Ao historiador caberá apurar-lhe o “grau de revelação” e identificar o fundo de verdade que perpetua. Não admira, pois, que o historiador se interesse igualmente pela tradição e nela procure vestígios, ou testemunhos, dos factos e dos eventos históricos.

Vem isto a propósito de o texto do primeiro manifesto da Fraternidade, conhecido pela denominação abreviada de Fama, ser usado como fundamento para outra cronologia sem se ter em conta que foi escrito no estilo de quem pretendia velar e encobrir a sua pesquisa de verdades transcendentes. É o que iremos ver mais adiante.

(...)

Christian Rosencreutz, o derradeiro descendente da família Germelshausen, refugiou-se então num convento das proximidades, onde seria educado. Abandoná-lo-ia aos 16 anos para viajar pela Ásia, Arábia, Egipto e Marrocos. Nestas viagens haveria de aprender uma “ciência universal”, que os europeus negligenciavam. Foi então que concebeu um plano de reforma universal: político, religioso, científico e artístico, como se evidencia no preâmbulo do primeiro — e acima referido — manifesto rosacruciano, intitulado Fama Fraternitatis da Louvável Fraternidade Rosacruz. Este documento, dedicado a “todos os soberanos eruditos da Europa”, propõe a “reforma geral e universal de todo o mundo”2.

(...)

Os conhecimentos rosacrucianos reúnem por isso a essência do saber dos místicos cristãos, mas também dos Persas e dos Gregos, e foram recolhidos através do Egipto depois da sua conquista pelos primeiros, em 525 a.C., e pelos segundos durante o reinado de Carlos Magno, de 330 a 331 a.C.4

A literatura rosacruciana, que transmite uma parte destes conhecimentos, tem, como já dissemos, uma linguagem apropriada. Sem a conhecer bem, pouco se poderá apreender. O estudo de alguns autores ligados à Fraternidade Rosacruz ajuda a entender o estilo desta linguagem. Dante (1265-1321) constitui um exemplo; Camões (aprox. 1524-1580), outro; William Blake (1757-1827), outro ainda. O primeiro adverte: “Ó vós que tendes ensinamentos sãos,/ notai o ensinamento que se oculta / sob o véu de versos alegóricos5. O segundo lembra: “sabei que, segundo o amor tiverdes, tereis o entendimento de meus versos”6.

Esta maneira de escrever exige que se possa “ler mais do que se vê escrito”, como adverte Camões, e não resulta apenas da necessidade de discrição ou segredo: é também fruto da modéstia dos seus autores. Entre os rosacrucianos, a modéstia e a discrição são inexcedíveis. Michael Maier (1568-1622) afirma, em 1618, que eles “são muito laboriosos, frugais, modestos, discretos, disciplinados e, sobretudo, leais”. É também o que se nos revela nos “manifestos”, sobretudo no Fama Fraternitatis, que, como vimos, é o primeiro (1614). Sem negarem o ponto de vista filosófico, social e religioso que defendem, como reacção contra o materialismo invasor da sociedade da época, mostram como os seus membros separavam todos esses factores da autêntica iniciação espiritual. E sendo apenas acessível a quem se lhe consagra com espírito de serviço, ela é, por isso mesmo, inseparável daquele grau de modéstia e simplicidade que dá origem a um colégio filosófico conhecido por “Colégio Invisível”. Os seus membros são desconhecidos da sociedade mundana — mas todos eles possuem notoriedade pública7. Com efeito, mostram-se totalmente indiferentes ao protagonismo e proselitismo incrítico normalmente submisso a outros valores e interesses e com raízes na vanitas do Eclesiastes.

(...)

Afigura-se que a direcção da Província de Inglaterra tenha sido partilhada por Francis Bacon e Robert Fludd. Fora esta a solução encontrada por Bacon com vista a poder dispor de mais tempo para se dedicar aos assuntos de ordem científica, muito da sua predilecção. Robert Fludd assumiu a responsabilidade pelas questões de natureza mística.

Sendo, como vimos, a alegoria o modo habitual de comunicar com segurança e discrição, não admira que o ano de 1604, considerado o da abertura do túmulo do Pai Christian Rosencreutz, assinale, na realidade, o início de um período astrologicamente relevante para o desenvolvimento da Fraternidade9. De facto, nos anos seguintes fizeram-se sucessivas e riquíssimas intervenções públicas para impulsionar o projecto de “reforma geral e universal de todo o mundo”.

A linguagem simbólica parece estar em desacordo com a cronologia que nela se baseia — e que assinala a fundação da Fraternidade Rosacruz no século XV, em 1413.

Se a denominação “rosacruz” surge publicamente em data muito anterior, no recuado ano de 1374, como diz René Guénon10, a simbologia rosacruciana é ainda mais antiga, como já vimos noutra ocasião11. Por isso, a tradição esotérica que se revela em Dante associa, claramente, a fundação da Fraternidade Rosacruz à queda da Ordem do Templo, em 1312.

(...)

Aqui chegados, verificamos como têm razão Dante e Camões ao lembrarem que o tom metafórico e pitagórico dos antigos documentos rosacrucianos não revela aquilo que parece. Efectivamente, a tarefa do estudioso deverá orientar-se para descortinar nas suas palavras os sinais do conhecimento que transmitem e intuem o que nelas não é dito. E quando se perceber tudo isso teremos um vislumbre da essência da “tradição esotérica ocidental”. Além de conter ensinamentos que formam um sistema completo de cosmologia e teologia, esta tradição explica a natureza de Deus, a origem do mundo, o carácter e o destino do homem. E fornece ainda a chave para interpretar as Escrituras e compreender o sentido interior dos textos sagrados. Finalmente, reúne um conjunto de técnicas místicas pelas quais o estudante aprende a comungar com realidades superiores.

Só através da reunião destes conhecimentos tão enriquecedores, tanto individual como colectivamente, poderiam os verdadeiros rosacruzes assegurar, como observa René Guénon, a comunicação entre o Ocidente e o Oriente após a queda dos Templários e continuar a “intervir seriamente no mundo Ocidental depois do século XIX”12.

Ariel