Não sei se Fernando Pessoa exercerá dentro de duas ou três décadas a mesma atracção, o mesmo genuíno encanto que ainda irradia, ao que verifico, sobre muitos jovens de hoje. É probabilíssimo que o seu encanto passe, como passou o entusiasmo de Junqueiro. De resto, na sua qualidade de momento de consciência que foi (e, em certa medida, ainda é, por de algum modo se repetir, nos admiradores), a poesia de Pessoa tem já hoje quem a ame por motivos irreconciliavelmente antagónicos; tem até quem a critique e minimize com uma paixão que constitui ainda um seu efeito notável.

A poesia de Ferrando Pessoa é essencialmente irónica, no velho sentido socrático da palavra «ironia», a arte de pôr tudo em questão. Nele se descose e se problematiza muito do que fora tido até certa altura o fundamental em poesia. A principiar pela própria sinceridade poética. A sinceridade era antes de Pessoa o argumento irrespondível de um lirismo já falhado sem dar por isso.

O que Pessoa desvenda, e a meu ver tanto por análise abstracta como pela comunicação poética da sua psicologia dilacerada, é isto: fingir e ser sincero são os dois pólos necessários da arte.

Só quem nunca percebeu o significado da sua poesia, por falta dessas duas faculdades também no fundo indissociáveis que são a inteligência e a sensibilidade, é que pode pôr o falso problema de saber se o desdobramento poético através de pseudónimos, intencionalmente diversificados quanto a temas e estilos, foi sincero ou fictício. Evidentemente que foi ambas as coisas. Evidentemente que nenhum «heterónimo» corresponde a uma autêntica personalidade.

Evidentemente que eles correspondem a contradições existentes dentro de uma personalidade única, vivendo numa certa geração de uma classe social determinada - contradições muito mais, numerosas que os cinco nomes pelos quais se reparte a obra toda, e portanto contradições sobrepostas umas às outras por tal forma que, se nuns aspectos Campos é o anti-Caeiro e o anti-Reis, noutros só Reis se opõe a Campos, ou então ambos os últimos coincidem em ser anti-Caeiro; além de que nenhum deles é sempre coerente consigo próprio.

Pessoa viveu, pois, um complicado drama simultaneamente poético e doutrinário (Nem há poesia sem doutrina). Eu sei que Mário Sacramento, entre outros, nega a autenticidade desse drama, atendendo a que Pessoa não teria mostrado decidido empenho em resolver os seus conflitos internos.

E concedo que o poeta não era o génio que por vezes afectou ser (e ainda é para os que apenas o ruminam), na medida em que não levou as suas contradições personificadas ao ponto de as explicitar e superar. Isso era improbalíssimo (tão improvável como o génio) na atmosfera que respirou.

Mas mantenho - mantenho mais do que por ginástica de ideias, mantenho com pleno assentimento do que ainda experimento ao ler Pessoa - que a ironia, o dramatismo do poeta são vigentes e actuais em certos importantes sentidos (1).

Pessoa caracteriza em dado texto a consciência de se ser, ou não, sincero, falando-nos do amargo sentimento que a sinceridade nos dá de ser uma «prática anti-social». Isto é mesmo um dos aspectos da sua aguda problematização da sinceridade.

E isto quer dizer que toda a obra de Pessoa responde, muito conscientemente, aos estímulos de uma certa situação com data, de uma certa sensibilidade e ideologia prevalecentes. É, insisto, um momento de consciência. Nesse momento constela-se uma rede de oposições, como linhas de bilros sobre os quatro ou mais alfinetes que são as assinaturas por ele usadas.


Alberto Caeiro sente que “o único sentido oculto das coisas / É elas não terem sentido oculto nenhum”, reage ao transcendentalismo reinante, reage contra o farisaísmo da compaixão e da sentimentalidade do seu meio, entrega-se a um epicurismo sensorialista e agnóstico.

Mas o fio passa e repassa daí, por exemplo, para os poemas interseccionistas da “Chuva Oblíqua”- e o simplismo de só se reconhecer a realidade nas sensações imediatas, ou antes, nas percepções sensoriais, é negado: a uma visão estática e
percepcional da realidade, recortada em coisas do senso comum, unas,, únicas e isoladas, opõe-se a vivência do dinamismo subconsciente, com as suas correspondências incontroláveis, tais que, por exemplo, “as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvida dentro”

Quando o fio passa entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, há, de um lado, o sentimento de que, num mundo dominado pelos Fados ou pelo capricho de forças desconhecidas (opostos que se equivalem), toda a sabedoria consiste só na estimativa e opção. astuta entre dores e prazeres prováveis: só dentro da curta medida em que um homem é consciente e se autodetemina pelas poucas razões que conhece, é ele verdadeiramente quem é.

Mas a esta sabedoria horaciana de Reis (e das «Inscriptions», etc.), responde Campos com a sabedoria igualmente verdadeira (e falsa, porque parcial) que prega "a sem razão”, a energia bruta, o entusiasmo, a vida jogada em aposta.

A assinatura Fernando Pessoa subscreve, ao contrário do normalmente extrovertido A. Campos, a meditação introvertida, fazendo um «novelo embrulhado para o lado de dentro» em que o eu se perde na contradição de, ao mesmo tempo, querer “a alegre inconsciência / E a consciência disso”.

Mas tanto num como noutro encontramos um ritmo comum: o ritmo pendular ditado pela ironia de crer-e-não-crer num mistério oculto da vida. Por outro lado, na «Mensagem» o sebastianismo desfaz-se a si próprio, é um mito consciente, um «nada que é tudo,

Será preciso continuar a demonstração de que em Pessoa mal chega a haver metafísica, porque tudo se ironiza, tudo se dinamiza tanto quanto isso é possível num espírito céptico em matéria de progresso social Suponho que não.

Dobar o resto da sua dialéctica de ideias e sentimentos é um exercício que recomendo aos licenciandos de Letras, quando as dissertações ultrapassarem a fase de decompor um autor à base de fichas classificatórias para temas e tropos.

Um momento de consciência não contém as respostas adequadas para o momento que se lhe segue, a não ser em estado latente. Fernando Pessoa, por isso,
Tanto pode responder pelas parvalheiras que certa oratória veio depois explicitar ao “tudo vale a pena / Se a almas não é pequena”, como por um certo estilo de articulismo e ensaísmo especiosamente delirante, como pela crítica que com ele próprio aprendeu a superá-lo naquilo em que isso se vai tornando realmente possível.

Cá por mim vejo em Pessoa o que talvez cause ainda surpresa: vejo um grande poeta cuja sensibilidade pensava, não por ele ser grande pensador, mas porque se podem sentir certas coisas complexas sem as pensar.

Grande poeta e doutrinário falhado, como Antero na última fase, pois o pensamento dos abúlicos paralisa-se no ponto decisivo em que já exigiria o ser-se verdadeiramente activo.

Fernando Pessoa fica-se a devanear no cais a que o prende a sua condição pequeno burguês agnóstico, procurando confinar uma sua espécie de coragem num certo mundo de ideias em que se não sentisse o “medo ancestral”, o «enjoo» da partida para um mundo real e melhor.

Repare-se como a palavra partir é neste caso expressiva. Partir, abalar, deixar o cais exige um como que estilhaçamento, um rasgão.

Pessoa, tal como a vida o fez, nunca poderia romper com o seu mundo. Ora o mundo da sua vida, ele se refaz poeticamente numa tessitura de contradições idealistas, carecia de compenetrada razão de ser.

Mal e chegava a ser mundo: a sua consciência tendia a tornar-se simples autoconsciência, dirigindo-se a si própria em contradições insuperadas, como se digere um estômago ulcerado quando não recebe o bolo alimentar.

A consciência sã supõe a matéria de que é ... consciência. A consciência tem sempre de ser consciência de.

De um corpo, de uma vida vivida a viver, de uma história humana, de uma evolução material em que tal história se insere, de um programa exequível de vida individual, familiar, social, nacional, humana.

Mas o momento de consciência de Pessoa ignora qualquer razão de ser. Quer-se assim mesmo.

Não ter razão é ter todas as razões imagináveis. Do que resultar acordar-se, intermitentemente, para a estranheza de existir, para “a importância misteriosa do existir”, A terrível gravidade da existência cai forçosamente, às vezes, sobre aqueles para quem viver não é de ordinário nem no fundo uma coisa séria e grave.

Como só o diálogo do espírito com uma acção material a sério dá fio de continuidade à vida humana, como certos espíritos de certas épocas e meios perdem o contacto do humano concreto – fica-lhes, a simples dialéctica de viver o antegosto da morte, de ver, ora em si ora no semelhante (cuja morte nem sequer é a nossa) um simples cadáver adiado que procria.

E no desespero de nem mesmo tal sentimento trágico da vida (ou da morte) poder ser absolutamente sincero, pois que a sinceridade também se nega, a não ser que se prolongue por uma acção comunicativa e social - a vida toma-se a «muralha de tédio com cacos de raiva em cima.

Ou até o arremedo disso, quando se não poder ser o poeta que Pessoa foi, por uma só vez, num momento de consciência que tem de cessar para, de algum modo, ainda continuar real e vivo.

(1) — Este período reage à ênfase que, por altura da sua redacção, alguns ensaístas punham no carácter “classista” de Pessoa, nomeadamente Mário Dionísio, Vergílio Ferreira e Mário Sacramento. Tratava-se, aliás, de uma reacção até certo ponto necessária à idolatria do decénio anterior, que foi o da efectiva publicação e consagração do poeta.


Publicado na “Secção Cultura e Arte”, O Comércio do Porto, 11 de Agosto de 1953. Cf. “Ler e Depois”, Crítica e Interpretação Literária, Ed. Inova, Porto, 1969.