Quando tinha cerca de dois anos, começou a falar sobre sua vida anterior, dizendo que havia sido irmão de sua mãe e tinha morado na aldeia de Klukwan.

Esta é uma aldeia a cento e sessenta quilómetros de distância. Fez uma série de afirmações concernentes a assuntos que seu tio poderia ter sabido, mas que parecia improvável que Jimmy tivesse conhecido por meios normais.

Com frequência, geralmente quando zangado, pedia para ir para a aldeia de Klukwan para ficar com sua avó materna. Jimmy falou continuamente sobre sua existência anterior durante aproximadamente dois ou três anos, e daí em diante suas referências nesse sentido diminuiram.

Aquando da minha investigação deste caso, no Outono de 1961, Jimmy (então com menos de nove anos de idade) não alegava mais lembrar-se de qualquer coisa acerca de sua vida anterior.

Portanto, tive conhecimento do que ele havia dito e feito anteriormente, através de entrevistas com sua mãe, pai, um irmão, duas irmãs e outros membros da família materna. Antes de narrar o que esses vários informadores me disseram, mencionarei alguns factos relevantes sobre a vida e morte do falecido John Cisko (tio de Jimmy) e as suposições de como ele encontrou a morte.

John Cisko era um índio Tlingit de raça pura que, como muitos da tribo, gostava de caçar e pescar, no que demonstrava grande habilidade. Bebia álcool em excesso, especialmente vinho.

Por ocasião de sua morte, no verão de 1950, quando tinha cerca de vinte e cinco anos, estava no exército e voltara ao Alasca em licença. Permaneceu numa das numerosas aldeias pesqueiras de salmão e de fábricas de conserva da região.

Um dia saiu num pequeno barco com duas mulheres a dar um passeio. Várias horas depois o barco foi encontrado empinado na praia com o motor no lugar e sem o tampão do fundo. Esses indícios faziam supor que o barco se havia enchido de água, talvez rapidamente e antes que seus ocupantes, (provavelmente) embriagados, se apercebessem do perigo.

Algumas pessoas encontraram nas imediações os cadáveres das duas mulheres afogadas, mas jamais conseguiram recuperar o corpo de John Cisko. Nos canais do Sudeste do Alasca as marés sobem muito e as correntes são rápidas. Um baixa-mar pode arrastar um corpo rapidamente e para sempre. Essas circunstâncias tornam um homicídio bastante fácil, frequentemente insuspeitável, e extremamente difícil de ser provado.

Hans, um irmão de John Cisko declarou-me que estava convicto de que um amante ciumento de uma das mulheres, que acompanhavam John, o havia assassinado.

Hans ouvira dizer que uma testemunha vira o homicídio, mas que não quis falar sobre o assunto por temer represálias por parte do criminoso.

Um outro Tlingit que trabalhava para a mesma fábrica de salmão enlatado no verão de 1950, como capitão de um barco pesqueiro, disse-me que achava o homicídio uma explicação improvável para a morte de John Cisko.

O capitão considerava mais provável que o mesmo tivesse se afogado depois de manter-se agarrado ao barco inundado tanto quanto pode, e que a maré havia transportado o seu corpo, embora não tivesse arrastado os das suas companheiras.

A irmã de John Cisko, Millie, tinha-lhe grande afeição e lamentou muitíssimo a sua morte. Ela queria dar ao próximo filho que nasceu dois anos mais tarde, o nome de John, mas foi dissuadida disso porque esse nome já era muito frequente na família do marido.

Assim, ela e o esposo deram ao menino o nome de John como um segundo nome, de modo que ele se chamou James John Svenson.

Jimmy tinha quatro sinais redondos no abdomén, os quais examinei em 1961. Sua mãe declarou que essas marcas existiam quando ele nasceu. Em 1961 tinham cerca de seis milímetros de diâmetro e eram claramente destacadas da pele circundante.

Três tinham menos pigmentos do que a pele em redor, e uma tinha um maior número de pigmentos. Três estavam a altura das costelas inferiores direitas, acima do fígado; a quarta encontrava-se cerca de cinco centímetros à direita do umbigo.

Os sinais pareciam-se muito com os de ferimentos de bala.

Dado que vários informadores com quem conversei se lembravam de diferentes declarações feitas por Jimmy, relacionei todas essas afirmações a ele atribuídas no quadro adiante, com comentários de sua verificação feitos pelos informadores.

Testemunhas secundárias relataram outros detalhes de informação fornecidos por Jimmy a sua família. De acordo com esses informadores, Jimmy já havia falado a esses parentes sobre pormenores específicos da vida em Klukwan, como por exemplo: as características e hábitos do cachorro da familia e detalhes da casa em que John Cisko residira em Klukwan.

Estes eram supostos elementos de informação conhecidos de John Cisko, mas sem probabilidade de que fossem do conhecimento de Jimmy Svenson, através de meios normais. Contudo, quando perguntei aos principais informadores sobre esses factos, eles negaram ter deles qualquer lembrança.

Omiti-os portanto, na lista acima. Uma vez que duas testemunhas secundárias concordaram em que tiveram conhecimento deles através de um membro da família, isto pode nos dar um exemplo de enfraquecimento, com o passar do tempo, da lembrança dos detalhes pelas testemunhas principais.

Ou então, de que as testemunhas secundárias talvez tenham retocado a história que originalmente ouviram.

Comentários.

Os membros da família de Jimmy forneciam informações sobre as suas declarações, muito relutantemente. Tive a impressão de que os informadores retinham dados que conheciam e que também haviam esquecido factos que antes sabiam.

Acredito que os nove itens que relacionei representam uma versão abreviada da história original, em vez de uma versão ampliada. Devemos entretanto considerar a história como ela é, e não como seria se melhores testemunhas e investigadores precedentes a tivessem observado.

Tomada como é, o máximo que podemos dizer dela é que se harmoniza com a reencarnação, mas não apresenta uma evidência de monta a esse respeito.

O caso padece de duas sérias deficiências que diminuem o seu valor comprovativo relativamente à reencarnação. Em primeiro lugar, Jimmy não fez qualquer declaração que não pudesse em absoluto ter obtido normalmente.

Talvez tivesse se aproximado disso (nas provas que temos) quando alegou que costumava beber vinho. Nos restantes dados encontramos insinuações de conhecimento paranormal, como na descrição do lago próximo a Klukwan, mas nada que possamos categoricamente afirmar como tal.

O caso se tornaria bem diferente se uma testemunha fidedigna declarasse que havia visto John Cisko ser morto com tiros no estômago. Pareceria, então, que pessoas mortas podem, na verdade, contar histórias.

Mas John Cisko não o fez de maneira clara ainda (34).

Um segundo e igualmente grave defeito deste caso, com relação ao seu valor provante da reencarnação, surge do facto de que tanto John Cisko quanto Jimmy Svenson pertenciam à mesma família e eram parentes, como irmão e filho da mesma senhora.

Na realidade, Jimmy Svenson mora numa cidade a cento e sessenta quilómetros de Klukvan, mas cresceu em companhia de sua mãe, que amava John Cisko como seu irmão favorito.

Ela o pranteou muito e deu o nome dele ao filho que teve após a sua morte. E, uma vez que ela acredita na reencarnação, bem pode ter falado sobre seu irmão ao filho e assim ter comunicado a ele os factos que o menino alegou lembrar.

Contudo, como em muitos outros casos sugestivos de reencarnação, devemos considerar os aspectos de comportamento bem como aqueles puramente informativos do caso.

Sumário das declarações, reconhecimentos e comportamento de Jimmy Svenson

I Assunto Informadores Comentários

1. O seu nome era John e não Jimmy.

2. Morava em Klukwan (aldeia onde John Cisko morara).

3. Foi assassinado a tiro (na vida anterior).

Não referido pela mãe de Jimmy, que entretanto, salientou o contínuo desejo de Jimmy ir para Klukwan.

A mãe disse e Jimmy acrescentou: “Pelo capitão”. O pai disse e Jimmy acrescentou: “No estômago”, e apontou para seu estômago ao declarar isso. A primeira afirmação está de acordo com os sinais de nascença no abdómen de Jimmy, mas a forma exacta da morte de John Cisko é desconhecida.

4. Falou muito de Klukwan e frequentemente dizia que queria ir lá para visitar sua avó (mãe de John Cisko).

5. Fez uma descrição exacta de um dos lagos próximo a Klukwan.

6. Disse que costumava beber vinho.

7. Disse ao seu tio: “Não sou seu sobrinho, sou seu irmão”. (Com a idade de seis anos).

8. Familiaridade com a aldeia de Klukwan e área circunvizinha, quando foi levado lá; com a idade de seis anos e meio.

9. Insistentes rogos para ir pescar com um parente vizinho, quando ele (Jimmy Svenson) visitou Klukwan.

Jimmy tinha visto sua avó quando era bebé, mas não estivera em Klukwan antes dos seis anos e meio de idade.

John Cisko costumava beber vinho em excesso. James Svenson Sr., meio-norueguês, nunca tinha vinho em casa, somente cerveja. A mãe de Jimmy disse que este declarara ter bebido “whisky” (não vinho) “há muito tempo atrás.”

O informador insistiu em que essa observação foi bastante espontânea e livre quando, ao sair (após sua primeira visita à família Svenson) ele disse a Jimmy: “Bem, até logo, sobrinho.”

Nenhum detalhe de conhecimento específico foi lembrado. Jimmy simplesmente parecia estar invulgarmente familiarizado com pessoas e lugares da região.

Confirmado a mim pelo parente em questão. Esse homem havia sido amigo íntimo e companheiro de pescaria de John Cisko. Outros parentes (excepto a avó materna de Jimmy) estavam fora da aldeia quando ele visitou Klukwan. Esse “companheiro de pesca” era o único parente à disposição para um possível reconhecimento por parte de Jimmy.

Por exemplo Jimmy não apenas asseverou conhecer Klukwan, mas, quando zangado com os pais, pedia para ir para lá ficar com sua avó materna (a mãe de John Cisko).

Em suma, Jimmy não só parecia saber a respeito de John Cisko; mas também agia como se ele e John Cisko fossem a mesma pessoa. Agora, como a mãe de Jimmy desejava que o seu irmão retornasse, ela pode ter imposto a ele uma identificação com seu falecido irmão.

Contudo, devo chamar a atenção para um dos pontos fracos da teoria de “identificação imposta”, no caso presente. Na minha opinião, ela deixa de explicar satisfatoriamente o enfraquecimento de personificação da personalidade, à medida que a idade da criança vai aumentando.

Observamos comumente em casos sugestivos de reencarnação que, conforme a criança cresce, a sua lembrança da vida anterior e a simultânea identificação com a outra personalidade diminuem. No caso de Jimmy Svenson, as lembranças aparentes começaram a enfraquecer quando ele tinha quatro anos, e já teriam sido completamente esquecidas quando eu conversei com ele, quando tinha nove anos.

Se adoptarmos a teoria de identificação imposta para este caso, devemos admitir que, quando Jimmy tinha quatro anos, a sua mãe aceitou a ideia de que ele desenvolvesse uma outra personalidade que não a de seu irmão John Cisko.

Então, a partir dessa época, a personificação de John Cisko e a pseudo-lembrança, que existiriam nesta hipótese, regrediriam em poucos anos. O afrouxamento de pressão por parte da mãe de Jimmy seria compatível com a diminuição, através dos anos, da sua mágoa pela morte do irmão.

Mas, em casos em que pressões inconscientes, por parte de um pai ou mãe, fomentaram o desenvolvimento de um determinado sintoma ou comportamento na criança, o sintoma não regrediu com o correr do tempo nem diminuiu no pai ou mãe o desejo de que a criança tivesse tal comportamento.

Essa falta de diminuição de intensidade de um sintoma imposto pode-se originar do facto de o desejo que o promove ser não só intenso, como inconsciente, por parte do pai ou mãe.

Não creio que possamos chegar a uma conclusão segura sobre este caso, de momento. A reencarnação poderia explicar o comportamento da criança como também o poderia explicar a teoria da “identificação imposta”.

A evidência de paranormalidade do caso não vai além de insinuações; por outro lado, a teoria de “identificação imposta”, aplicada ao caso, torna-o um exemplo que transcende a influência previamente demonstrada pelos pais sobre as crianças. Os factos de que dispomos não nos permitem escolher entre estas duas possibilidades.

Prof. Ian Stevenson

(33) Conforme foi dito anteriormente, ocultei os nomes das pessoas que passaram pelas experiências e que testemunharam os acontecimentos narrados, usando pseudónimos.
(34) Minha colecção de casos inclui diversos outros exemplos nos quais pessoas que alegam ter vivido antes, projetaram novas luzes sobre mortes ou homicídios obscuros. (Vide, por exemplo, o caso de Ravi Shankar)