Entendemos por disciplina uma acção continuada, executada por forma a atingir um determinado objectivo, em função de um contexto individual único e integrada num percurso espiritual consciente e previamente delineado.
Deste modo, a disciplina permite um trabalho dinâmico de acção construtiva sobre uma atitude que se pretende transformar ou adquirir. Saber o que se vai fazer, sobre aquilo que vai incidir e com que objectivo. Dito de uma outra forma, semeamos de forma consciente e continuada para colhermos algo que acrescente o nosso ser, o torne mais maduro e hábil no caminho do serviço.
Mas por que razão as diversas religiões e filosofias de pensamento aconselham a disciplina? Qual o seu valor?
A disciplina está directamente relacionada com o corpo vital, corpo do hábito e da memória, ainda que os seus efeitos não se restrinjam apenas a este corpo. Max Heindel afirmava que o desenvolvimento espiritual começa no corpo vital. Assim, a disciplina permite:

– transformar hábitos desadequados em atitudes benéficas a todo o nosso ser, potenciando, paulatinamente, a separação dos dois éteres superiores e formar de modo seguro o corpo-alma;
– reeducar o corpo vital, através do hábito, incutindo na memória pensamentos positivos e construtivos;
– aprender a semear de forma continuada e consciente para que possamos colher a curto e longo prazo os resultados do esforço;
– favorecer a concentração;
– obter melhores resultados na meditação porque dinamiza continuadamente o processo de visualização e desenvolve a nossa capacidade criativa.

Por vezes, desanimamos porque aquilo a que nos propomos é demasiado exigente ou desadequado ao nosso momento evolutivo.
Não devemos esquecer que ser disciplinado constitui um processo lento e faseado que deve ser construído depois de examinado o nosso percurso terreno bem como as nossas limitações e capacidades; é precisamente com base nestas últimas que planificamos pequenos objectivos, pois pequenos passos constróem grandes caminhadas.
Se, por um lado, é verdade que a disciplina potencia a transformação em determinadas áreas da vida, por outro, é igualmente verdade que nos salva do ardiloso e instável corpo emocional por constituir o farol seguro que nos lembra, como uma mãe sábia, o sentido maior das nossas atitudes e da nossa existência.
Tem, ainda, o poder salvífico de nos afastar das distracções nas quais somos tentados a mergulhar quando não temos coragem para olhar o nosso interior e efectuar mudanças necessárias.
A disciplina devolve-nos o tempo que o agastador quotidiano nos insiste em roubar. Mais do que isso: oferece-nos um tempo com sentido. Conduz-nos à nossa essência amorosa tecida de silêncio e de quietude. Fazer e refazer pelas mãos da disciplina o nosso ser não se esgota numa vida, mas em cada um podemos aprender a fiar e a tecer o longo manto do corpo-alma no tear contínuo do tempo.

Maria Coriel