Não estamos a analisar a razão ou sem-razão destes acontecimentos nem das estruturas sociais e económicas em que despertam. O que se põe em causa, neste momento, é, contudo, a ideia-força de que a violência é um caminho para alteração dos diferentes statu quo mais ou menos discutíveis ou contestáveis.

A incapacidade de submeter, apenas pela via escolar ou de subsídios, as tendências e as suas derivações anti-sociais, viria a dar razão aos mais pessimistas. Não só na florescência do terrorismo, armado ou ideológico, mas especialmente na sucessão dos conflitos gerais e localizados, tem vindo a exprimir-se um barbarismo insólito.

A maior parte dos incidentes, que chocam pelas consequências, não passam ainda de alguns comportamentos mais facilmente visíveis e moralmente perceptíveis. Mas já são confrangedores pela dimensão da violência organizada. E irritam pela boçalidade dos métodos usados.

Nestas condições, parece que devia intervir a sabedoria, o bom senso e a vontade de progresso no sentido de irem criando um estado de espírito em que as palavras respeito, verdade, justiça e bondade, em vez de representarem figuras caricaturais, irem revestindo conteúdos de realidade e formas de valor.

Não se andará, talvez, muito longe da verdade, se se disser que a família também deve ter, na solução do problema, um importante papel.

Mas tal intervenção, porém, ou não se faz, ou faz-se com uma tal timidez que esta parece reflectir a má consciência de quem estivesse comprometido nas responsabilidades da desordem estabelecida.

É que se afigura estar a lavrar entre nós a ideia de demissão dos pais na educação dos filhos. Sob o pretexto de não constranger, para evitar fazer recalcados, e sob o pretexto de não incorrer no pecado de abuso autoritário, ou de uma posição de superioridade, alijam-se, de facto, uma boa parte das responsabilidades paternas e maternas no concernente ao futuro dos filhos, em tudo aquilo que vá para além da sua situação material.

A atitude é cómoda, mas é demasiado fácil para ser eficaz. São os filhos os primeiros a senti-la assim. Não, talvez, no imediato da realização do capricho mas, certamente, depois, ao surgirem no movimento incerto e na luta da vida, desarmados e sem norte. É então — a partir dos primeiros tempos da universidade ou da profissão — que eles verificam quanto lhes teriam sido necessárias, na infância e na primeira juventude, a compreensão lúcida e o afecto tão sincero como dedicado, a firmeza e a ductilidade, a vigilância e a responsabilização, por parte daqueles a quem chamam os “autores dos seus dias”.

Autores dos seus dias, sim, deveriam tê-lo sido ao longo dos anos e não apenas nos actos iniciais. É certo que os mais novos se formam dando-lhes progressivamente autonomia de decisão em alguns domínios. Mas o seu contrário também é verdade. O educador deve apresentar--se como modelo de decisão e de justiça nos limites da fraqueza humana. Não pela substituição de personalidade a personalidade nem pela imposição de critérios ou demasiado estreitos ou demasiado extrín-secos, mas pela criação de uma atmosfera de simpatia, de respeito, verdade, justiça e bondade, pela atenção vigilante e pela firmeza necessária, pela orientação que sabe ser flexível e pela renovação cultural, psicológica e social de que deveriam ter dado testemunho. Testemunho autêntico e verdadeiro, incomparavelmente mais eficaz do que um autoritarismo fora do tempo, um demissionismo que é sinónimo de cobardia, ou de um verbalismo intemperado logo desmentido nos actos.

Descortinada assim a missão do educador, que é a de esclarecer o espírito jovem e a sua manifestação objectiva, tornando-o sujeito consciente do destino dentro da evolução cósmica, põe-se-lhe ainda o problema crucial de determinar os meios que hão-de permitir o trânsito do ideal para o real.

Soluções simples e fáceis? Não as há, a não ser por ilusão.

Mas nós podemos identificar determinadas tendências e propensões que podem facilitar a transmutação em fenómenos de violência; e esclarecer como é possível que seres humanos aparentemente normais, e até afáveis, conseguem ser tão violentos, insensíveis e cruéis.

E se estivermos empenhados e atentos à nossa época, não podemos remetermo-nos a uma cómoda passividade, a um confortável adormecimento, a um desprendimento egoísta, antes devendo ser os mais activo dos homens na defesa e no estímulo dos valores espirituais de verdade, liberdade e justiça, ao mesmo tempo que as suas soluções não podem ser nunca despertadoras de violência. É pois necessário o nosso empenhamento, mas empenhamento dinâmico e lúcido, capaz de ir intervindo activamente sobre o eu e o mundo, numa perspectiva de harmonia. Há sempre uma solução que permite realizar o ser como estrutura de convivência entre os diversos níveis do real, capaz de afirmar em todas as ocasiões uma ética de disciplina e respeito.

F.C.