Mensagem de reflex茫o para Julho

O car谩cter d谩 esplendor 脿 juventude e rever锚ncia aos cabelos brancos.

Tannhauser

No drama que estudamos vamos continuar a interpretar uma das mais antigas lendas que foram dadas aos homens pelas hierarquias divinas. Por meio dessas hist贸rias conseguiram guiar-nos ao longo dos caminhos do progresso.

S贸 por este modo a humanidade conseguiu absorver, subconscientemente, os ideais pelos quais, em vidas futuras, iria lutar.

Nos tempos antigos, o amor assumia formas brutais. A esposa era raptada pelo homem. Apropriava-se dela como despojo de guerra.

S贸 a pretendia pela posse do corpo feminino, transformando-a numa escrava: o seu senhor apenas a apreciava na medida em que lhe proporcionasse prazer. Nenhuma oportunidade lhe era concedida para que pudesse dar livre express茫o 脿s mais elevada qualidades da sua natureza.

Caso estas condi莽玫es n茫o fossem modificadas, impedir-se-ia o progresso da esp茅cie humana. 鈥淐asa de pais, escola de filhos鈥: as uni玫es selvagens geram seres selvagens.

Para evitar que assim fosse, foi preciso elevar a qualidade do amor. Tannhauser representa um s茅rio esfor莽o nessa direc莽茫o.

A lenda de Tannhauser tamb茅m 茅 conhecida por 鈥淭orneio dos Trovador鈥 Os trovadores da Europa foram, na verdade, os educadores da Idade M茅dia. Cavaleiros andantes dotados para o canto e para a dic莽茫o, percorriam montes e vales. Eram sempre bem-vindos e honrados nas cortes e nos castelos.

Tiveram uma poderosa influencia na forma莽茫o das ideias e dos ideais desse tempo. Isso pode-se avaliar pelo torneio de canto que teve lugar no castelo de Wartbug, em que o problema central era o seguinte: 鈥淎 mulher tem, ou n茫o, direito sobre o seu corpo e a liberdade de se proteger dos abusos licenciosos do seu pr贸prio esposo?鈥 Deve ser considerada como uma companheira bem amada, ou como escrava reduzida 脿 submiss茫o 脿 imposi莽玫es do seu marido?

Como 茅 de esperar, em todos os tempos h谩 sempre quem defenda, com intransig锚ncia, os antigos costumes e se manifeste contra as modifica莽玫es. Foi assim que os campe玫es das duas correntes ocuparam os seus lugares neste concurso da can莽茫o, no castelo de Wartburgo.

脡 um problema que se mant茅m actual. Ainda n茫o foi resolvido pela maior parte da humanidade. O princ铆pio enunciado 茅 o seguinte: 鈥渘茫o se pode melhorar um povo se n茫o se elevar o seu conceito de amor鈥. Este conceito assume uma particular import芒ncia para aqueles que aspiram a uma vida superior. Mesmo parecendo evidente, nem mesmo 茅 aceite por cada um dos que se dizem animados por grandes ideias! Com o decorrer dos tempos, todos acabar茫o por compreender que a humanidade ser谩 incapaz de qualquer progresso se n茫o considerar que os direitos da mulher em p茅 de igualdade com o dos homens.

Isto tem a sua raz茫o de ser na pr贸pria lei do renascimento. Segundo ela, o esp铆rito renasce, alternadamente, em corpos de ambos os sexos. Esta altern芒ncia permite que um opressor, por exemplo, renas莽a, em seguida, como oprimido.

Quem aceitar a realidade das vidas sucessivas, atrav茅s das quais o esp铆rito, desde a impot锚ncia at茅 脿 omnipot锚ncia, devia tamb茅m ser evidente o erro de um tratamento diferente para um ou outro sexo.

Est谩 amplamente provado que, longe de ser inferior ao homem, a mulher disp玫e de qualidades que, pelo menos o igualam. E pode ser at茅 superior ao homem no desempenho de certas tarefas mentais. Todavia, este pormenor n茫o 茅 claramente representado no drama em estudo.

Diz-nos a lenda que Tannhauser 鈥 que 茅 o s铆mbolo da alma em determinado est谩dio de desenvolvimento 鈥 teve uma desilus茫o de amor causado pelo facto de Elisabete ser demasiado pura e demasiado jovem para que ele se lhe pudesse declarar e possuir. Devorado por apaixonados desejos, atrai sobre si reac莽玫es da mesma natureza.

Os nossos desejos s茫o como diapas玫es, que vibram em un铆ssono ao som da mesma nota. Os apaixonados pensamentos de Tannhauser conduziram-no ao lugar a que se chama 鈥淢ontanha de V茅nus鈥.

A hist贸ria descreve a maneira como ele descobre a montanha e como a铆 fica, seduzido pelos encontros da am谩vel anfitri茫, enleado nas doces cadeias da paix茫o. Note-se que este conto, como acontece por exemplo com 鈥淯m Sonho de Uma Noite de Ver茫o鈥, Shakespeare, n茫o 茅 totalmente fruto da imagina莽茫o.

No ar, na 谩gua e no fogo, existem seres espirituais que o homem pode contactar se forem reunidas determinadas condi莽玫es. Isso n茫o 茅 t茫o f谩cil de acontecer na atmosfera el茅ctrica do continente americano como na Europa 鈥 particularmente no Norte, onde se mant茅m um comportamento m铆stico que, de algum modo, favorece a vis茫o daqueles seres elementais.

A deusa da beleza, V茅nus, 茅 uma dessas entidades et茅reas. Alimenta-se das vibra莽玫es provocadas pelos desejos de natureza inferior, cuja satisfa莽茫o provoca um grande disp锚ndio de energia sexual.

Os esp铆ritos obsessores que pretendem a esta classe, excessivamente perigosa, podem-se apoderar dos 鈥渕茅diuns鈥.

Agem como um parceiro sexual espiritual, incitando-os aos excessos, 脿 degrada莽茫o moral. Podem sugerir uma ac莽茫o ben茅fica para o esp铆rito e levam as suas v铆timas a um perigoso enfraquecimento. Paracelso referiu-se-lhes com os nomes 鈥渋ncubi鈥 e 鈥渟uccubi鈥.

O primeiro acto de Tannhauser revela-nos uma cena de desregrada licenciosidade, na gruta de V茅nus. Tannhauser est谩 ajoelhado perante a deusa que, languidamente, repousa sobre um leito.

Tannhauser desperta de um sonho em que se via de regresso 脿 Terra. Revela-o a V茅nus, que lhe responde com as seguintes palavras:

Ah, que oi莽o eu! Que tolo lamento! Cansa-te o meu carinho?
...
Esqueceste-te assim t茫o depressa o passado de do sofrimento
E dos gozos que encontraste neste lugar?
De p茅, trovador! Toma a tua harpa.
Vamos. Canta o amor e como ele te inspirou a conquista da sua pr贸pria deusa.
Canta o amor e tudo o que ele te deu.

Possu铆do de renovado ardor, Tannhauser empunha a harpa. Canta:

Louvo-te, 贸 deusa! Que sempre te acompanhe a aura gloriosa.
E eternamente te entoem mil c芒nticos benditos.
Cada minuto de doce prazer que da tua bondade flui,
Acorda a minha harpa e faz desabrochar as p茅talas da vida e do amor.

Os meus sentidos t锚m sede e o meu cora莽茫o implora
a delicada alegria da afei莽茫o e o contentamento do prazer.
Entrega-te a mim, que eu possa embeber-me
na tua felicidade, amor que apenas pode ser
Medido por um deus
Sou mortal, somente. Um amor divino,
demasiadamente perfeito, n茫o pode caber no meu.
Pode um deus amar sem pausa, incessantemente,
Por茅m n贸s, mortais, obedecemos ao vai-e-vem da vida,
Temos necessidade da nossa fatia de sofrimento,
Tanto quanto da nossa quota-parte de prazer.
Constantemente estamos em muta莽茫o:
Se a felicidade for excessiva, resvalarei para o sofrimento.
Assim, Heine, minha amada 鈥 n茫o posso ficar aqui!

Quando a humanidade emergiu da Atl芒ntida e se surgiram as condi莽玫es atmosf茅ricas que caracterizam a 脡poca Ariana, reluziu no c茅u, pela primeira vez, o arco-iris, o signo da Nova Era.

Nessa 茅poca, dizia-se que, enquanto o arco-iris brilhasse nas nuvens, n茫o cessaria o correr das esta莽玫es: dia e noite, ver茫o e inverno, fluxo e refluxo.

Todos os ciclos alternantes de Natureza se cumpririam sem interrup莽茫o. At茅 na pr贸pria m煤sica reconhecemos tamb茅m que a harmonia n茫o se pode prolongar indefinidamente. 脡 que a melodia seja real莽ada pela disson芒ncia.

O mesmo acontece com o sofrimento e a dor, com a alegria e com a felicidade,etc. N茫o podemos estar num estado de esp铆rito sem abandonar outro, do mesmo modo que 茅 imposs铆vel habitar o C茅u e, ao mesmo tempo, acumular experi锚ncias que s贸 na Terra podemos obter.

脡 impelido por esta necessidade 铆ntima do vai-e-vem do p锚ndulo, que oscila da alegria ao desgosto, que Tannhauser acaba por abandonar a gruta de V茅nus. Vai mergulhar, novamente, no esfor莽o e na luta que o mundo lhe oferece. Deste modo, obter谩 experi锚ncias novas, riqueza que apenas a dor (que decorre da luta pela vida) pode dar. E acabar谩 por esquecer prazeres que nenhum enriquecimento podem dar ao esp铆rito.

Uma das caracter铆sticas dos poderes inferiores consiste em procurar influenciar constantemente o esp铆rito para o desviar do caminho certo. 脡 por isso que V茅nus 鈥 que no drama de Tannhauser, representa esses poderes 鈥 tenta dissuadir o trovador nos seguintes termos:

A tua alma depressa mergulhar谩 no p贸, humilhada;
O teu orgulho ser谩 espezinhado pela adversidade.
Ent茫o, com o esp铆rito feito em farrapos, com o ardor
Que, agora, em ti vejo brilhar, esvaziado e nu,
Desejar谩s, de novo, o amparo e a felicidade segura dos meus bra莽os.

Tannhauser, por茅m, est谩 firme na decis茫o que tomou. O desejo 茅 t茫o forte que nada o pode deter. Se bem que ainda se encontre sob a influ锚ncia do encanto de V茅nus, n茫o deixa de exclamar, ardentemente:

Por muito que viva, sempre a minha harpa te celebrar谩.
Em nenhum tema menos belo se inspirar谩 o meu canto
A tua gra莽a e a tua beleza s茫o como frescos ribeiros.
E a tua entoada e doce voz alimenta o desejo do amor.
Do fogo com que incendiaste o meu cora莽茫o
Levantar-se-谩, para sempre, uma ardente chama
Que apenas para ti arder谩. Com amargura infinda,
Separar-me-ei de ti mas cantarei, eternamente
a tua imperec铆vel recorda莽茫o.
Devo partir, no entanto, Aspiro 脿 vida terrena.
Ficar aqui, significaria aceitar a escravid茫o
e eu tenho sede da liberdade, ainda que por ela
deva morrer.
Eis pois, aqui, rainha, a raz茫o profunda
que me leva a buscar, longe de ti, a vida!

Foi assim que Tannhauser deixou V茅nus e se dirigiu para Wartburgo. No castelo estavam numerosos trovadores. Tinham sido convidados pelo senhor de Wartburgo para o recrear. Em troca, concedia-lhes assinal谩vel protec莽茫o, ao mesmo tempo que os obsequeavam com ofertas.

Tannhauser teve um primeiro encontro com um grupo de trovadores logo 脿 chegada ao castelo. Eram antigos amigos. Surpresos por o verem de novo, perguntaram-lhe de onde vinha. Tannhauser, responde evasivamente.

Sabia haver um sentimento generalizado de reprova莽茫o de todo o contacto com os elementos da natureza inferior. Foram os seus amigos que o informaram do concurso de trovadores do castelo de Wartburgo. E convidaram-no a participar.

Tannhauser ficou a saber que o principal tema do debate era o amor, e que o pr茅mio seria entregue ao vencedor por Elisabete, a encantadora filha do senhor de Wartburgo. Era a mesma que, outrora, lhe tinha incendiado a alma.

Tinha sido ela, efectivamente, a causa da sua ida 脿 gruta de V茅nus. Tannhauser pensa, ent茫o, que o ardor que (ainda) o consome ser谩 suficiente para fazer ceder a jovem ao seu desejo.

Ignora, no entanto, que ao fazer semelhante sementeira preparara para o futuro uma seara de dor, como aquela que j谩 colhera na gruta de V茅nus. 脡 esta a inevit谩vel consequ锚ncia que recolhemos sempre que agimos em contraven莽茫o com as leis do progresso.

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