Mensagem de Reflexão para Setembro

  

Nada é mais difícil do que conhecer-se a si próprio.

 

 

A língua hebraica confirma esta unidade mas distingue na pessoa três aspectos ou dimensões diferentes. O Antigo Testamento fala-nos destes aspectos por símbolos e analogias. É sempre com base em elementos físicos que nos refere as realidades invisíveis. O homem interior ou espiritual revela-se na imagem do corpo que é, por assim dizer, o reflexo do espírito. Cada órgão representa um aspecto da acção humana e simboliza uma capacidade: os rins significam a fecundidade e a força; o fígado, a coragem; o braço, a acção, etc. Quando a Bíblia se refere a um órgão, faz alusão à sua função em ligação com a integridade do ser: não se trata apenas de um “pedaço” do corpo. É o que se vê em Is 52,7. O versículo “Quão suaves são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas”, significa “quão suave é, sobre os montes, aquele que anuncia as boas novas”.

Na tradição hebraica posterior esta visão do homem interno ou espírito, representado pelo corpo, atinge o seu apogeu naquilo a que chamamos “árvore dos sefirot”1. Esta “árvore” representa o caminho involutivo, da criação, e também o processo de evolução do ser humano de regresso ao Criador. Tem vários degraus. Correspondem a outros tantos estados de consciência com distintos níveis de discernimento. Como todos esses planos estão unidos entre si, a Árvore da Vida cabalista representa também a unidade elementar da Criação, na qual a menor partícula indivisível contém os elementos do todo.

Voltemos à Bíblia. Na complexidade humana distingue três dimensões: basar (carne), nefesh (alma) e leb (coração). Mas estas dimensões não podem ser vistas como partes de um composto. São dimensões de uma totalidade vital complexa. Vamos ver.

Carne-basar

A palavra basar aparece traduzida em português por “carne”. Mas tem um sentido muito mais vasto. Relaciona-se com a designação antropológica de “homem” como parte de um todo orgânico. Basar também designa o homem exterior (Gén 2,21), mas sempre em ligação com os outros (Gén 2,23 ss). É o homem enquanto membro de uma família ou mesmo da humanidade inteira (Gén 29,14).

Alma-nefesh

A palavra nefesh, no seu sentido mais primitivo, significa “vias respiratórias”, as vias que se abrem ou fecham para acolher ou exalar o sopro de vida2. É por este canal que o homem recebe do exterior aquilo que lhe permite viver fisicamente. É também aqui se manifestam muitos estados de espírito devido a uma enorme sensibilidade nervosa. A garganta reflecte emoções e reacções afectivas: o homem suspira, inspira profundamente, solta um grito de alegria ou de medo, tem um “nó” na garganta, etc.

A palavra nefesh é um termo fundamental na antropologia do Antigo Testamento. Relaciona-se com o mundo das sensações. O seu conceito foi evoluindo, mas sempre relacionado com outro conceito: ruah.

A palavra ruah, que traduzimos por “espírito”, designa uma espécie de “vento”, de respiração, de fôlego. É o sopro vital que suscita a vida: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade (…) antes que se quebre a cadeia de prata (…) e o pó volte à terra (...), e o espírito (ruach) volte a Deus que o deu” (Ecl 12, 1.6-7).

Este “sopro” dá vida ao corpo (basar) e permite a actividade organizada, simultânea e coordenada do corpo físico. Ruach actua no interior do homem e introdu-lo, por assim dizer, na dinâmica relacional fraterna. O “sopro”, ruach, não é algo criado por Deus e colocado no interior do homem. É o próprio Deus que o anima interiormente, conferindo-lhe uma vitalidade relacional semelhante a Si próprio: “Quem nasce do Espírito, é espírito” (Jo 3,6).Esta interioridade relacional é inteligente (Job 32,8). E possui uma vitalidade que o distingue de todos os animais (Job 33,4).

Animado pelo Sopro divino, ruach, o homem-nefesh é capaz de diálogo e de comunhão, de partilha e de serviço.

Coração-leb

Outro conceito na Bíblia hebraica nos interessa analisar: leb. Traduz-se em português por “coração”. É, talvez, o termo mais complexo da Bíblia quando fala do homem. Note-se que o termo basar se aplica igualmente aos animais, ao contrário de nefesh e leb que se aplicam apenas às pessoas. O termo leb assinala uma característica própria do ser humano: o homem como ser capaz de optar (1 Sam 16,7), de eleger o outro como próximo (2 Sam 15,3; Esd 6,22). O homem-leb é capaz de decisões morais. Orienta-se no sentido do bem ou do mal a partir da sua interioridade. Implica comunicação. O homem-nefesh é um veículo para o impulso divino, mas o homem-leb é o ser humano na sua autonomia moral.

É no coração que o homem recebe a “palavra” de Deus (Mt 13,3 ss; Mc 4,3 ss). A verdadeira pureza não é a das abluções, mas a do coração (Mt 15, 1 ss; Mc 7,1 ss).

O ensinamento do Conceito sobre o coração é muito significativo3. De facto, ele é a fonte da sabedoria humana (Sal 44,21). Dizer que o coração é bom ou mau é dizer homem bom ou mau (Jz 18,20; Dt 28,47). Ora, o homem tem bom ou mau coração por opção e decisão, não por natureza. Não há homens bons e homens maus por natureza. O homem faz-se bom ou mau pelas atitudes e opções que faz no seu coração.

O estudo do “lugar do coração” revela que a natureza humana, na sua dupla qualidade de microcosmo - ou resumo da criação - e imagem de Deus - ou reflexo do Criador - é constituída de maneira a ter, na estrutura corporal, um ponto de apoio para tomar consciência de outros planos de existência e, ao mesmo tempo, o suporte físico da deificação humana.

A analogia entre o “sopro” divino (pneuma, espírito humano) e o Espírito é mais do que uma metáfora. É uma correspondência real, anagógica, fazendo do primeiro (o sopro), o vínculo essencial do segundo (o Espírito). A mesma correspondência “vertical” liga o coração, centro físico e “sol” do corpo, ao intelecto (nous), centro espiritual e luz do espírito e, por isso mesmo, centro metafísico e coração do universo.

Entre as modalidades tanto corporais como espirituais da consciência e o princípio transcendente de ambas existe, portanto, uma relação de analogia, uma conexão constitutiva. A iniciação visa fazer passar da potência ao acto essa conexão, ou continuidade interior, partindo sobretudo das funções vitais essenciais, da respiração e do coração. A sua interdependência é bem conhecida dos antigos.

Compreender-se-á agora que “pensar com o coração” 4 é um acto de reflexão atenta, quer pela sensibilidade quer pela inteligência. Implica o acesso à memória mais antiga e profunda, denominada “supra-consciente”5, 6: Aquele que ouve a “Palavra” deve guardá-la no seu coração” (Mt 13, 18-23; Mc 4, 14-20). Esta “palavra” é o abre--te sésamo dos mundos internos. Permite, num estádio inicial, “viajar no estrangeiro”, isto é, entrar conscientemente nos mundos invisíveis7. Dá a seguir a possibilidade de participar conscientemente do poder criador da “palavra” no sentido do texto “o céu e a terra passarão, mas as minhas palavras (lógoi) não hão-de passar” (Mt 24, 35; Mc 13,31). Aqui, a “palavra” é precisamente aquilo que, no universo, não passa, ou seja, os “lógoi” - “essências imutáveis”, ou “verbos criadores” - das coisas, o mundo enquanto aspecto do “logos” divino, o universo enquanto pronunciado por Deus através do próprio verbo criador8. Considerando esta possibilidade, entende-se que, assim feito “à imagem e semelhança de Deus”, o homem pode alterar os planos espirituais, pode manter, pode recriar ou até destruir o próprio universo.

A fim de precisar melhor estas três ideias fundamentais, diremos, em resumo, que homem-basar se relaciona com corpo físico. Permite manter uma actividade de relação com os outros seres humanos. Desenvolve a alma consciente.

O homem-nefesh (ruah) já está animado por uma vitalidade relacional que o distingue de todos os animais (Job 33,4). É capaz de comunicação e exercer a sua vontade. Não se trata daqui de uma comunicação passiva, baseada nas sensações, mas na comunicação activa, baseada na linguagem e nos sentimentos, emoções e desejos. Por estar ligado ao corpo de desejos, desenvolve a alma emocional.

Finalmente, vimos que o homem-leb é capaz de usar a memória, análise e discernimento, escolher e tomar decisões morais. Desenvolve a alma intelectual9.

Estas funções da razão humana: memória, reflexão, análise e discernimento, estabelecem um laço entre a inteligência e a vontade. O homem pesa no seu coração os diferentes elementos das suas opções.

O que precede sugere que os três matizes da alma a que damos nomes diferentes, consciente, emocional e intelectual, atingem a maturação em diferentes fases da vida humana. A alma consciente começa a desenvolver-se no momento do nascimento; a alma emocional amadurece a partir da puberdade e a alma intelectual desperta mais tarde, próximo da maioridade.

Da Emergência à Plenitude

É a acção modeladora do espírito no corpo que vai formando a alma. É o espírito que nos vai transformando interiormente, ainda que o corpo se vá destruindo (2 Cor 4, 16). A interioridade humana tem uma estrutura relacional. E é na relação fraterna que atinge a plenitude. Tal significa que, quanto mais se cresce em interioridade pessoal-espiritual, maior e mais consciente é a interacção directa com a interioridade divina do Logos. A alma desenvolve-se à medida que a pessoa se realiza, agindo, optando, decidindo, fazendo. Torna-se o selo do espírito evolucionado9. Não é uma marca estática, mas um princípio dinâmico. A alma é então chamada a tornar-se o ninho onde amadurecem as potencialidades do espírito que permitem receber a inspiração divina - e decidir encarná-la, ou recusá-la.

A alma tem diferentes aspectos. Isto não significa que haja nela uma divisão, mas antes uma diferença de nível, como três matizes da mesma luz. Na pessoa espiritualizada todos eles se completam de maneira harmoniosa10.

Quando a alma atinge determinado estádio de desenvolvimento designa-se neshamah11. Este nível permite o mais elevado grau de discernimento, tanto espiritual como intelectual. É este o nível da alma que permite subir, de modo consciente, os degraus cada vez mais elevados da consciência e entrar em sintonia com o Absoluto.

Para que o processo iniciático decorra com segurança, sem riscos, deve desenvolver-se o auto domínio e assumir as suas responsabilidades diárias no mundo físico. Os mundos superiores não podem ser procurados como um refúgio do mundo físico. Assim, cumprindo as suas obrigações, o iniciando não corre o perigo de dessolidarizar a vida espiritual da vida activa. E assume gradualmente o domínio dos pensamentos espontâneos. É um erro pensar-se que tais pensamentos não ultrapassam os limites da mente. Na realidade, um mau pensamento produz efeitos de grandes proporções, principalmente se flor insistente e partilhado por várias pessoas. O rosacruciano, cuja tarefa é a de promover a unificação dos planos de existência, desenvolve o “pensamento dirigido”.

Assim promove a mais elevada união: as bodas místicas.

F. C

Notas

1. A palavra “sefirot” é mencionada pela primeira vez no “Sefer Ietzirá” (Livro da Criação), para designar os 10 números primordiais que, adicionados às 22 letras do alfabeto hebraico, formam os 32 caminhos da sabedoria. No Zoar, cada “sefirot” assume a designação de um atributo divino extraído do texto bíblico. As 10 “sefirot” estão representadas no diagrama denominado “Árvore da Vida”.

2. Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 4ª ed, Cap. XIV – Análise Esotérica da Bíblia; Javé e a sua Missão, pp 262,271

3. Id., ob. cit., Introdução, p. 17-18; Cap. XV – Cristo e a sua Missão, p 309 e ss, Cf. Ensinamentos de um Iniciado, Cap. XXII – A Condenação e Salvação Eternas, p. 155.

4. Id., Conceito Rosacruz do Cosmo, “O Coração é uma Anomalia”; 4ª ed., p, 313.

5. Id., ob. cit., “Actividade da Vida: Memória e Crescimento Anímico”; p. 77.

6 Disse Platão (Fédon 75 e): aprender é recordar. Ora: 1. se aprender é recordar, então, o que recordamos aprendêmo-lo antes de nascer; 2. por isso, o espírito existia antes de encarnar.

7. Max Heindel, Maçonaria e Catolicismo, Cap. II, p. 20. Como os diversos mundos celestes são representados verticalmente no espaço (Cf. Conceito, Diagrama 2, p. 44), o que sugere uma ascensão, a linguagem vulgar refere-se a esta capacidade como uma “viagem”. É um erro. Não há movimento no espaço. Os diversos mundos ou planos de consciência interpenetram-se. O que se “desloca” é o foco da consciência. Na realidade, há uma interiorização profunda em si mesmo. De acordo com a concep-ção de que o homem é um microcosmo, ele corresponde exactamente à vida cósmica, em escala menor. Quanto mais distante no espaço, mais próximo do homem; quanto mais exterior no universo, tanto mais interior na consciência humana. É por isso que, nos textos bíblicos, o coração designa, quase sempre, toda a vida interior.

8. Id. Mistérios Rosacruzes, Cap. II - “Região do Pensamento Abstracto”,p. 79-80.

9. Id., Ensinamentos de um Iniciado, Cap. II – “O Sinal do Mestre”; F.R.P., Lxª 2001, pp.17-23.

10. Aristóteles também reconhece três aspectos da alma: a vegetativa e a sensitiva, que são comuns ao animal e ao homem, e a espiritual, exclusiva do homem. Para ele, a alma espiritual é eterna, preexistente, impassível. Platão é muito mais dinâmico: admite o aperfeiçoamento progressivo da alma. Entretanto, para fugir ao perigo de emprestar à alma um elemento subtilmente corporal, os doutores cristãos aproximaram tanto a alma do espírito que chegaram a confundi-los. Daqui provém o famoso dualismo cartesiano de alma e corpo e a confusão entre o psíquico e o espiritual.

11. Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, Cap. XIV, “Análise Esotérica do Génesis”, p. 275.

Obs. As citações bíblicas são da Bíblia Sagrada, tradução de João Ferreira de Almeida; Sociedades Bíblicas Unidas, Lisboa, 1968.

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