Outras tribos nativas de outras partes da América do Norte e do Sul têm tido essa mesma crença na reencarnação, mas somente no extremo Noroeste da América do Norte essa crença se transformou num sistema coerente de ideias(4).

Os povos circunvizinhos dos Tlingits, como os Haidas, que vivem ao sul dos Tlingits, no Sudeste do Alasca e em Queen Charlotte Islands, na Colúmbia Britânica; os Tsimsyans (5) que habitam na costa da Colúmbia Britânica a leste dos Haidas; os Athapaskans ao norte (6); os Esquimós a noroeste e os Aleutas, a oeste, todos eles crêem na reencarnação. Restringirei este relato (quase inteiramente) às concepções dos Tlingits sobre a reencarnação e aos casos sugestivos de reencarnação entre eles.

Entre os Tlingits, como entre quaisquer outros povos, as ideias baseadas no conhecimento da reencarnação influenciam a atitude para com os indivíduos que alegam lembrar-se de uma vida anterior, e podem mesmo ser relevantes para a ocorrência de tais casos.

Antecedi, portanto, os relatos dos casos, com uma apresentação das ideias dos Tlingits sobre a reencarnação e sobre certos outros tópicos a ela relacionados.

As informações históricas sobre o Alasca iniciam-se em 1741, com a visita àquele território do navegante dinamarquês Vitus Bering. Depois de Bering vieram outros exploradores, como James Cook, e, posteriormente, muitos comerciantes, os quais apreciavam as peles de lontras que os indios capturavam e lhes vendiam.

Contudo, as culturas ocidentais pouca intervenção tiveram na região, até a fundação dos fortes russos e dos postos comerciais, nas últimas décadas do século XVIII.

Os nativos do Sudeste do Alaska eram chamados “Kolush” pelos russos (francês: Koloche).

Contudo, alguns esquimós do Sudoeste do Alasca praticavam mumificação (no século XIX) e também acreditavam no renascimento num novo corpo físico.

Os Tlingits lutaram ferozmente com seus vizinhos e valentemente resistiram aos seus conquistadores.

Os russos, que governaram o Alasca aproximadamente de 1780 a 1867, nunca os dominaram completamente, embora tivessem mantido com eles relações comerciais satisfatórias.

Os Tlingits dominaram as tribos circunvizinhas e obrigaram as do interior a pagar-lhes um tributo por seus negócios com os russos. Sob o domínio dos americanos, os Tlingits continuaram firmemente independentes por muitos anos, nunca consentindo que o governo os confinasse em reservas.

Os Tlingits demonstram uma atitude igualmente intransigente em relação a tentativas de influência sobre sua vida religiosa. Cremavam seus mortos e por muito tempo resistiram aos esforços dos missionários cristãos em ensinar-lhes a enterrar os corpos em sepulturas.

Contudo, sua religião foi gradualmente sucumbindo, de modo que hoje em dia quase todos eles nominalmente professam o Cristianismo. Mas muitos Tlingits continuam a crer no mundo dos Espíritos. Têm ocorrido acusações de feitiçaria mesmo nos últimos anos.

Persistiu também a crença na reencarnação e a maioria dos Tlingits mantém-na mais ou menos intensamente.

Origem dos Tlingits

Os antropólogos concordam em que a espécie humana se desenvolveu no Hemisfério Oriental e que os ancestrais dos nativos pré-colombianos da América emigraram da Ásia.

De modo geral estão também de acordo que a maior parte dessa emigração ocorreu há milhares de anos, através do Estreito de Bering; numa época em que a Ásia e a América eram ligadas por uma grande faixa de terra, maior do que o actual estreito.(7)

Posteriormente, os etnologistas acordaram sobre quais foram as últimas tribos a emigrarem da Ásia: acredita-se (embora não seja totalmente aceite), que os ancestrais dos índios da costa Noroeste da América, inclusive os Tlingits, foram os últimos emigrantes da Ásia.

A prova disso advém do facto da arte, a arquitectura, os costumes e as crenças dos povos do Nordeste da Sibéria assemelharem-se mais estreitamente aos dos nativos do Noroeste da América do que aos dos de qualquer outra tribo americana (8).

Embora os entendidos estejam de acordo relativamente aos ancestrais dos Tlingits e seus vizinhos terem sido os últimos emigrantes da Ásia, discordam quanto à época em que essas migrações ocorreram e quando terminaram.

Como essa questão relaciona-se com a crença dos Tlingits na reencarnação, merece ser aqui analisada.

A maioria dos antropólogos acredita que as migrações da Ásia e o contacto entre as culturas da Ásia e da América cessaram milhares de anos antes da Era Cristã. Contudo, dão a idéia de que persistiu um considerável contacto entre a Ásia e o Noroeste da América em plena Era Cristã e possivelmente até pouco tempo antes do começo do período histórico do Alasca, no século XVIII.

A evidência desses últimos contactos origina-se de várias fontes:

a) Os cânticos fúnebres entoados pelos índios do Noroeste da América assemelham-se muito às melodias fúnebres da China e da Mongólia. Uma palavra, “Hayu”, entoada repetidamente numa música fúnebre de uma tribo de índios do Noroeste é também proferida por cantores de música fúnebre na China e significa “Alas” (Ai!) em chinês. (9, 10).

b) Outra demonstração de pesar entre os índios do Noroeste, como por exemplo, bater com a testa no chão, também aparece na China. Tambores cobertos de pele apenas de um lado são usados para canções desses índios e tambores semelhantes são utilizados na Sibéria, apenas pelos budistas. (11)

c) Existem algumas similitudes entre as línguas do Alasca e da Ásia. Já me referi a uma delas atrás. Uma outra existe na palavra “shaman”, que se aplica, em muitos lugares da Ásia (e também na Finlândia), a um sacerdote ou feiticeiro, e tem exactamente o mesmo significado na língua Yakut, do Alasca. (Contudo, a palavra correspondente a “shaman” em Tlingit é “ichta”.) O vocábulo “shaman” é possivelmente uma corruptela de “Sramana”, que significa Buda e daí, sacerdote budista, em sânscrito.(12)

d) As ilhas Kurilas, a península Kamchatka e as ilhas Aleutas formam uma cadeia que se estende pelo Oceano Pacífico Norte, de tal modo que, com uma excepção, a distância entre duas pontas de terra nunca ultrapassa cento e sessenta quilómetros; e nessa excepção, entre as ilhas Copper e Attu, a distância é inferior a trezentos e vinte quilómetros.

e) Nessa região, do Japão ao Alasca e Colúmbia Britânica, passa a corrente quente japonesa, que favorece grandemente a navegação entre o Ocidente e o Oriente. Em meados do século XIX, um junco japonês desmantelado foi levado por essa corrente até à costa da Califórnia (13). Juncos japoneses têm sido, com mais frequência, arrastados para as Ilhas Aleutas (14).

f) Um manuscrito chinês do século V a.D. relata as viagens de um missionário budista chinês, o qual descreve uma viagem que fez a um país existente a grande distância a leste da China. Esse documento chegou ao conhecimento dos estudiosos ocidentais do século XVIII, e foi objecto de profundo estudo no século XIX. A descrição que Hwui Shan fez de sua viagem às terras orientais, as quais chamou de Fusang, levou muitos estudiosos a crer que ele viajara pela rota do Pacífico Norte, via Kamchatka e Alasca, chegando por acaso onde é hoje o México. (15, 16).

f) Diversos objectos de origem oriental têm sido achados em escavações que pela sua situação, denotam uma acentuada possibilidade de terem sido trazidos da Ásia, em tempos pré-históricos, embora não muito antes do início dos tempos históricos do século XVIII.

Esses objectos incluem antigas moedas chinesas e um par de presas de babirosa (javali selvagem) das Celebes ou de ilhas vizinhas do sul do Mar da China. Outro desses objectos encontrados em escavações foi uma estatueta em bronze de Garuda, de um tipo comum em Bengala e no Nepal. É bastante improvável que essa imagem tenha aparecido na América antes de 1770, mas não pode ter vindo pela rota Kurilas-Aleutas; navios espanhóis provenientes de Manila, que cruzassem o Pacífico, nos séculos XVI ou XVII, poderiam tê-la trazido. (17, 18).

A Crença na Reencarnação Entre os Tlingits

Sabemos que os Tlingits não receberam a sua crença na reencarnação através dos europeus, porquanto pessoas que viajaram ao Alasca, no início do século XVIII, já a encontraram firmada entre eles.

Assim, Veniaminov, sacerdote russo e posteriormente bispo no Alasca, faz referência à crença na reencarnação entre os Tlingits. (19). Veniaminov estudou os Tlingits após o início do comércio entre os europeus e os nativos do Alasca, mas antes de qualquer outra influência substancial dos europeus na sua cultura, como a que começou após os missionários americanos terem-se espalhado pelo Alasca, em meados do século XIX.

Segundo Veniaminov, “os Tlingits... acreditam que os mortos voltam a este mundo, porém apenas entre seus parentes...

Por essa razão, se uma mulher grávida vê frequentemente em seus sonhos um parente morto, ela crê que esse homem entrou nela; ou, talvez, se descobrirem no corpo do recém-nascido alguma semelhança com a pessoa morta, como um sinal de nascença ou um defeito que eles sabiam existir no corpo do finado, passam a crer firmemente que essa mesma pessoa retornou à terra e, por essa razão, dão à criança o nome do morto.” (20)

Um antropólogo francês, Pinart, referiu-se à crença da reencarnação entre os Tlingits ou Koloches, em 1872. (21) Chamou a atenção para o facto de que, embora os Tlingits geralmente achem que a reencarnação se dá em outra forma humana, acreditam também na transmigração de uma espécie animal a outra. (22)

Pinart escreveu: “Frequentemente acontece que, se uma mulher grávida vê em sonhos algum parente falecido há muito tempo, dirá que esse mesmo parente retornou no corpo dela e que ela o porá de novo no mundo.” (23)

Pinart focou também a existência, entre os esquimós ocidentais (do Alasca), de um sistema religioso muito mais elaborado. Este apresentava um Céu com cinco planos ascencionais, a serem atingidos, cada um deles, após sucessivas encarnações na Terra, e tendo presente as ideias da transformação, purificação gradual e, posteriormente, libertação do ciclo dos renascimentos.

Pinart achou essas crenças muito semelhantes às da Ásia. (24)

No final do século XIX (1885), o etnólogo alemão Krause escreveu um extenso relato sobre os costumes e crenças dos Tlingits (25). Ele observou a crença na reencarnação entre os Tlingits e os Haidas, mas parece não ter dado muita importância ao assunto; nas suas referências baseou-se quase exclusivamente em Veniaminov.

Vinte anos mais tarde (1904), Swanton, etnólogo americano, dedicou grande atenção ao assunto. No seu relatório sobre os Tlingits, Swanton refere uma história, que em seu tempo teve larga repercussão entre os Tlingits, e da qual ouvi uma versão em 1961. Cito a narração feita por Swanton: “Em certa guerra, um homem foi morto e subiu para Kiwaa (uma região do céu tlingit), pouco tempo depois, uma mulher do seu clã deu à luz uma criança. Um dia, quando alguém estava a falar sobre essa guerra, a criança pôs-se a chorar persistentemente e disseram-lhe: “Fica quieta. Por que estás a chorar? Por que choras tanto?”

Então a criança retrucou: “Se você tivesse feito o que mandei e tivesse esperado primeiro a maré baixar teríamos destruído toda aquela gente.” A criança era o mesmo homem que havia sido morto.

Por seu intermédio souberam que havia tal lugar e que as pessoas que morreram violentamente estiveram lá... (26).

Swanton notou, como havia feito Veniaminov, a atenção que os Tlingits davam a marcas de nascença, como sinais de reencarnação. Um de seus informadores declarou que “se uma pessoa com um corte ou cicatriz no corpo morresse e reencarnasse, a mesma marca poderia ser observada na criança.”

De Laguna resumiu as ideias dos Tlingits sobre a reencarnação, especialmente na parte em que estas afectam as relações sociais e as complexidades que ocorrem, quando uma família acredita que um membro falecido de uma geração retornou numa geração posterior. (27)

A crença dos Tlingits na reencarnação não é de maneira alguma tão desenvolvida quanto as doutrinas sobre o mesmo assunto no Hinduísmo e no Budismo. Mas abrange o conceito de carma (embora não chamado assim), e a expectativa de que os infortúnios de uma vida poderão diminuir numa outra.

A esse respeito, Pinart escreveu o que segue: “É comum ouvir um homem doente ou um pobre dizer que deseja ser morto, de modo a poder voltar a uma vida jovem e saudável. Uma das razões da extraordinária bravura dos Koloches (Tlingits) é sua falta de temor à morte.

Ao contrário, eles a buscam, fortalecidos pela esperança de logo retornarem ao mundo numa situação melhor.” (28)

Veniaminov relatou que “Os pobres que observam a melhor condição de vida dos ricos e também a diferença entre os filhos dos ricos e os seus, frequentemente dizem: “Quando eu morrer, com toda certeza voltarei na família de fulano ou sicrano”, indicando a família de sua preferência. Outros dizem: “Oh, como seria bom eu morrer logo. Então eu voltaria outra vez e dentro de muito menos tempo.”

Num dos casos, um homem idoso manifestou o desejo de que sofresse menos de gagueira na sua próxima existência. E num outro caso (não referido detalhadamente aqui), um pobre pescador, que se sentira muito tolhido pelo facto de não conseguir falar inglês, declarou antes de morrer que cultivaria o conhecimento de línguas em sua vida seguinte.

A pessoa da geração seguinte com a qual foi posteriormente identificado possui, na verdade, muita habilidade e interesse por línguas, e aprendeu não apenas o inglês, mas também o russo e o alêuta, que falava tão bem quanto o tlingit.

Além da crença na reencarnação propriamente dita, e do conceito de carma ligando uma vida a outra, os Tlingits possuem duas outras concepções significantes relativas à reencarnação. Primeiro, os Tlingits acreditam que as crianças que se lembram de suas vidas pregressas são fadadas a morrer cedo, e procuram desencorajar a criança que afirme lembrar-se de uma vida anterior, de o fazer.

Idêntica crença existe na Índia, Burma e Ceilão, onde as famílias de tais crianças frequentemente fazem grandes esforços no sentido de anularem aparentes lembranças de uma vida anterior, reveladas pelas crianças.

Segundo, os Tlingits também acreditam no renascimento, em contraposição à reencarnação. De acordo com a concepção de renascimento, a personalidade velha dá origem à nova, como uma vela que está se extinguindo pode acender uma outra vela, e assim sucessivamente.

Na reencarnação, por outro lado, a mesma personalidade continua, embora alterada pelas circunstâncias da nova vida. A reencarnação assim definida é um conceito do Hinduísmo e o renascimento do Budismo.

O Budismo, que se iniciou na Índia no século VI a.C., atingiu a China no século I a.D., e a Coreia em 372 a.D. (29, 30). Espalhou-se pelo Japão no século VI, e posteriormente alcançou a Mongólia e a Sibéria até Kamchatka.

Se o Budismo se estendeu, ou não, ao Alasca, não o podemos dizer com certeza. Mas acho essa possibilidade bastante plausível. Já examinei acima, de forma sucinta, as provas exteriores do contacto entre a Ásia e o Noroeste da América, depois da criação do Budismo, e antes dos tempos históricos (i. e., 500 a.C.-1.700 a.D.)

Essas provas geram atenção, embora não convicção. A íntima semelhança entre as idéias de reencarnação entre os Tlingits e os Budistas também sugere que os ancestrais dos Tlingits importaram, e não inventaram suas ideias sobre a reencarnação, interpretação que Pinart insinua ao comentar a semelhança das ideias dos Esquimós a respeito do céu com aquelas encontradas na Ásia.

O aparecimento de missionários e de escolas no Alasca, no final do século XIX, iniciou o declínio da cultura Tlingit. Primeiro as lutas com lanças, em seguida a cremação dos mortos, e finalmente as “potlatches” (festas rituais) sucumbiram à persuasão religiosa e ao controlo governamental.

Um dos últimos velhos entalhadores de totens, e um dos poucos artesãos vivos capaz de representar as lendas de seu povo nesses maravilhosos monumentos, mostrou-me seu trabalho no Alasca e deplorou o facto de a geração mais nova (ele tinha setenta e dois anos) nada saber sobre reencarnação e ter deixado de dar atenção às marcas de nascença nos recém-nascidos, as quais, se percebidas, indicariam quem renasceu.

Isto porque a crença na reencarnação está desaparecendo entre os Tlingits, e pode-se notar uma gradação descendente da crença proporcional à idade. A geração das pessoas com mais de sessenta anos crê plenamente na reencarnação e as dúvidas dos mais jovens escandalizam-nos.

A outra geração, a das pessoas entre as idades de trinta e sessenta, tem conhecimento da crença na reencarnação entres os Tlingits, e muitos (a maioria talvez) acreditam nela, embora frequentemente com algumas dúvidas de monta.

Na geração mais jovem, encontrei frequentemente escárnio ou ignorância com referência à reencarnação. Conheci um Tlingit estudante, que havia ouvido falar sobre reencarnação na Índia, mas não no Alasca, entre seu povo!

Embora a maioria dos meus informadores falassem livremente sobre o seu conhecimento de casos ou sobre as crenças dos Tlingits, encontrei algumas pessoas que se mostraram reticentes em discutir tais assuntos.

Essa reserva contrastou marcantemente com a quase universal naturalidade com que o povo da Índia falou sobre a reencarnação, durante idênticas investigações naquele país.

A diferença pode originar-se da maior rapidez de aculturação ocidental no Alasca, onde a pressão das religiões e das ciências ocidentais colocou aqueles que ainda conservam as antigas religiões tribais na defensiva em relação a estas.

O Tlingit pode temer que suas ideias sobre reencarnação provoquem críticas ou sejam objecto de menosprezo por parte de outros. Ao contrário, as religiões ocidentais produziram apenas um ligeiro impacto na Índia e, embora esta conte com alguns miIhões de cristãos, a crença na reencarnação provavelmente permanece tão sólida na Índia actual, como o era há cinco mil anos atrás.

Contudo, outras razões podem explicar a reserva dos Tlingits, referentemente à reencarnação. Alguns deles ainda crêem, mais do que outras gerações, que advém infortúnio ao Tlingit que falar sobre sua religião com pessoas de fora.

Finalmente, razões de ordem pessoal sem dúvida justificam algumas inibições em falar acerca de casos particulares. Muitas das personalidades anteriores, ligadas aos pacientes, morreram violenta ou misteriosamente, ou ambas as coisas, e os informadores pareceram relutantes em referir-se a tais factos ou a causas de antigas contendas entre os clãs, nas quais ocorreram algumas dessas mortes.

Métodos de Investigação

Em 1961/65, visitei o Sudeste do Alasca quatro vezes com o objectivo de estudar casos sugestivos de reencarnação entre os índios Tlingits.

Durante estas minhas viagens, estive em dez comunidades habitadas por índios Tlingits, a saber: Juneau, Klukwan, Sitka, Hoonah, Wrangell, Petersburg, Angoon, Anchorage, Kake e Ketchikan.

Ao todo, levei cinco semanas, estudando casos tlingits, em primeira mão.

Como na introdução já descrevi os métodos de investigação utilizados, não os repetirei aqui.
Durante os meus estudos de tais casos, entrevistei, no total, cerca de cem pessoas, a maioria das quais foram testemunhas dos factos referentes aos casos aqui relatados, sendo que algumas foram informadores sobre a cultura dos Tlingits.

Quase todas as testemunhas falavam inglês, mas necessitei de intérprete para alguns Tlingits idosos, que falavam somente a sua língua. Na maior parte das vezes, um parente servia de intérprete; duas vezes, a Srta. Constance Naish, missionária em Angoon, serviu de intérprete.

Incidências de Casos Relatados Entre o Povo Tlingit

Além dos sete casos sugestivos de reencarnação relatados aqui, fiquei sabendo, durante as minhas visitas ao Alasca, de trinta e seis outros ocorridos entre os Tlingits, e de oito entre os Haidas.

Ainda estou a investigar alguns deles e planeio um outro relatório descrevendo-os, bem como certos exemplos discriminados no estudo do grupo maior de casos tlingits.

Não posso, contudo, investigar mais profundamente alguns outros casos porque a pessoa possuidora da experiência ou outras importantes testemunhas em primeira mão morreram.

Apesar disso, conversei pelo menos com uma testemunha directa de cada um desses casos. Dos relatos que me foram feitos dos mesmos, julgá-los-ia semelhantes a outros, dos quais não pude obter depoimentos mais completos por parte das testemunhas.

Se juntarmos todos eles, teremos trinta e três casos relatados entre os Tlingits, ocorridos entre pessoas nascidas durante o período de 1851 a 1965. Chegamos à convicção de que a incidência de todos os casos deve ser consideravelmente maior do que a incidência dos relatados, talvez muito maior.

Isto torna-se uma conclusão óbvia se reflectirmos no facto de que as informações sobre os quarenta e três casos acima apontados foram obtidas por um pesquisador entre os Tlingits, num período menor que seis semanas.

Além do mais, soube ainda de um outro caso que não tive tempo de examinar, mas que, pelas informações recebidas, parece assemelhar-se àqueles que pude estudar ou conhecer melhor. Uma verificação mais completa sem dúvida traria à luz muitos mais casos; porém, de momento, vou considerar apenas os quarenta e três mencionados acima.

O primeiro deles entre os Tlingits data de 1851 (ano do nascimento da pessoa que passou pela experiência de lembrar-se de uma vida anterior). Em 1883, Krause calculou a população dos Tlingits em mais de dez mil pessoas.

Por ocasião do censo de 1960, contaram-se 7.887 (31). Entre 1851 e 1965 podemos calcular que houve umas quatro gerações de não mais de 40.000 Tlingits. Isso apresenta uma incidência de casos relatados entre esse povo, de quarenta e três em 40.000, ou aproximadamente um em 1000.

Assim, a cifra a que se chegou (que, como dissemos acima, deve ser um número mínimo) apresenta uma incidência muito mais alta desses casos do que em outras áreas culturais do Ocidente.

Numa base comparativa, muitos milhares de casos sugestivos de reencarnação devem ter ocorrido no resto dos Estados Unidos, durante os anos de 1851 a 1965. Mesmo admitindo o facto de que muitos casos sugestivos de renascimento dos Estados Unidos não se tornem conhecidos dos investigadores, a incidência dos mesmos nos Estados Unidos continental não deve ser provavelmente tão elevada quanto o é no Sudeste do Alasca. (32).

Prof. Ian Stevenson

(3) Pronuncia-se mais ou menos “Klin-gít”, mas a primeira consoante aproxima-se mais do “ch” alemão (ex.: achtung) ou escocês (ex.: loch) do que do “k” inglês.
(4) Os Incas do Peru acreditavam na reencarnação, porém no mesmo corpo carnal, não em outro. Sua crença parecia-se um tanto com a dos antigos Egípcios e, de modo semelhante, levou à prática da mumificação do corpo físico após a morte. Em contraposição, os Tlingits do Alasca, que acreditavam na reencarnação em outro corpo, cremavam os cadáveres até que os missionários suprimiram essa prática, no século XIX.
(5) M. Barbeau. Comunicação pessoal, 1962. O Dr. Barbeau declara que teve conhecimento da crença na reencarnação entre os Tsimsyans, durante suas investigações na Colúmbia Britânica, mas ainda não publicou seus dados. Há uma alusão ao renascimento em um dos textos publicados pelo Dr. Barbeau (Tsimsyan Miths. Ottawa: National Museum of Canadá Bulletin Nº174, Anthropological Series Nº51/1961).
(6) Frederica De Laguna. Comunicação pessoal, 1962. Em 1965, confirmei isto, encontrando casos típicos de reencarnação entre os Athapaskans e Haidas, no Alasca.
(7) E. Antevs. “The Spread of Aboriginal Man to North America:” The Geographical Reviw, Vol. 25, 1935. 302/309.
(8) F. Boas. “Relationships Between North-West America and North-East Ásia”, in The American Aborigines: Their Origin and Antiquity. (Ed., D. Jenness.) Toronto: University of Toronto Press, 1933.
(9) M. Barbeau. “The Aleutian Rout of Migration Into America.” The Geographical Review, Vol. 35, 1945, 424/443.
(10) M. Barbeau. Alaska Beckons. Toronto: The Macmillan Company, 1947.
(11) Ibidem
(12) E.P. Vining. An Inglorious Columbus or, Evidence that Hwui Shan and a Party of Buddhist Monks from Afghanistan Discovered America in the Fifth Century, A.D. New York: D. Appleton & Company, 1885
(13) Ibidem.
(14) C.G. Leland. Fusang, or the Discovery of America by Chinese Buddhist Priests in the Fifth Century. New York: J.W. Bouton, 1875.
(15) E.P. Vining. Op. cit., nº 10.
(16) C.G. Leland, Op. cit., nº12.
(17) M. Barueau. Op. cit., nº 7.
(18) M. barbeau. Op. cit., nº 8.
(19) I.E.P. Veniaminov. Reports About the Islands of the Unalaska Districts. St. Petersburg: Imperial Academy of Sciences, 1840.
(20) Ibidem. Vide pag. 58. (Traduções da Sra. O. Podtiaguine.)
(21) A. Pinart. “Notes sur les Koloches”. “Bulletins de la Sociéte d’Anthrpologie de Paris”, Vol. 7, 1872. 788/811.
(22) Porém Veniaminov, escrevendo trinta e cinco anos antes, categoricamente negou que os Tlingits acreditassem na transmigração da alma humana para corpos de animais. Antropólogos mais recentes também não relataram tal crença. Os Tlingits têm, na verdade, muitas lendas de transformação de seres humanos em animais, como homem em urso, mas estas diferem da ideia de renascimento em um novo corpo quer animal quer humano.
(23) A. Pinart. Op. cit., n° 19. Vide pág. 803.
(24) A. Pinart. “Esquimaux et Koloches: Idées Religieuses et Tradition des Kaniagmioutes.” La Revue D'Anthropologie, Vol. 4, 1873, 674/680.
(25) A. Krause. Die Tlingit Indianer. Jena: Hermann Costenoble. 1885. Edição americana (Traduzido por Erna Gunther). Seattle: University of Washington Press, 1956.
(26) John R. Swanton “Sociall Condition, Beliefs and Linguistic Relationship of the Tlingit Indians”. No 26º Annual Report of the Bureau of American Ethnology. (1904/05). Washington: Government Printing office, l908, 391/485.
(27) Frederica De Laguna. “Tlingit Ideas About the Individual”. Southwestern Journal of Anthropology, Vol. 10, 1954, 172/191.
(28) A. Pinart. Op. cit., nº 19. Vide pág. 803. (Minha tradução).
(29) E.P. Vining, Op. cit., nº 10.
(30) C. Humphreys. Buddhism. Harmondsworth: Penguin Books, 1951.
(31) Dados fornecidos pelo “Bureau of Vital Statistics, Department of Health and Welfare”, Estado do Alasca. A cifra inclui um pequeno número de indígenas não Tlingits.
(32) Cifras semelhantes de casos relatados provêm de outras áreas, como do Sudeste da Turquia, Líbano, Índia e Ceilão, onde a incidência de casos parece também grande. Eventualmente, será possível estudar-se as relações entre as várias culturas e a incidência de casos relatados, e esse estudo poderá fazer luz sobre a razão das diversas incidências nas diferentes culturas.