Na maior parte destes casos, as descrições desses factos decorreram antes do investigador iniciar a análise do caso. Por conseguinte, o resultado alcançado irá depender, fundamentalmente, da sua capacidade como entrevistador, ou seja, da sua destreza para conduzir e analisar o depoimento.

Apesar disto, é necessário ter em conta, durante a realização dos inquéritos, a impossibilidade de se confiar totalmente nas lembranças e mesmo nas percepções dos pacientes e das testemunhas, os quais podem omitir ou acrescentar detalhes ao caso, alterando, por vezes de forma radical, a representação fidedigna dos acontecimentos.

Tais discrepâncias entre os “factos” e os depoimentos podem resultar da interferência de desejos ou apreensões pessoais, sempre possível de ocorrer quando o indivíduo se confronta com algo que se reveste de grande importância emocional.

A existência de uma deficiência intelectual no entrevistado também é uma hipótese a não excluir. Mas se nos perguntarem como descobrimos tais erros, temos que reconhecer que o fazemos através da comparação de diversos testemunhos sobre a mesma ocorrência.


Nunca se deve prescindir do testemunho humano; quando este não apresenta grande fiabilidade, ao invés de o rejeitar, o investigador deve, antes, testá-lo e aprimorá-lo. Os juristas e os historiadores procuram obter documentos cronologicamnte próximos dos acontecimentos em estudo.

Sabem, entretanto, que os escritos apenas conferem autenticidade a um documento pelas qualidades do autor; um documento escrito por uma testemunha duvidosa tem menos valor do que o testemunho verbal de uma outra que mereça mais confiança. Mas, quanto a isto, eles pouco podem fazer.

No estudo dos casos relatados procurei aplicar esta metodologia. Infelizmente, verificaram-se dois pontos fracos em muitas das investigações efectuadas: primeiro, as informações dos pacientes (geralmente crianças) não foram escritas antes de uma (primeira) tentativa de verificação (ocorreram duas excepções: o caso de Swarnlata Mishra e o de Imad Elawar); segundo, as crianças não reconheciam pessoas nem lugares relacionados com as suas supostas vidas anteriores, a menos que se mantivessem ligadas às famílias envolvidas nos estudos (raras foram as excepções; por exemplo, o caso de Imad Elawar).

Como medida para minimizar a frequente ausência de oportunidade de observação directa dos factos passados, recolhi o maior número de depoimentos possíveis assim como voltei a entrevistar as mesmas testemunhas, com um intervalo de um a vários anos.

Por vezes, também me foi possível comparar os resultados dos meus inquéritos com os de outras pessoas, independentes e cuja competência reconhecia.

Depois de recolher todos esses testemunhos foi-me possível comparar as declarações feitas por diversos membros de uma família ou comunidade com as declarações, relativas aos mesmos casos, feitas por membros de outra família ou comunidade; pude também comparar os depoimentos prestados, em diferentes ocasiões, por uma mesma pessoa quer mim quer a outro investigador.

Isto leva-nos à questão da validade das informações assim obtidas, aspecto importante, que discutirei depois. Desejo, porém, realçar que a informação verbal constituiu apenas uma parte da recolha dos dados, uma vez que tive, em alguns casos, a oportunidade de observar directamente a atitude do próprio sensitivo e dos familiares, fossem estes os actuais ou os da sua vida anterior.

Posso igualmente esclarecer que a atitude da criança, nestes acontecimentos, correspondia perfeitamente ao que a testemunha me havia informado relativamente ao seu comportamento. Isto aumenta minha confiança relativamente ao que me foi declarado, isto é, o que uma criança alegava lembrar-se (cujas declarações eu geralmente não poderia obter directamente) correspondia às declarações dadas pelas testemunhas.

A identificação dessas crianças com as suas personalidades anteriores parece-me um dos aspectos mais importantes destes casos. Tal identificação, revestida de componentes comportamentais fortemente emocionais, transcende a simples repetição, pela criança, de informações sobre outra pessoa que viveu antes.

Na minha opinião, esses aspectos comportamentais não só aumentam consideravelmente a sua autenticidade como ampliam enormemente as possibilidades de estudar a personalidade humana.

Detecção e Eliminação de Possíveis
Erros na Recolha de Dados


A validade deste tipo de factos depende da precisão do depoimento das testemunhas e, na falta de relatos escritos, contamos com os depoimentos corroborantes de diversas testemunhas. Portanto, procurei obter o máximo de testemunhos possíveis para cada caso.

O depoimento de diferentes testemunhas, ou o da mesma testemunha em épocas diferentes, foram confrontados entre si. Verifiquei também que ocorreram discrepâncias em cerca de dez por cento de todas as declarações. Tal incidência, inferior à que eu esperava quando iniciei tais estudos, aumentou a minha confiança na exactidão geral dos informadores; globalmente, os relatos harmonizam-se.

Além do mais, as discrepâncias quase sempre ocorreram em detalhes acessórios e não em acontecimentos fundamentais: por exemplo, as testemunhas podem estar de acordo em que a criança reconheceu um determinado devedor, que tinha algo a pagar à personalidade anterior, mas discordam quanto à soma devida, ou, então, podem estar de acordo quanto à forma da morte de uma pessoa, mas discordar quanto à data da ocorrência.

Alguns detalhes são cruciais; mas não pretendo dar a entender que se devem menosprezar todas as discrepâncias nos detalhes. Desejo apenas tornar claro que a maioria das divergências ocorre mais em relação a pormenores do que às linhas gerais dos acontecimentos.

Não obstante, o tratamento das divergências nos depoimentos desta natureza constitui um problema difícil. Por um lado, certas testemunhas, desde o início (ou mais tarde), mostram-se inconsistentes, aparentando ter um conhecimento dos acontecimentos mais vago do que na realidade acreditavam; parece injusto permitir que o testemunho de tal pessoa invalide o de outra, obviamente mais fidedigna, pela simples razão de apresentar uma discrepância.

Por outro lado, não seria justo se se suprimisse todo depoimento discordante, uma vez que com isso poder-se-iam, embora inconscientemente, desvirtuar os dados relativos ao facto.

Pareceu-me, contudo, que a eliminação total de alguns itens que apresentassem discrepâncias ocasionariam, quase sempre, um enfraquecimento da evidência de paranormalidade dos casos. Somar tais itens discrepantes aos testemunhos consistentes, também poderia, indevidamente, fazer com que os factos parecessem mais “ricos” do que realmente são.

Concluí, portanto, que poderia, com segurança, eliminar por completo a maioria dos itens onde ocorressem depoimentos discordantes. Mas retive alguns, oferecendo em cada caso um comentário sobre tais testemunhos divergentes.

Presentemente, tenho dado muito mais atenção à análise de divergências individuais do que antes, e pareceu-me conveniente remontar, tanto quanto possível, à origem de cada uma; isto tornou-se mais fácil com dois intérpretes do que apenas com um.

Verifiquei, então, que algumas discordâncias ocorriam devido a enganos na interpretação, uma vez que, por vezes, a tradução era feita com ligeiras (ou sérias). Outras discrepâncias ocorriam porque a testemunha, não havendo compreendido determinada pergunta, respondia de acordo com a idéia errada que fazia daquilo que lhe tinha sido perguntado. Outras surgiam ainda, por falta de atenção ou de memória da parte das testemunhas.

A análise das disparidades, durante ou pouco depois das entrevistas, permitiu-me “salvar” alguns aspectos importantes que, de outro modo, ter-se-iam perdido. Isto aumentou a minha convicção de que a eliminação de tais aspectos discordantes, enfraquecia o caso, em lugar de o reforçar.

Com raras excepções, todo o depoimento registado proveio de uma testemunha em primeira mão. Ocasionalmente, conservei o depoimento de testemunhas secundárias, o que sempre mencionei no relato dos casos.

Substituí por pseudónimos todos os nomes dos pacientes e das testemunhas nos casos do Alasca, a fim de os defender contra uma possível divulgação incómoda. Mas em todas as outras narrativas mudei apenas um nome (no caso de Imad Elawar), deixando todos os demais informadores testemunharem sob seus verdadeiros nomes.

Darei a seguir alguns detalhes particulares das três fontes mais importantes de erro nos relatos, bem como as providências tomadas para reduzir, ou não levar em conta, a sua importância como factores de enfraquecimento dos casos.

Traduções e Possíveis Erros de Intérpretes

Conheço bem francês e alemão e sei um pouco de espanhol e português. Admito, entretanto, não ter conhecimento apreciável de línguas orientais, como o árabe e o hindu.

Os erros de tradução e interpretação, foram, provavelmente, uma das influências indesejáveis mais importantes nos relatos obtidos por meio de intérpretes em alguns dos casos na Índia, no Ceilão e no Líbano.

Dos sete casos da Índia necessitei de intérpretes em cinco (no caso de Swarnlata quase todas as testemunhas falavam inglês e no caso de Mallika falavam principalmente o francês). Nesses cinco casos tive dois, e por vezes, três intérpretes.

Em 1964 fui assistido por dois intérpretes simultaneamente: um traduzia, enquanto eu tomava notas em inglês; o outro conferia a tradução e também tomava notas em hindi, as quais comparávamos, posteriormente, com minhas notas em inglês.

Nos três casos do Ceilão utilizei (ao mesmo tempo) dois intérpretes para um deles (o de Wijeratne) e um para os outros dois, embora num destes dois últimos (o de Gnanatilleka) uma das principais testemunhas falasse inglês.

Para o caso de Imad Elawar, no Líbano, tive três intérpretes em diferentes ocasiões.

Em suma, em nove dos onze casos asiáticos, para os quais necessitei de intérpretes, tive pelo menos dois a trabalhar comigo em cada ocasião. Assinalei algumas discrepâncias atribuíveis a erros de tradução, mas creio que tais erros afectam apenas um pequeno e insignificante grupo de todos os itens dos casos (1).

Métodos de Registo e Erros Prováveis

Outros erros podem ter-se insinuado nos registos, por ocasião da transcrição das declarações das testemunhas ou das minhas observações do seu comportamento.

Costumo tomar notas escritas à medida que a testemunha ou o intérprete falam. Prefiro este método ao uso de gravadores porque: a) frequentemente o gravador produz uma inibição inicial na testemunha, que pode tornar-se esquecida ou reservada até que se acostume; b) uma vez que no Oriente raramente se podem ter entrevistas completamente privadas (pois, geralmente, várias pessoas se reúnem a fim de darem seu testemunho em conjunto), o gravador deixa, por vezes, de dar informações adequadas a propósito de quem disse o quê, facto ao qual atribuo muita importância.

Ouvindo a gravação posteriormente, talvez não seja possível reconhecer correctamente de quem são as vozes. Além disso, as gravações não fornecem os nomes dos intervenientes e, frequentemente, por exemplo, se uma voz de súbito baixa de volume, perdem-se detalhes das informações.

Em minha opinião, as notas escritas são, portanto, indispensáveis e não vejo razão por que não se possa confiar nelas, desde que sejam tomadas à medida que a testemunha fala ( em alguns casos, como por exemplo, quando a testemunha falava num automóvel, ocorreram circunstâncias que me obrigaram a tomar minhas notas ao voltar para o hotel algumas horas depois, ou, mais raramente, no dia seguinte).

A minha confiança na exactidão das minhas notas, feitas durante as entrevistas, foi reforçada por algumas experiências na Turquia. Durante o estudo de alguns casos efectuados neste país, em março de 1964, tomei notas como de costume, procurando fixar o maior número possível de detalhes.

Ao mesmo tempo, M. Resat Bayer, que me assistia como intérprete, também registou as entrevistas (com poucas excepções) num gravador portátil. Depois eu mandei a M. Bayer cópias de todas as minhas notas e ele, cuidadosamente, comparou-as com o material contido nas fitas gravadas, relativamente a detalhes mantidos ou alterados.

Tal comparação mostrou que eu não havia cometido erros de maior importância em minhas notas, e o Sr. Bayer apenas achou um pequeno número de discrepâncias irrelevantes nos detalhes.

A mais séria delas foi eu ter registrado a idade de uma criança entre dois e meio e três anos, quando, de acordo com a fita, deveria tê-lo feito entre dois e dois e meio. Perdi alguns pormenores captados nas fitas, sem dúvida porque no momento eu estava a escrever o que acabava de ser dito, enquanto o intérprete prosseguia falando outras coisas.

Mas o ponto mais importante dessa comparação foi que eu não havia, em minhas notas, adicionado nenhum detalhe aos registados nas fitas.

No importante trabalho de interrogar as testemunhas, avaliando a exactidão de suas declarações e detectando importantes omissões ou discrepâncias, tive a felicidade de contar com a assistência do Sr. Francis Story, que me acompanhou ao Ceilão em 1961 e à Índia em 1964.

A sua participação activa no estudo dos casos deu-me a oportunidade para a análise dos depoimentos, bem como de quaisquer discordâncias ou outras dúvidas apresentadas enquanto o material permanecia ainda recente.

Penso que essa colaboração reduziu as probabilidades de subestimar ou deixar de registar alguns pontos importantes surgidos durante as entrevistas.

Erros de Memória por Parte das Testemunhas

Chegamos, a seguir, ao factor mais importante na validade dos relatos: a fidelidade das lembranças das testemunhas.

Supondo que existe uma grande concordância entre as diversas testemunhas nos factos principais de um caso (conforme se dá naqueles aqui tratados), como poderemos saber se a testemunha chegou a essa concordância independentemente, e não por influência de opiniões correntes consideradas abalizadas que, de uns poucos factos relativos ao comportamento da criança, elaboraram uma longa história?

Possivelmente, todos do grupo concordam, sem grandes preocupações, que “viram” ou “ouviram” certos fatos, que por eles não foram vistos nem ouvidos, do género que aconteceu com as vestes do Imperador (que ia nu) impostas à populaça por temor ou credulidade.

Ou, tomando um exemplo real, da mesma forma que se tornou moda usar barra nas calças, porque o camareiro do Rei Eduardo VII, um dia, inadvertidamente, depois de engraxar-lhe os sapatos, esqueceu-se de desenrolar as calças do Rei, antes que ele saísse.

Os elegantes da época logo acharam cómodo ou, pelo menos, oportuno usar barra em suas calças.
Em poucas palavras, temos aqui uma teoria sobre erros de memória e de depoimento gerados por motivações alheias.

Eu diria que o principal argumento contra a probabilidade da ocorrência dessa epidemia generalizada (ou mesmo localizada) de ideias repousa nas acentuadas diferenças de atitude das várias testemunhas em relação aos eventos focados.

No Ocidente, os críticos mal informados pensam geralmente que, uma vez que no Oriente todos (ou quase todos) acreditam na reencarnação, ninguém está isento de aceitar cada história com um sabor reencarnacionista, embora pareça improvável esse carácter de reencarnação.

Entretanto, é perfeitamente certo que a crença na reencarnação está difundida no Oriente, onde é bastante frequente sua aceitação, mas quando se chega aos casos específicos, verifica-se que as pessoas neles envolvidas, por vezes adotam atitudes bem diferentes.

Em primeiro lugar, existe uma crença generalizada de que a lembrança de vidas pretéritas condena à morte prematura, e muitas vezes os pais usam de medidas enérgicas e mesmo cruéis, para evitar que uma criança fale sobre uma vida anterior.

Além disso, a criança que insiste em declarar-se pertencente a outra aldeia onde viveria mais feliz, ou outra que denota atitudes mentais estranhas às de sua família, traz um seríssimo problema para os seus e para si própria.

E não faltaríamos à verdade, afirmando que muitas dessas crianças ameaçam mudar-se para o outro lar, o que algumas ocasionalmente levam a efeito (ex., Prakash e Parmod). Por vezes, a criança e os pais comprazem-se com parte da publicidade proveniente de afirmação da lembrança de uma vida passada.

Porém, mais frequentemente, acham que a publicidade implica em insuportável aborrecimento e prejuízo; nada lucram e perdem o sossego de sua vida familiar.

A confirmação da relutância dos pais em buscarem publicidade para o caso advém, frequentemente, de outras testemunhas, como, por exemplo, vizinhos que se recordam da idade que tinha a criança quando pela primeira vez começou a falar de uma vida anterior.

Em média há um lapso de três a cinco anos entre o período das primeiras declarações da e o desencadeamento da publicidade sobre o caso, fora do círculo íntimo da família.

Observei frequentemente que os pais resistiram (por vezes durante anos) ao insistente pedido da criança para ser levada a outra cidade onde dizia ter vivido antes. Se tomarmos em consideração todas essas circunstâncias, que podem influenciar a disposição das testemunhas em relação aos casos, devemos rejeitar a teoria que sugere que toda a concordância de evidências, favorecendo interpretações paranormais dos casos, origina-se de erros de memória (motivados) das testemunhas.

As tendências de muitas das testemunhas ocasionam uma distorção no relato dos eventos, afastando-os de interpretações paranormais ou reencarnacionistas. Frequentemente as testemunhas forçam o seu depoimento a respeito de algo que a criança disse pois sabem que existe a possibilidade da mesma deixá-las ou então preferir viver com uma outra família.

Dois outros aspectos que se repetem nos depoimentos levam-me a reforçar a confiança neles. Primeiro, se a testemunha tivesse distorcido os relatos manifesta e separadamente, seria de esperar uma incidência muito maior de discrepâncias entre os depoimentos das diferentes testemunhas.

Se a testemunha “A” tivesse elaborado a história, restringiria ela a sua elaboração de modo a que esta coincidisse quase exactamente com a história da testemunha “B”, sem se falar em “C”, “D” e outras? A ideia de que as testemunhas se influenciam reciprocamente tem mais sentido do que a hipótese de que tenham elaborado suas histórias individualmente e, acidentalmente, chegado ao mesmo ponto.

Mas, relativamente a isso, é claro que embora algumas das testemunhas pudessem ter-se influenciado reciprocamente (e é quase certo que o fizeram), em outros casos as testemunhas não poderiam de modo algum ter feito tal coisa (como nos casos de Swarnlata e Imad) ou é quase certo que não o fizeram, porquanto colocaram-se em pontos opostos de uma controvérsia (como nos casos de Prakash e Ravi Shankar).

Além do mais, a existência de algumas discrepâncias elide a possibilidade de um total falseamento dos relatos. Em segundo lugar, as testemunhas eram tão sinceras ao nos falarem acerca dos enganos e confusões por parte da criança, quanto ao nos informarem sobre seus sucessos (vejam-se especialmente os casos de Swarnlata e Imad, como exemplos de tais enganos).

Em conclusão, não digo que não tenham ocorrido, nestes casos, erros intencionais de testemunho, digo sim, que tais erros não podem explicar toda a concordância (ou discrepância) que encontrei no depoimento de certo número de testemunhas.

Mas, no que toca a tabulações detalhadas do que as testemunhas disseram, acerca das declarações ou das identificações feitas pelos pacientes, e o que outras testemunhas relataram a propósito da verificação desses primeiros itens, anotei exactamente o que referiram as testemunhas. Isto não significa que eu tenha utilizado suas próprias palavras, pois tentei citar tais itens resumidamente, mesmo porque algumas testemunhas usaram expressões diferentes para descrever o mesmo evento.

O que desejo esclarecer é, que para cada item assim descrito nessas tabulações, tenho uma nota (quase sempre feita no momento) de que a testemunha citada fez uma declaração exactamente correspondendo ao item citado.

E, desde que, como já foi dito, várias pessoas quase sempre assistiam às entrevistas, outras testemunhas concordaram verbalmente ou silenciosamente, ou por vezes discordaram do que dizia a principal testemunha. Assim, de modo geral, era-me possível inscrever testemunhas adicionais para cada item registado; porém, preferi focalizar a atenção nas testemunhas principais, as quais me pareciam em melhores condições para observar os factos que relataram.

Porei minhas notas originais sobre os casos à disposição de qualquer investigador sério que deseje compará-las com o material aqui impresso.

Para cada caso forneci (no respectivo relato) algumas informações e comentários baseados na possibilidade de transmissão de informações ao paciente, através de meios normais de comunicação, inclusive por fraude e criptomnésia.

Reservei uma discussão geral de hipóteses paranormais pertinentes a esses casos, para uma secção à parte, no final dos relatórios. Mas julguei melhor comentar alguns pontos importantes enquanto o leitor tem seus detalhes em mente.

No relato dos casos que se seguem, uso a expressão “personalidade anterior” na maior parte das passagens, quando desejo referir-me à pessoa morta com quem o paciente em questão alega identificar-se.

Esta expressão parece menos imprópria do que outras, como a “sua suposta personalidade anterior” ou “prévia personalidade alegada”. Ao mesmo tempo, a expressão que utilizei não implica uma concordância com a pretensão da criança de que sua personalidade seja, de fato, uma continuação da “personalidade anterior”.

Esta é a questão central proposta pelos dados, e dela tratarei na Discussão Geral. De igual modo, refiro-me geralmente às declarações atribuídas à criança, simplesmente como suas “lembranças”, em vez de suas “ostensivas lembranças de uma vida passada”.

As declarações atribuídas ao paciente representam lembranças de alguma espécie, e a questão reside em saber se são reminiscências do que ouviu ou aprendeu normalmente, do que sentiu paranormalmente, ou do que vivenciou numa existência anterior.

Planos para investigações e Relatórios Futuros

Espero esta exposição das dificuldades apresentadas no estudo destes casos e das tentativas de superá-las, não deixe a ninguém a impressão de que eu esteja satisfeito com os presentes métodos. Sinto a obrigação premente de aprimorar o estudo destes casos, de todos os modos possíveis.

Além de melhorar os métodos, eu preferiria estudar casos mais recentes do que a maioria daqueles aqui relatados, o eram na ocasião em que deles tomei conhecimento. Para isso, há obstáculosa ultrapassar, uma vez que, como já foi dito, as famílias que têm crianças desse tipo geralmente desejam evitar publicidade e, portanto, só com relutância expõem a outras pessoas as declarações da criança.

Raramente fazem isto antes de tentarem verificar, por si mesmas, as afirmações da criança. Espero, entretanto, através de melhor detecção de tais casos, ter conhecimento de alguns que eu possa examinar imediatamente após a criança ter feito suas declarações, e antes de sua verificação.

Na presente colecção de casos foram tomadas notas por escrito, anteriormente à investigação, em dois deles, o de Swarnlata e o de Imad. Em um outro (o de Prakash), cheguei ao local dos principais acontecimentos, algumas semanas após a sua ocorrência, sendo-me possível começar o seu estudo quando eram ainda bem recentes.

Mas, nos demais casos, sómente estudei os depoimentos, meses ou anos depois dos acontecimentos originais.

As óbvias limitações ao estudo de casos deste tipo, mesmo nas circunstâncias mais favoráveis, deveriam levar-nos a procurar outros meios para a obtenção de mais evidências com importância. Já me referi às possibilidades, no futuro, de outras e mais bem controladas experiências, através de hipnose, utilizando como pacientes especialmente as crianças. Além disso, comecei a estudar os padrões de aspectos recorrentes em um grande número de casos espontâneos de lembrança de vidas anteriores.

Pretendo estabelecer a autenticidade de todos os casos da minha colecção. Espero, então, comparar as características presentes nos casos incompletamente investigados, com as dos casos em cuja autenticidade tenho maior confiança, aplicando o método originalmente elaborado por Hart para o estudo dos fenómenos de aparições (2).

Se eu verificar que padrões presentes em casos bem autenticados, se apresentam repetidamente em outros menos bem autenticados, a minha confiança nas informações contidas nos últimos será aumentada.

Procurarei, então,estudar o maior número de casos que estejam no início, para delinear padrões e obter inferências de todo o material disponível. Por outro lado, se tal análise não demonstrar padrões significantes análogos entre os mais e os menos bem autenticados, terei uma base para futuras discriminações no estudo desses factos.

Continuarei, igualmente, a esforçar-me por avaliar os casos deste tipo, tentando o seu enquadramento nas várias teorias que concorram para seu esclarecimento, e procurando conceber novas teorias nas quais os dados se ajustem melhor do que nas hipóteses correntes.

Prosseguirei tentando imaginar e descrever casos ideais que, se encontrados, permitirão julgamentos definitivos entre teorias rivais, buscando, também, encontrar e estudar tais casos cruciais.

Prof. Ian Stevenson

(1) Nos relatos que se seguem, forneço alguns detalhes suplementares sobre a investigação dos casos, incluindo a utilização de intérpretes
(2) H. Hart. Six Theories About Apparitions. Proceedings S.P.R. Vol. 50, 1956, 153-239.