Já lá vai o tempo em que as figuras públicas conheciam bem os homens, especialmente as suas fraquezas e limitações, e tinham o condão de interferir com os sentimentos das multidões – umas vezes irresponsavelmente outras de forma mais feliz. Hoje, as técnicas de comunicação e do espectáculo transformam-nas facilmente em vedetas.

A questão agora é a de saber se essas figuras, assim canonizadas pela propaganda e pelos especialistas de comunicação, são capazes de levar a cabo os objectivos cardeais do nosso tempo.

O observador atento, aquele que se aproxima da sociedade e das realidades práticas da vida, sabe o que se passa nos bastidores das conferências internacionais e das reuniões das organizações orientadas para o exercício do poder. Reflecte, por hábito inveterado, sobre a extensão real da influência das figuras anónimas que rodeiam os novos tribunos e lhes reduzem os movimentos a programados automatismos.

Tanto os voluntariosos simpatizantes desses modernos tribunos, viciados na retórica e na burocracia mental, como o observador menos bem preparado e submetido à influência constante dos artistas de telenovelas, dos comentaristas e cabeças de cartaz, têm descurado a necessidade urgente de reflectir sobre os postulados fundamentais que hão-de comandar o rumo das coisas económicas e sociais no arranjo que os tais agentes do poder imprimem às suas relações.

Só o desenvolvimento de opiniões públicas informadas e eficazes poderá contribuir para acordar o cidadão adormecido que perdeu de vista os largos horizontes e objectivos maiores. É ao perceber a realidade concreta que o cerca que o cidadão, assim desalienado, poderá apressar determinadas realizações, corrigir desvios, orientar, enfim, os processos cultural e progressivo para o sentido da construção do homem e do mundo, de modo a percorrer estádios cada vez mais favoráveis ao domínio do espírito na natureza.

O que parece dever assentar-se desde já é que a perspectiva por onde a filosofia rosacruz interroga, analisa e integra o real em todos os seus níveis, para extrair do seu labor uma visão da realidade-como-um-todo, permite contrariar o abaixamento da moral, o cepticismo generalizado e aquela forma de anarquia social em que nada é certo nem errado, tudo é permitido.

Nesta perspectiva, o exercício do poder é visto como acção e, por isso, parecerá naturalíssimo que tenha uma moral, visto esta, no fundo, cimentar-se numa teoria filosófica da acção.

Buscam-se então, logicamente, os princípios gerais que dêem a solução, em cada caso determinado, do procedimento dessas figuras públicas. E chega-se assim ao conhecimento do uso que estas fizeram dos seus deveres.

Definido o interesse público, precisado o problema da ordem, é fácil extrair a noção do bem comum por forma que dê a medida da correcção moral das pessoas a quem se entregou a orientação do destino coletivo.

A vida privada precisa de ser norteada segundo os princípios e valores do bem para que se possa aferir o valor das acções. Se a dignidade, a honestidade e a virtude fazem a reputação de um homem de bem, quanto não precisarão tais pessoas cuja vida é mais exposta ao juízo público e se confina, imiscui e entrelaça nas actividades dos próprios Estados.

Esta atitude, eminentemente ética, é a mais realista. Pode revelar a realidade e incuti-la no pensamento colectivo – embora seja menos eficaz e prática em termos eleitorais. É que hoje o irrealismo coincide com o eleitoralismo e o êxito fácil com o querer e os desejos colectivos. Mas o realismo e eticidade podem coincidir, cada vez mais e à medida que se põe ao homem de hoje o dilema a que se refere o Conceito: “progredir ou retroceder”. Isto se entendermos que “progredir” é procurar analisar as leis que governam o mundo e a vida, conhecer os mecanismos a que está sujeito o espírito humano, e “retroceder” é aceitar qualquer explicação prática, solução ou doutrina de conveniência.

Neste continuado exercício de espírito analítico não há só o intelecto. Há também, e em alto grau, os “valores”. E aqui o rosacruciano revela-se o agente da realização humana e social dos valores de que a verdade é somente a mais sintética expressão. Ao intervir socialmente, o rosacruciano está a conceber a edificação, digamos de um ideal, de uma ordem lógica e imperativamente veraz da organização humana, que com Bacon se chamou Nova Atlântida, e com Campanela a Cidade do Sol. O seu objectivo, mas um objectivo que não deverá alcançar-se de qualquer modo possível, sim de um modo legítimo, fundamentado, é o de ir intervindo activamente sobre o eu e o mundo numa perspectiva de harmonia.

Procurar o progresso só parece legítimo se se der àquela uma amplitude que saia dos limites do correligionarismo e proselitismo que se expressa pelo uso e abuso de palavras-força, emotivas e envolventes, e de constantes afirmações de genuidade de intenções – mas claramente vazias de conteúdo.

No mundo em que vivemos, em que a técnica refinou os meios que permitem embotar o sentido analítico do cidadão, convertendo-o numa vítima da ilusão, são precisas pessoas que saibam dizer “não”. Não a quê? Não à sedução, à lisonja, à cumplicidade social; não à ideia já infectada pela opinião manipulada e desumanizada; não às benesses que o conformismo epocal dispensa; não aos aplausos tributados às vedetas; não às facilidades dos que se deixam deslizar pelo plano inclinado da decadência.

As pessoas, as coisas e os comportamentos valem na medida em que cumprem determinadas formas, em que são organizadas de certas maneiras, segundo regras e normas intuídas, vividas, surgidas como imperativamente necessárias aos criadores e emuladores autênticos de valores. E com estes exemplos, cívicos e humanos, oferecidos à consideração pública, que se pode ajudar a espécie humana a resgatar-se das mil e uma teias de falsidade e enredos que teimam em a reter cativa.

F. C.