provável.

K. Holubar


Agradecimentos


À Conselheira Pública M. Majer e Direcção do Cemitério da cidade Salzburgo

Bibliografia


1. — Aberle C (1891) Grabdenkmal, Schãdel und Abbildungen des Theophrastus ParaceIsus. Sonderaddruck aus dem XXVII., XXVIII., und XXX. Bande (Jahrgang 1886/ 87, 1887/ 88 und 1890/91 der Mitteilung der GeselIschaft fúr Salzburger Landeskunde). H. Dieter, Salzburg.
2. — Bíblia Sagrada (1991) Difusora Bíblica, Missionários Capuchinhos, Lisboa
(Em alemão: Die Bibel (1980) Einheitsübersetzung. Altes und Neues Testament. Herder, Freiburg)
3. — Dorn C (1969) Der Friedhof zum h1. Sebastian in Salzburg. Magistrat Salzburg, Abt. 11, Kulturarat Salzburg.
4. — Holubar K (1983) Zum Begriff des Job-Syndroms. Wien Min, Wochenschrift 93: 832- 834.
5. — Holubar K (1989) Paracelsus und wir. Gedanken zum grossen. Wanderer am Vorabend seines 500. Geburtstags. Wien Min Wochenschrift (im Druck)
6. — Hübner L (1792) Beschreibung der hochfúrstlich erzbischõfichen Hof und Residenzstadt Salzburg und ihrer Gegenden verbunden mit ihrer ãltesten Geschichte. Band 1, Verlag des Verfassers, Salzburg, pp333 ff.
7. — Mandelkem S (1896) Veteris Testamenti Concordantiae Hebraicae atque Chaldaicae. Lipsiae MCCCXCVI.
8. - Tur- Sinai NH ( Dr. Torczyner) (198 1) The book of Job. A new commentary. Revised Kjryat Sefer, Jerusalem.