Mensagem de Reflexão para Setembro

  

Nada é mais difícil do que conhecer-se a si próprio.

 

 

A surpreendente riqueza das sagas, dos ciclos de folclore, das epopeias dos trovadores, das lendas populares e das narrativas veladas que se prendem ao Mistério do Santo Graal, é um fenómeno quase sem comparação na literatura mundial. O único exemplo além deste é o Bhagavad Gita, um diálogo entre Krishna e Arjuna, o qual não é mais do que um episódio no Mahabharata, mas de que a literatura exegética é uma torrente sem fim. A razão desta extraordinária inspiração é a mesma para os dois casos: engastam numa forma literária de beleza suprema as mais belas aspirações espirituais que podem sobrevir ao coração do homem.

(…)

O Santo Graal é um Alto Mistério e nenhuma das versões antigas nos dá uma exegese do seu carácter, duma maneira tão categórica como a que acabamos de dar no parágrafo precedente. A nossa exegese é inevitavelmente precisa e afirmativa para ser inteiramente justa para um mistério tão sublime. Tentamos, apesar disso, dar somente uma forma compreensível ao que tem uma estrutura espiritual mas que, por isso mesmo, não é menos viva e real. O que é essencial saber é que o Rito do Santo Graal nunca deixou de ser celebrado; que a hierarquia dos celebrantes sempre foi fiel ao Mistério ao qual foi consagrada; que os Cavaleiros do Santo Graal permanecem leais aos deveres através dos tempos e que a Comunhão do Santo Vaso está aberta a quem se puder elevar ao estado de graça digno da sua recepção. Esta Comunhão é Cósmica e Cristã ao mesmo tempo.

Esta leve descrição será perfeitamente clara para todas as pessoas ao corrente da técnica de acesso aos planos espirituais. Mas não é de supor que todos os nossos leitores adquiriram o conhecimento desta via de desenvolvimento. Se bem que, por um lado, seja prudente não desvendar forças que seriam perigosas em mãos inexperientes, nunca se deve, por outro, obscurecer a verdade. Tentemos, portanto, esclarecer por meio de alguns exemplos o Mistério do Santo Graal nos os planos superiores.

Tomemos o primeiro exemplo. O trabalho habitual, cumprido diariamente para o sustento pessoal, é parte integral da vida normal. É louvável, mesmo que o seu fim único seja ganhar o dinheiro necessário para viver. Esse trabalho é, porém, enobrecido se a finalidade for a de alimentar a família. O trabalho feito com brio, com intenção de alcançar a perfeição, coloca-se já num plano superior. O trabalho realizado para benefício directo duma outra pessoa é ainda mais enriquecedor. Mas, se o trabalho for realizado à custa do sacrifício pessoal, não tendo outro fim se não o benefício de futuras gerações, que nada conhecerão - nem mesmo o nome - do trabalhador, então, esse trabalho alcança o máximo da sua nobreza e de participação na obra de Deus. Do mesmo modo, o amor pode exprimir-se por meio da vida conjugal ou de forma romanesca, patriótica ou mística.

Se este exemplo nos mostra como o amor se pode exprimir em planos diferentes, o anterior revela que o cumprimento das nossas obrigações profissionais não afasta o sentido de serviço. O mesmo acontece com a celebração do Rito do Santo Graal. Este rito é uma comunhão que se realiza no plano espiritual.

(…)

Se bem que a visão do Santo Graal - percebida por Parsifal, Gavain, Lancelote ou Galaaz - seja sempre descrita reverentemente e com a falta de definição que compete a um Mistério Iniciático, podemos discernir quatro grandes linhas de simbolismo:

1.º - Que o Cálice do Santo Graal era a Taça de Esmeralda na que Nosso Senhor consagra o vinho na Santa Ceia;

2.º – Que era um vaso sagrado no qual José de Arimateia conservou as gotas de sangue que correram das feridas do Cristo quando da descida da Cruz;

3.º – Que era a Taça da Abundância, tanto material como espiritual;

4.º – Que simboliza a Virgem-Mãe e o Nascimento Eterno, emblema da transmutação eterna, da vida à morte e da morte à vida.

É perfeitamente evidente que Chrétien de Troyes e Robert de Boron, se bem que tivessem penetrado mais profundamente nas belezas espirituais do Santo Graal do que qualquer outro trovador ou narrador da Idade Média, não eram Iniciados. Eles não eram mesmo neófitos e é muito duvidoso que tivessem mais que uma vaga concepção da significação esotérica das suas canções e das suas odes. Mas eram poetas, enamorados da beleza, discípulos da cavalaria, cantores de vidas heróicas e a inspiração do mistério sublime do seu assunto, meio adivinhado, preenchia toda a sua alma.

Nenhuma língua humana poderia esperar descrever a emoção pungente da Santa Ceia; uma voz terrestre nunca poderia revelar a suprema angústia da crucificação; nenhum coração poderia compreender em toda a sua grandeza a Taça da Abundância que enche de vida e de alegria todos os mundos do cosmo; os nossos pensamentos mais elevados e mais audaciosos não chegam a compreender a Divina Maternidade que é a Morte, e a Divina Morte que é a Maternidade. Maravilhemo-nos de que os trovadores tenham podido atingir bastante destas verdades sublimes para que possamos entrever nas suas obras, e melhor compreender, os Mistérios que eles tocavam reverentemente com toda a devoção e sinceridade.

Seguindo os seus passos, levantámos uma ponta do véu que oculta o Cálice do Santo Graal. Isso bastará para aqueles que devem ver.

Francisco R.-Wheeler

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