Mensagem de reflexão para Outubro

 
 

A disciplina é mais poderosa do que o número. É a perfeita cooperação, um atributo da civilização.

 

Casa de Pais, Escola de Filhos

Há muito, muito tempo, na dinastia Shang, um filósofo chinês apresentou nos seus escritos uma visão cosmogónica da natureza, onde os opostos por essência se encontram unidos e equacionados: Yang-Ying: o Céu e a Terra, o Fogo e a Água, o Verão e o Inverno, a Noite e o Dia, o Masculino e o Feminino.

A tradição judeo-cristã também o afirma quando diz que o mundo nasce da separação entre a luz e as trevas (Gen 1, 3-10)1.

Estes dois princípios, masculino e feminino, são os dois elementos do sopro primordial integradores do círculo mágico da fecundidade. O fenómeno da vida identifica-se com este sopro. As duas manifestações são iguais, mas opostas na tonalidade e na posição. Unidas, formam uma unidade, um todo. Um todo cósmico, um Mundo.

Há valores, crenças, ritos e instituições diversas que derivam da união entre o masculino e o feminino que são comuns a todas as culturas. Todas elas consideram que esta unidade, em que se fundamenta a família, não é só uma questão privada: também diz respeito à sociedade.

A perversão que resulta do desprezo por estas noções de separação, de estrutura e organização, a que já Platão (428-347 a. C.) se referiu no seu tempo, tende a eliminar todo o universo de diferenças em que têm início todos os princípios de ordem2.

É que este núcleo vital desempenha uma função social que outras uniões não desempenham. E, por ser condição da estabilidade e harmonia da sociedade, deve ter ele próprio garantia de estabilidade no tempo. Torna os progenitores autênticos pro-criadores, capazes de tornar viáveis as vidas que germinaram e fizeram depender de si. Este é o primeiro acto de responsabilidade social dentro de uma estrutura familiar saudável e adequada para enfrentar o desafio central da família: a educação da criança. O trinómio pai-mãe-filho não é um simples acidente na História. É largamente maioritário nas civilizações por ser a estrutura mais forte e estável.

Privar uma criança da diferença sexuada ente o pai e a mãe não é só privá-la das aptidões individuais: é privá-la também da diferença estrutural entre a posição paterna e a posição materna. Isto porque a criança, seja rapaz ou rapariga, tem necessidade das suas referências identificadoras para descobrir a sua personalidade de homem ou de mulher.

A crescente desafeição do casamento e a ruptura das uniões conjugais, de certo modo apoiado pelo Direito social e fiscal, pode afectar o equilíbrio afectivo da criança. Aquilo que muitas vezes se julga ter origem hereditária, pode ser, no fundo, o reflexo de influências exteriores e, muitas vezes, fruto da passividade dos pais. De todas as causas, necessariamente variadas, que permitem explicar o aumento da violência escolar, temos de considerar na base o problema da família, cuja acção formativa-educativa enfraquece sem cessar. E com a evolução da família do tipo conjugal para outros modelos que se julgam equivalentes, a orfandade assume agora novos aspectos. À orfandade biológica acresce a orfandade social, isto é, aquela que deriva do não cumprimento por parte dos pais dos deveres e obrigações morais, inerentes à sua importante função: casa de pais, escola de filhos.

Convém ter presente no espírito que a criança é um ser particularmente dependente dos outros. Sendo insuficiente, só pode apresentar a sua candidatura ao estado de adulto por meio do processo da imitação3. Por isso, a criança reflecte, por querer ou sem querer, tudo quanto a cerca.

Quando não devidamente disciplinada e orientada, a criança é um ser irresponsável. Apenas obedece, sem peias, à força das suas tendências. Tudo o que se lhe oponha, tudo ela pretende “vencer” sem a noção das consequências. Age quase sempre com as características da infância bem conhecidas: impulsividade, agressividade, crueldade.

É certo que as crianças gostam de barulho, brincam entre si aos socos, formam até bandos dirigidos pelos mais fortes. Mas quando esse comportamento não for acompanhado, canalizado e disciplinado, quando sobre ele não se exercer uma sistemática acção catártica, as tradicionais diabruras e travessuras infantis degenerarão, irresistivelmente, em actos delituosos e bárbaros.

Mas a violência escolar não é apenas alimentada por lares desestruturados ou com problemas económicos; é também promovida pela “traição” das famílias abastadas quando beneficiam um filho em prejuízo do outro – ou quando o único filho se torna o centro do mundo familiar, excessivamente mimado, voluntarioso, caprichoso. São crianças a quem os pais dão tudo o que é necessário para crescerem e se desenvolverem fisicamente, mas que nada recebem que os faça crescer “por dentro”.

Em tais situações afigura-se adequada a definição de regras de conduta que envolvam professores e pais, para que estes possam cumprir a sua missão – uma vez que nada, que se conheça, pode substituir a sua acção formadora da família digna de tal nome. A escola e a sociedade não podem substituir-se às responsabilidades que competem às famílias, designadamente no campo da educação. Só as utopias totalitárias defendem o desmantelamento da família para mais facilmente dominarem cada um dos membros da sociedade.

Quando, porém, não se trate de erros familiares, então há a considerar outras influências ou erros pedagógicos. Urge emendá-los rapidamente, restituindo ao aluno a confiança na Escola – ou nos professores, conforme as circunstâncias.

Com a imitação a criança não segue, geralmente, a direcção própria das sociedades equilibradas e saudáveis: imitam mais facilmente os costumes baixos, a linguagem rasteira, os comportamentos pouco dignos. É preciso que a disciplina interior, como base da disciplina exterior, triunfe nos jovens irreflectidos e irresponsáveis. Se eles não souberem individualizar-se, no sentido mais nobre da palavra, levarão para a vida social os germes da desordem e da anarquia bem sucedidos na Escola. Assim desumanizados, tornam-se presa fácil de ídolos da praça pública ou caudilhos ocasionais.

Este assunto tem sido, nos nossos dias, alvo de alguma atenção mediática pontual, circunstancial, emocional, e principalmente pouco centrada naquilo que deveria reclamar a centralidade plena deste problema: a solução.

Tal é o panorama actual.

À explicação das causas destes problemas, baseada na interpretação do momento e ao sabor das circunstâncias, adiciona a filosofia rosacruz uma ponderação normativa e axiológica sobre o que há de contraditório na procura do bem de uma nação, ou da humanidade, através do “esvaziamento” mental e psicológico das pessoas concretas que as constituem. É que outra coisa não é senão um “esvaziamento” o abandono, ou a indiferença, de certos princípios, conceitos e disciplina que constituem o “conteúdo estrutural” da nossa vida mental, afectiva e social. E dizemos “conteúdo estrutural” porque tais princípios, conceitos e disciplina, não têm apenas um significado contingente, mais ou menos fugaz: são valores qualitativos e dinâmicos que têm o poder de nos mover, ou co-mover, em direção a um destino superior àquela realidade mesquinha e habitual em que vivemos.

F. C.

Notas

1. A tradição grega diz o mesmo quando individualiza a hybris na arrogância. A palavra hybris encerra o sentido de excesso, o que ultrapassa a medida: o “métron”. É o pecado que mais irrita os deuses, a culpa que expõe à ameaça do híbrido, onde tudo se confunde na mistura e no apagamento das diferenças.
2. Platão, Fédon, 67 a.
3. Max Heindel, Princípios Rosacruzes para a Educação Infantil, p.8, F.R.P., 2005.

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