1º - Descreverei o caso resumidamente e depois apresentarei, em forma de tabela, as declarações das três testemunhas que entrevistei.

William George, Sr. foi, no seu tempo, um famoso pescador do Alasca. Como outros Tlingits, acreditava na reencarnação. No fim da vida, passou a ser assaltado por dúvidas, e alimentava também o grande desejo de retornar. Em várias ocasiões, disse ao seu filho predilecto (Reginald George) e à sua nora: “Se esse negócio de renascimento for verdadeiro, voltarei e serei filho de vocês”.

Declarou isso diversas vezes, acrescentando: “E vocês irão reconhecer-me porque terei marcas de nascença semelhantes às que tenho agora”. E, dizendo isto, apontava para dois proeminentes nevos pigmentados de cerca de meia polegada de diâmetro, um na superfície superior do ombro esquerdo e o outro na face interna do antebraço esquerdo, a umas duas polegadas abaixo da articulação do cotovelo.

No verão de 1949, William George Sr. então com cerca de sessenta anos de idade, expressou novamente a intenção de retornar depois da morte, entregando nesta ocasião, ao seu filho predilecto, um relógio de ouro, que lhe fora dado por sua mãe.

Ao fazê-lo, disse: “Eu voltarei. Guarda-me este relógio. Vou ser teu filho. Se existir tal coisa (referindo-se ao renascimento), eu o farei.” Reginald George foi passar um fim de semana em casa, pouco tempo depois, e deu o relógio de ouro à sua mulher, Susan George, contando-lhe o que o pai lhe havia dito.

Ela pôs o relógio numa caixa de jóias, onde ficou guardado durante uns cinco anos.

No princípio de Agosto de 1949, poucas semanas após os acontecimentos acima, William George Sr. desapareceu do barco de pesca de arrastão, do qual era capitão. Membros da tripulação nada sabiam quanto ao que lhe sucedera, e os que o procuraram nunca encontraram o seu corpo.

Possivelmente caíra ao mar e a maré o carregara para longe, como pode facilmente acontecer naquelas águas.

A Sra. Reginald George, sua nora, pouco tempo depois engravidou e deu à luz no dia 5 de maio de 1950, apenas nove meses depois da morte do sogro. A criança foi o nono dos seus dez filhos. Durante o parto, ela sonhou que o sogro lhe aparecera e dissera que estava à espera para ver o seu filho.

Parece que, nesta ocasião, a Sra. George não ligou essa visão onírica com o renascimento do sogro, porque, quando acordou da anestesia, ela estava assustada e esperava ver o sogro, talvez como uma aparição com sua forma adulta anterior, como o vira no sonho.

Mas o que realmente viu foi uma desenvolvida criança do sexo masculino, que tinha nevos pigmentados na superfície superior do ombro esquerdo e na face interna do antebraço esquerdo; nas regiões exactas dos nevos mencionados pelo avô do menino.

Os sinais de nascença da criança tinham mais ou menos metade do tamanho dos do seu avô. A identificação dessas marcas de nascença fez com que os pais da criança lhe dessem o nome do avô, e assim ele se tornou William George Júnior.

William George Jr. teve uma pneumonia grave com a idade de um ano. Não começou a falar senão aos três ou quatro anos, porém, com uma gagueira bem acentuada, que desapareceu nos anos seguintes, conquanto seu pai, Reginald George, em 1961, ainda mostrasse muita preocupação com o defeito do menino. William George Jr. parece ter inteligência média, a julgar pelo seu aproveitamento na escola e a conversa que mantive com ele no Alasca.

À medida que ele foi crescendo, a família de William George Jr. observou nele um comportamento que reforçou sua convicção de que William George Sr. havia retornado.

Esse comportamento abrangia várias grupos de características. No primeiro grupo verificavam-se os gostos, as aversões e as aptidões semelhantes às do avô.

Por exemplo, William George Sr. tinha machucado gravemente o tornozelo direito, quando jogava à bola, em moço. Depois disso passou a coxear e virava o pé direito para fora, de modo que caminhava com andar definidamente característico. William George Jr. tem um andar idêntico, e vira o pé direito para fora, quando caminha.

Seus pais testaram isso e eu também observei, vendo como William George Jr. andava. No menino, contudo, a anormalidade do andar não é marcante, e duvido que eu a tivesse percebido se não me houvessem chamado a atenção para o facto.

Membros da família notaram também semelhanças nos traços faciais e na postura, entre William George Jr. e o avô. William George Jr. parece-se com o avô na tendência à irritabilidade e a dar conselhos de advertência aos que o cercam.

Demonstra um conhecimento precoce de pesca e barcos. Conhece as melhores baías para pescar e, quando foi posto pela primeira vez num barco, pareceu já saber como manejar as redes. Mostra ter um medo da água maior do que o comum nos outros meninos de sua idade, e é mais sério e sensato que eles.

O segundo tipo de observações feitas com William George Jr. consiste num comportamento que indica uma identificação quase completa do menino com o avô. Por exemplo, refere-se à sua tia-avó como “irmã”, sendo este de facto o parentesco dela com William George Sénior. Do mesmo modo, refere-se aos tios e tias (irmãos e irmãs de Reginald George) como se fossem seus filhos e filhas.

Além disso, demonstra uma preocupação coerente com o comportamento deles, por exemplo, com o excessivo consumo de álcool de dois de seus “filhos” (tios).

Os irmãos e irmãs de William George Jr., participam de sua personificação e, muitas vezes, o chamam de “avô”, ao que ele não se opõe. A identificação de William George Jr. com o avô tem diminuído um pouco, nos últimos anos.

O seu pai achou que William Jr. estava a preocupar-se demasiadamente com o passado. Notou que a mente dele “divagava”. Por esse motivo e devido as divergências dos “mais velhos” quanto ao perigo de recordar vidas passadas, os pais de William Jr. dissuadiram-no de falar na vida de William Sr.

Em terceiro lugar, William George Jr. demonstrou ter um conhecimento das pessoas e lugares que, na opinião da família, transcende o que ele poderia ter aprendido através dos meios normais.

Fiz uma lista desses factos na tabela apresentada adiante, mas descreverei primeiro e com mais detalhe, o item mais importante.

Quando William George Jr. tinha entre quatro e cinco anos, a mãe um dia resolveu dar uma olhadela nas jóias de seu porta-jóias, e espalhou-as no seu quarto. Tirou também da caixa o relógio de ouro de William George Sr. Enquanto ela examinava o conteúdo, William George Jr., que estivera a brincar numa outra divisão entrou no quarto.

Reparando no relógio, pegou-o e disse: “É o meu relógio”. Agarrou-se a ele firmemente, repetindo que era dele, e a mãe, por muito tempo, não conseguiu persuadi-lo a devolvê-lo. Por fim consentiu em que fosse reposto na caixa.

Desde então, e até à presente data, William George Jr. de vez em quando pergunta aos pais pelo “seu relógio”. Na verdade, como ficou mais velho, reclama o relógio com mais firmeza, dizendo que deve ficar com ele, agora que estava a crescer.

Tanto o Sr. como a Sra. Reginald George afirmam que o relógio de ouro tinha ficado no porta-jóias desde a ocasião em que a Sra. George lá o depusera, em julho de 1949, até o dia em que, cinco anos mais tarde, ela o retirara de lá ao examinar as suas jóias.

Eles têm igualmente a certeza de que nunca falaram no relógio com William George Jr., ou na sua presença. Lembram-se de ter contado a algumas pessoas da família que William George Sr. lhes tinha dado o relógio antes da sua morte. (Uma delas, o Sr. Walter Mays, testemunhou isto).

Têm a convicção, contudo, de que nenhuma daquelas pessoas poderia ter falado do relógio a William Jr. A sua certeza sobre esses factos fez com que os pais de William Jr. ficassem muito mais impressionados com o reconhecimento do relógio do que com a existência dos sinais de nascença na mesma localização dos de William George Sr. Em sua opinião, também, o reconhecimento do relógio ocorrera acidentalmente.

A Sra. Reginald George não tinha intenção de mostrá-lo ao menino. Simplesmente aconteceu que ele irrompeu pelo quarto quando ela o tinha tirado do porta-jóias, e ele percebeu-o sem a menor insinuação dela.

William George Jr. perdeu, actualmente e em grande parte, a sua antiga identificação com o avô, e, a não ser o facto de reclamar ocasionalmente “seu relógio” e uns restos de gagueira, ele age como um menino normal de sua idade.

Conversei com ele no Alasca, e esperei que tivesse algo mais a dizer sobre o relógio, que a sua mãe mostrou na minha presença. Ele segurou-o com amor, mas nada falou a seu respeito. Não sei se essa reserva se originou do acanhamento por minha causa. ou por um desvanecimento das imagens que originalmente o levaram a reclamar o relógio como seu.

Declarações feitas pelas Testemunhas do Caso. Apresento agora, em forma de tabela uma lista das várias declarações e de outras atitudes de William George Jr.

Os três principais informadores foram o Sr. e a Sra. Reginald George e o Sr. Walter Mays, primo de Reginald George e sobrinho de William George Sr. O Sr. Mays fora companheiro inseparável de viagens de pesca, e de outras ocasiões, de William George Sr.

Surgiram circunstâncias que me tornaram possível entrevistar as três testemunhas separadamente: a Sra. George, no Alasca, e o Sr. George e Sr. Mays em Seattle.

Os leitores que tomam a sério a hipótese da reencarnação, poderão desejar saber qual a atitude do Sr. e da Sra. Reginald George quanto ao desejo expresso por William George Sr. de retornar como filho deles.

A Sra. George disse que não teve nenhum forte desejo consciente de que o sogro voltasse como filho dela. Contudo, pela expressão de alegria em sua face, ao contar a história, julgo que ela se sentiu lisonjeada por seu sogro a haver escolhido, dentre várias outras mulheres na família, para ser a sua próxima mãe.

A escolha aparentemente foi motivada, pelo menos em parte, pela afeição que lhe tinha, por seus próprios predicados e não pelo facto de ela ser a esposa de seu filho predilecto. O Sr. Reginald George era efectivamente o filho favorito, já que os outros se mostraram desinteressados ou indiferentes pelo bem-estar do pai.

Reginald George retribuía a afeição do seu pai. Ele realmente desejava que este retornasse como seu filho, e ficou na expectativa de que cumprisse o seu intento.

Comentários sobre Hipóteses Alternativas.

Como no caso anterior, as duas principais hipóteses para explicar este caso são a reencarnação ou uma identificação assumida ou imposta, com o avô.

E também, como no caso precedente, a ocorrência das duas personalidades na mesma família torna muito mais provável a transferência de informação sobre a personalidade falecida ao menino, por meios normais, do que quando as duas personalidades aparecem em duas famílias inteiramente desconhecidas uma da outra.

O desgosto dos pais pela morte súbita e misteriosa do velho pescador pode muito bem ter influenciado as suas esperanças e a convicção de que ele retornara.

A crença comum entre os Tlingits, na reencarnação, e a intenção expressa pelo capitão de retornar a eles, poderia certamente ter contribuído para que acreditassem que ele voltara como seu filho. De acordo com essa interpretação, o sonho da Sra. Reginald George durante o parto satisfaz de modo patente o seu desejo de que o sogro retornasse, senão por ela, então para alegrar o marido.

Depois, após o nascimento da criança, os pais poderiam, talvez inconscientemente, ter lhe imposto a identificação com o avô, a qual eles declararam que ele apresentava.

Mas uma dificuldade ainda maior do que as mencionadas relativamente ao caso precedente, surge de uma certa necessidade em explicar a ocorrência dos sinais de nascença em lugares idênticos, o andar anormal que tinha o menino e o reconhecimento do relógio de bolso, de ouro, que o avô havia dado ao seu pai.

O Reconhecimento do Relógio.

O reconhecimento do relógio de ouro pode talvez ser resolvido, pela suposição de que os George se lhe tivessem referido anteriormente (embora o neguem) ao treinarem a criança para assumir a identidade do avô.

Não podemos afirmar que isto não possa ter acontecido. Um ponto mais importante talvez é saber se tal referência ao relógio, ou mesmo várias referências, teriam sido suficientes para possibilitar ao menino identificá-lo quando o viu.

O reconhecimento do relógio de ouro por William George Jr. não era tão difícil de ser feito, talvez, como os testes de reconhecimento por que passou o Dalai Lama (décima quarta encarnação) que reconheceu, com sucesso, o rosário, o tambor e o bordão da décima terceira encarnação, quando estes objectos lhe foram apresentados, juntamente com outros objectos semelhantes, que haviam pertencido ao último Dalai Lama (36).

Contudo, mesmo em testes de reconhecimento desta espécie, pode haver alguma orientação oculta, já que estão presentes espectadores que conhecem o objecto a ser reconhecido e com expectativas relativamente ao reconhecimento.

Se pudermos crer no relato da Sra. George sobre o que aconteceu no presente caso, o reconhecimento do relógio de ouro da avô, feito por seu filho, foi inteiramente espontâneo e não planejado por ela.

Seja o que for que pensemos sobre a possibilidade de o menino ter ouvido falar no relógio antes, ninguém o convidara a reconhecer o relógio, ou esperou que ele o fizesse. Ele casualmente viu-o e imediatamente o identificou.

Este facto diminui a probabilidade de que as insinuações da sua mãe influenciaram o reconhecimento.

Mesmo quando nos sentimos seguros para excluir influências sensoriais ocultas que levassem a tais reconhecimentos, permanece a possibilidade de uma transmissão de informação, através de percepção extra-sensorial por parte dos que conhecem a identidade do objecto (ou pessoa) ao paciente, o qual, por meio de paramnésia poderia então falsamente reconhecê-lo (ou a pessoa) como por efeito de sua própria memória.

Sumário das Declarações feitas por testemunhas no caso de William George Jr.

Declarações da Sra. Reginald George. Declarações do Sr. Reginald George. Declarações do Sr Walter Mays Comentários

1. William George Sr. Dizia repetidamente que ia retornar como seu filho.

2. William George tinha sinais salientes na parte superior do ombro esquerdo e no antebraço esquerdo, abaixo do cotovelo. Sinais de cerca de meia polegada de diâmetro. Não se lembra se os sinais eram altos.

3. William George Sr. Dissera que quando retornasse reconhecê-lo-iam pelos seus sinais.

4. No verão de 1949, o seu marido dera-lhe um relógio de bolso de ouro, dizendo que o pai lho havia dado e que lhe dissera: “Se esse negócio da reencarnação for verdadeiro, retornarei na sua família e reclamarei este relógio. Cuide bem deste relógio.”

5. Ela pôs o relógio numa caixa de jóias, onde permaneceu, durante cinco anos, até ao dia em que William George Jr. o retirou de lá; ocasião em que o reconheceu e o reclamou para si.

6. Durante o parto, no nascimento de William George Jr., a Sra. George teve um sonho, no qual lhe aparecera o sogro e lhe dissera que estava à espera para ver o seu filho.

7.William George Sr. havia machucado a perna quando jovem e William George Jr. andava com o pé direito virado para fora, de maneira semelhante à do avô.

8. Um dia, quando Reginald George ia a sair no seu barco para ir pescar, o seu filho aconselhou-o a pescar numa determinada baía, cujo nome ele disse.
William George Jr. acrescentou então que ele próprio, havia, certa vez apanhado uma enorme quantidade de peixe naquela baía. Isto foi um facto na vida de William George Sr.
Confirmado pelo Sr. George. O seu pai falou nisso alguns anos antes de morrer.

O Sr. George só se lembrava do sinal no ombro esquerdo, e disse que era alto. Tinha cerca de meia polegada de diâmetro.

O Sr. George não se recordava de ter o pai chamado a atenção para os sinais como um meio de o reconhecerem.

No verão de 1949 William Geroge Sr. dera a Reginald George um relógio de bolso, de ouro, dizendo: “Eu voltarei. Guarda este relógio para mim. Vou ser teu filho. Se existe tal coisa, eu o farei.”

Confirmado pelo Sr. Reginlad George.

O Sr. Reginlad George sabia que a sua esposa sonhara, durante o parto, que o seu pai estava de volta.

O seu pai magoara o pé direito quando era moço. Isto ocasionou um defeito no andar. William George Jr. tem o mesmo defeito, mas em grau menor.

Quando William George Jr. Tinha mais ou menos quatro anos, veio a correr da rua onde estivera a brincar, e disse entusiasmadamente que tinha visto a sua “irmã” a passar. Os pais souberam então que a irmã de William George Sr. tinha, de facto acabado de passar pela casa deles.

O Sr. Reginald George lembrava-se de que o filho o aconselhou minuciosamente quanto à pesca em determinada baía, e tinha razão em dar esse conselho.

Não se lembrava de que o menino tivesse afirmado, na mesma ocasião, que fizera uma pescaria especialmente importante naquela baía, na sua vida anterior. O Sr. Mays ouviu William George Sr. Fazer tal declaração, certa vez, em 1949.

Desses dois sinais, o Sr. Mays lembrava-se claramente.

O Sr. Mays não sabia dessa declaração.

O Sr. Mays tinha ouvido dizer que William George Sr. dera ao seu filho um relógio pelo qual ele seria reconhecido após a morte.

Quando William George Jr. Viu o Sr. Mays, disse: “Eu costumava ir pescar com ele.” Não reconheceu o Sr. Mays pelo nome.

Os sinais em William George Jr. (examinados por mim em 1961) encontram-se nos lugares mencionados. Têm cerca de meia polegada de diâmetro. Não são salientes.

Se William George Sr. o comunicou ou não, a outras pessoas, além da sua nora, a sua crença de que seria reconhecido pelos sinais, facto de William George Jr. ter sinais nos mesmos lugares que o seu avô, foi o principal factor a influenciar os pais a darem-lhe o mesmo nome do avô.

O Sr. George disse que o seu pai lhe dera o relógio “uma ou duas semanas” antes de morrer. A Sra. George recordava-se do espaço de tempo como sendo de vários meses.

O Sr. Reginald George não estava presente por ocasião do reconhecimento do relógio. A Sra. George estava sozinha com o filho. O Sr. George prestou depoimento baseado na observação directa da atitude de posse, por parte do filho, relativamente ao relógio em questão.

Não sei se a Sra. George contou a alguém o seu sonho, antes do nascimento da criança, mas acho pouco provável, porque ela foi anestesiada para o parto, pouco depois de ter o sonho. Ao acordar da anestesia, após o parto, a Sra. George estava assustada, porque esperava lá ver o seu sogro.

Bastante exacto quanto ao facto de William George Sr. e o Sr. Mays frequentemente pescarem juntos.

Em William George Jr. existe a anormalidade no andar, mas não é acentuada.

O Sr. Reginald George achava que William George Jr. tinha visto a sua tia-avó antes. O ponto importante é, pois, a sua referência a ela como “irmã” (em vez de tia-avó) e a sua animação ao vê-la. Tal entusiasmo não seria adequado, ao ver uma tia-avó a quem o menino talvez tivesse visto apenas uma ou duas vezes na vida actual.

William George Sr. era um esplêndido pescador e uma das suas características era o conhecimento pormenorizado dos melhores locais de pesca, mas isto era surpreendente num menino que mal tinha começado a entrar num barco.

A Herança dos Sinais (Naevi). A indicação dos sinais, por parte do falecido avô como um indício da sua identidade quando retornasse, e a sua aceitação pelo filho e pela nora, ocorreram sem se levar em conta a possibilidade da herança de sinais.

Este assunto ocupou a atenção de inúmeros dermatologistas e geneticistas, principalmente na Europa. Várias investigações realizadas na década de 20 estabeleceram o facto de que a tendência para maior ou menor número de sinais é indubitavelmente hereditária.

Mais pesquisas posteriores mostraram que tanto a localização como o número de sinais podem ser herdados. Infelizmente, apenas em poucos casos foi realizado um estudo minucioso com respeito à presença ou ausência de um sinal, no mesmo lugar, em diferentes membros de uma família, durante três ou mais gerações.

Consegui achar, ao todo, apenas doze desses “pedigrees” publicados ou citados na literatura sobre o assunto, na Europa e nos Estados Unidos (37, 38, 39, 40,41).

Para o presente caso, a questão mais relevante sobre a herança de sinais é se a tendência para herdar um sinal (num local particular) pode ser transmitida por um dos pais que, em si mesmo, não apresenta o sinal em sua pele.

Em termos genéticos, é a herança totalmente dominante, ou sua incidência é por vezes diminuta.

Pelo estudo dos doze “pedigrees” podemos concluir que a herança é, em geral totalmente dominante, registando-se, porém, excepções.

Em duas das doze famílias estudadas, um avô e um ou mais dos seus netos tinham um sinal ou sinais exactamente nos mesmos lugares, mas os parentes da geração intermédia não os tinham, embora esses pais actuassem como transportadores da tendência para o sinal no neto (42, 43).

A ocorrência desses raros casos excepcionais na herança de sinais torna impossível atribuir com segurança o fenómeno do aparecimento dos sinais em William George Jr à reencarnação, mas podemos encará-los como constituindo uma evidência.

Seria um erro pôr de lado esta questão, como se a Genética pudesse sozinha, no actual momento, elucidar sobre todos os aspectos.

A Genética pode apenas indicar a probabilidade de herança dos sinais por gerações ulteriores. Não contribui para a nossa compreensão, neste caso, do facto de somente William George Jr., dentre os dez filhos da família, ter sinais nos mesmos lugares dos de seu avô (44).

A reencarnação, da qual não há outra evidência particularmente acentuada neste caso, oferece realmente uma explicação para isso. Como já o dissemos, a Genética ajuda a compreender as semelhanças entre membros da mesma família; a reencarnação é uma teoria que pode explicar algumas das diferenças entre membros da mesma família.

A Herança de uma Anormalidade no Andar. Como já foi dito, William George Sr. machucou o tornozelo direito, ficando coxo quando ainda bem jovem. William George Jr. tem um andar idêntico, com uma tendência, embora mais leve, de atirar o pé direito para fora, quando anda.

Os pais de William George Jr., independente e espontaneamente, comentaram comigo o coxear do filho e a sua semelhança com o andar defeituoso do avô.

Aqui trata-se de um caso de herança de uma característica adquirida, algo considerado extremamente improvável por todos os geneticistas e como quase impossível pela maioria.

Como seria difícil incluir um específico andar anormal entre os traços impostos a uma criança pelos pais, a hipótese de identificação imposta explica menos adequadamente este aspecto do que os outros aspectos, tais como a atitude paternal do menino para com os tios.

Creio que a reencarnação explica mais satisfatoriamente a ocorrência desse coxear, do que outras teorias, se acreditarmos que o andar de William George Jr. se assemelha particularmente ao coxear adquirido pelo avô.

Esta omissão foi devida primeiramente à minha ignorância quanto à genética dos sinais, por ocasião de minha primeira visita ao Alasca. Por ocasião da minha segunda visita, não consegui persuadir a família a cooperar em tal exame.

Contudo, pela importância que os pais de William George Jr. atribuíram aos sinais, inclusive dando-lhe o nome do avô, e com base neles, acho seguro presumir que os encaravam como um indício característico da volta do avô, o que não teriam feito, se quaisquer outros membros da família tivessem sinais nos mesmos lugares.

Prof. Ian Stevenson

(35) I.E.P. Veniaminov. Op. cit., nº 17. Para mais detalhes e exemplos, tanto de sinais de nascença como de sonhos proféticos, entre os casos Tlingits do tipo reencarnação vide: I. Stevenson, “Cultural Patterns In Cases Suggestive of Reincarnation Among the Tlingit Indians of Southeastern Alaska.”
(36) H. Harrer. Seven Years in Tibet. (Trad. por R. Graves) New York: E. P. Dutton & Co., 1954. Para uma exposição independente e corroborante (excepto quanto a alguns detalhes discrepantes) dos testes propostos ao décimo-quarto Dalai Lama, vide também B.J. Gould, The Jewel in the Lotus. Londres: Chatto e Windus, 1957.
(37) AH. Estabrook, Eugenical News, vol 13. 1928. 90-92
(38) S.J. Denaro. “The Inheritance of Nevi” Journal of Heredity. Vol. 35. 1944, 215-218
(39) E.A. Cockayne, Inherited Abnormalities of the Skin. Londres: Oxford University Press. 1933
(40) C.A. Maruri. “La Herencia de los Lunares”. Actas Dermo-Sifilográficas, Vol. 40. 1949, 518-525.
(41) C.A. Maruri. “La Herencia en Dermatologia. Santander”: Aldus, SA. Artes Gráficas. 1961.
(42) L. Leven. Erblichkeit der Naevi. Deutsche Med. Wochenschr., vol. 55, 1929, 1544.
(43) A. Brauer. Hereditarer symmetrischer systematisierter Naevus aplasticus bei 38 Personen Dermat. Wochenschr., Vol. 89. 1163-1168.
(44) A bem da rigorosa exactidão, devo dizer que não examinei pessoalmente os membros da família George, a não ser William Jr., no que diz respeito à ocorrência ou ausência de sinais nos mesmos lugares do corpo.