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Assim como a águia altaneira procura habitualmente as áridas regiões ou sobe destemida às mais elevadas altitudes aéreas, só de longe em longe baixando à terra para satisfazer as necessidades impostas pela matéria, assim a alma dos simples, devota e crente, sempre que tal lhe seja possível, deve erguer-se acima das coisas terrenas e partir pelo espaço sem fim, em busca do Amparo Supremo. A vida na Terra é cheia de dificuldades e imprevistos: mas isso não impede que se atenda ao imprescindível e íntimo desejo, em nós existente.

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Como o viandante devemos, pois, proceder. Se reconhecermos em nós alguns defeitos ou sentimentos contrários ao nosso fim, rechacemo-los sem demora, tornando-nos humildes e simples, única forma de obtermos o almejado desiderato. Se bem meditarmos nas consequências de nos deixarmos subjugar pela soberba, compreenderemos quantas dificuldades existem e é preciso aniquilar para libertarmos a alma das paixões desordenadas e mortais. Homens há que se gloriam de passar por grandes, sábios ou eleitos do Destino? Pobres almas mortas em corpos vivos! A soberba aninhou-se no seu coração e aí fez morada irredutível. Mas um dia reconhecerão o seu erro, a sua ufania. E até lá olhemo-los com piedade. Já Quevedo, o poeta português, escrevia no século XVII: “Desprezar o mundo e sentir que o mundo o despreza, é ser mais soberbo do que o próprio mundo”.
N.