Mensagem de Reflexão para Novembro

  
Guarda dentro de ti esse tesouro: a Bondade.  E aprende a dar sem hesitação, a perder sem um lamento e a ganhar sem malícia.

 

 


Em Portugal, a Ordem do Templo sobreviveu intacta. D. Dinis (1261-1325) recusou perseguir os Templários. Conservou-lhes os bens e perpetuou a Ordem sob o nome de Ordem de Cristo.
Do legado da Ordem, destacamos as construções exemplares, significativas de um profundo conhecimento hermético, que remonta aos Hebreus. Entre eles, o Tabernáculo era um santuário portátil que usaram no “deserto” depois de “saírem do Egipto” (o Primeiro Templo foi construído mais tarde, por Salomão). Vale a pena frisar que as medidas e a decoração deste santuário reflectem a harmonia e o equilíbrio do mundo tal como saiu do acto em que o Criador “chamou os fundamentos da terra e dos céus e lhes ordenou que subsistissem em conjunto, fixou as suas dimensões, assentou os pilares e colocou a pedra angular” (Job 38 5-7; Is 48,13).
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A Cúpula do Rochedo

No local que parece ter sido o da esplanada do Templo de Salomão, os muçulmanos ergueram, em 691 d.C., um relicário. Deram-lhe o nome de Cúpula do Rochedo. Também é conhecido pela Mesquita de Omar. É uma obra-prima de beleza e elegância. A sua arquitectura conserva, no conjunto, a linha das construções bizantinas do século IV. Segundo alguns mestres da arquitectura, este monumento é mais uma reconstituição de edifícios anteriores do que uma obra de arquitectura árabe. De facto, as ideias e a práticas geométricas do mundo clássico tardio foram apreendidas pelos árabes depois de conquistarem cidades culturalmente importantes, como Alexandria, séculos antes.
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Quando, em 1099, Jerusalém caiu em poder dos Cruzados, este relicário foi transformado numa Igreja servida pelos cónegos de Santo Agostinho. Apesar de a planta da Cúpula do Rochedo, que é oitavada, não se ajustar às proporções retangulares do Templo de Salomão, os Cruzados e os peregrinos já a haviam associado ao Templum Domini, ou Templo do Senhor, e ao Templo de Salomão. Foi o modelo octogonal da Cúpula do Rochedo que deve ter inspirado a construção da Rotunda do Castelo de Tomar, vulgarmente conhecida por “Charola”.

A Primeira Pedra

A construção do castelo de Tomar, que foi sede da Ordem dos Templários em Portugal, teve início no dia 1 de Março de 1160. Até 1564 o dia 1 de Março assinalava o primeiro dia do ano civil. A sua construção reflecte, como tentaremos demonstrar, o conhecimento hermético dos Templários.

 

nucleo fortificado tomar


Entre os antigos, a fundação de uma cidade não decorria, como agora, do aumento gradual do número de residentes e habitações em dado local. A cidade constituía-se no momento da sua fundação, que era o da consagração do local que lhe estava destinado, previamente escolhido segundo regras precisas. Nesse instante celebrava-se um ritual religioso. Em regra, a sua localização devia ser “revelada” por uma divindade. Segundo N. V. Oliveira, o lugar da construção do Castelo de Tomar “foi eleito através da prática geomântica do lançamento de sortes, segundo se poderá depreender da Inquirição de D. Dinis”.
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A Charola

O Convento de Cristo utiliza — por iniciativa dos mestres construtores ou indicação dos seus superiores  — elementos simbólicos, pedagógicos e mnemómicos. O profano só vê nesse conjunto uma função estética ou decorativa. Mas para quem estava dentro da Ordem era, por certo, uma linguagem hermética com uma função didáctica e recordatória. A sua origem pode ter influências diversas. A dos rosacruzes parece a mais forte. Revela-se de forma muito marcante na simbólica da Charola e no traçado das muralhas.
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Geometria Simbólica

Já vimos que o traçado da Charola tem uma base octogonal. O octógono é a figura mediadora entre o quadrado e o círculo. Partilha, por isso, do simbolismo das duas figuras geométricas. Se o quadrado evoca a harmonia, o octógono simboliza a perfeita manifestação da forma e o equilíbrio universal da criação. Como lembra F. Marques Rodrigues, a Charola “assenta em oito poderosos pilares que são formados, cada um, por quatro colunas: duas servem de apoio a um arco; as outras duas, mais fortes, servem de apoio à cúpula, rematada por uma estrela de oito pontas. Portanto, estes pilares têm trinta e duas colunas. A soma destes algarismos (3+2), assinala o número de chagas de Jesus. Este número (cinco) também representa os quatro elementos de que se formam os (nossos) corpos físicos e o espírito que vive neles (formando o pentagrama). O número oito aparece por todos os pontos da Charola”.


charola


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O iniciado, porém, esse compreende que o “lugar” característico do Criador, se tem de o localizar, não é tanto “lá fora”, no espaço, mas é “em si mesmo”, como se lê no famoso passo das Confissões (10, 27) de Santo Agostinho: “Tarde Vos amei! Porque vi que estáveis dentro de mim e eu fora, e procurava-Vos fora”.
Uma breve reflexão sobre este assunto — e a arquitectura da Charola — sugere, inevitavelmente, a possibilidade de ela reflectir a homologia Céu-Terra. Estes lugares santos, que contribuem para a gradual ascensão da consciência, são fruto de experiências concretas. A uma delas se refere o famoso sonho da escada de Jacob durante a fuga para a terra de Labão (Gén 28, 12-13; 16-19). A escada, como a Charola, beneficia do riquíssimo símbolo da verticalidade. É a representação perfeita da comunicação mediante um fluxo cognitivo bidirecional entre níveis de realidades diferentes — onde se incluem as Grandes Inteligências que interpenetram e sustentam o nosso mundo.
É certo que a expressão “jornada interior” antes referida pode sugerir um “movimento” de ascensão. Mas, na realidade, é uma profunda interiorização em si mesmo. E de acordo com a concepção de que o homem é um microcosmo, ela corresponde exactamente à vida cósmica em escala menor e, por isso, quanto mais distante no espaço mais interior na consciência humana. O foco da consciência é que se desloca, por “sintonia”, para outros planos, como já se disse noutra ocasião.
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O Tecto em Abóbada

Cabe agora referir o duplo simbolismo que se afigura evidente na abóbada da Charola, com o “fundo azul e estrelas douradas” segundo determinação de D. Manuel I (1469-1521).
Por um lado, seguindo a Tradição, ainda assegurada pelos rosacrucianos, o simbolismo da cor azul remete para uma hierofania do Criador. O que se pretende assinalar, em primeiro lugar, é a acção do Ser Supremo, que os primitivos indo-europeus denominam Pai (em latim Pater e noutras invocações Zeus Pater, etc.), que se hierofaniza no esplendor do céu natural visível. Em segundo lugar, o tecto abobadado assinala o céu físico (em grego ouranós, em latim coelum), mostrando que o “Céu”onde está o Criador é um plano distinto da abóbada celeste. A Charola é, assim, o exemplo actual da “montanha” — ou lugar iniciático.
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Conclusão

Se reconhecemos a possibilidade de o engenho artístico ter estruturado racionalmente e com funcionalidade as construções, o carácter prático da localização do Castelo dos Templários e do Convento de Cristo, etc., facilmente reconhecemos também a possibilidade de os seus autores relacionarem, com a sinestesia, uma linguagem alegórica que facilmente remete as coisas sensíveis e materiais para realidades espirituais. Mas com a diacronia do tempo, as novas sensibilidades e novos gostos mundanizados, perdeu-se o sentido e o significado da simbólica que se tornou tão obscura como o enigma da esfinge de Tebas.

 

(Resumo do texto publicado)

 


Ariel
In  Revista Rosaruz, nº 409


Bibliografia

França, José-Augusto, Tomar;  Presença, 1994.
Carreiras, José Albuquerque; I Colóquio Internacional – Cister, os Templários e a Ordem do Templo (Da Ordem do Templo à Ordem de Cristo: Os Anos da Transição), Actas; 2012.
A Extinção da Ordem do Templo; 2012.
Leite, Sílvia; A Arte do Manuelino como Percurso Simbólico; Caleidoscópio, 2005.
Guinguand, Maurice; O Ouro dos TempláriosGisors ou Tomar?; Bertrand, 1975.
Oliveira, Nuno Villamariz; Castelos Templários em Portugal (1120-1314); Ésquilo, 2010.
Panofky, Erwin; Arquitectura Gótica y Pensamiento Escolástico; La Piqueta, 1986.

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