Filosofia
A Violência no Futebol
É na esfera do divertimento que se revela a complexidade e, ao mesmo tempo, a harmonia do ser humano. Durante o divertimento encontra-se satisfação na acção, não pela sua utilidade, mas simplesmente como simples explicação da própria actividade ou realização de si mesmo.
Os antigos Jogos Olímpicos, celebrados em Olímpia e outras cidades gregas, em honra dos três grandes deuses de toda a Hélade, Zeus, Poseidon e Apolo, atraíam concorrentes e comerciantes de todas as regiões onde se falava o grego. A estes dois grupos de participantes juntava-se um terceiro: os espectadores. Ao abrigo de tréguas sagradas chegavam de todos os lados. Embora divididos em cidades – estados, independentes entre si, estavam unidos, em eterna e íntima ligação, na admiração das formas dos atletas, dos movimentos harmoniosos e dos gestos rítmicos. Os Jogos Olímpicos contribuíram poderosamente para dar à imensa multidão de espectadores a noção da unidade do povo.
Uma das facetas mais importantes destes jogos eram as implicações religiosas. Os jogos de estádio eram autênticas cerimónias litúrgicas, em honra das divindades gregas. O vencedor representava sempre a escolha dos deuses e a sua vitória significava uma intervenção divina.
Se não olharmos para os Jogos Olímpicos com a habitual visão romântica vemos que as actividades desportivas dos gregos não representavam, para os atletas, unicamente a exaltação do corpo e do movimento. Era também uma fuga ao trabalho duro dos campos, um culto da ociosidade, da gratuitidade, etc. Usavam o suborno e outros processos semelhantes para alcançarem o apetecido prémio.
A contabilidade empresarial passou a dominar todos os intervenientes nas competições: atletas e organizações. E aquele velho provérbio “honra e proveito não cabe no mesmo peito” ficou esquecido. O desporto foi cada vez mais orientado para os resultados, onde só importa ganhar. Já não se joga pelo divertimento e prazer, mas para satisfazer grupos mais vastos: o clube tornado empresa. É o desporto-espectáculo dirigido ao espectador-consumidor.
Esta perversão do objectivo do jogo acabou por perverter o próprio espectador. Numa linguagem comercial, podemos dizer que as leis da produção se impuseram ao consumidor, ao ponta de este se deixar dominar e agir unicamente de acordo com a orientação do produtor. É o que vemos, na maior parte dos casos, nos jogos de futebol.
O espectador, em vez de procurar a simples diversão na prática do futebol, de admirar o ritmo e a beleza dos movimentos, é levado a apoiar a sua equipa e a esforçar-se tanto como os jogadores em campo.
Mergulhado na “massa”, que é uma quantidade sem qualidade, o homem-massa actua por imitação. É fácil de conduzir porque é contagiado no seu corpo emocional – o corpo de desejos – ao receber de todos os lados influências diversas: gritos, expressões crispadas e obscenas, etc. A sua emoção eleva-se a um grau superior, visto que cada instinto é excitado sempre que estiver na presença de outra pessoa com o mesmo instinto excitado.
É um fenómeno fácil de observar nos espectáculos teatrais e de futebol. Para conduzir o espectador, as empresas utilizam as conhecidas “claques”.
E se a lógica pervertida do futebol, em que só importa ganhar, fosse transferida para a vida diária? Para que serviria, por exemplo, a Justiça, se não para realçar o mérito dos rivais e dar razão ao vencedor? E se, indo mais longe, a vitória fosse atribuída, como nos Jogos Olímpicos, à intervenção divina?
Sabemos que a mola real da acção é o desejo, e é por meio dele, orientado na busca do prazer, que o ser humano desperta a consciência. E foi desconfiando desse prazer que as religiões pretenderam bloqueá-lo, com ressalva nos deveres conjugais, familiares, cívicos, etc.
O desporto não é, certamente, a única forma de diluir o stress da vida diária e de encontrar prazer. Mas não deixa de ser verdade que uma das suas funções, se não for desvirtuado, é o equilíbrio do descontrolo regular das emoções e sentimentos que surgem na vida exterior ao lazer.
Bibliografia
Hubert Lepargneur, Antropologia do Prazer, Papirus, 1985; Norbert Elias, A Busca da Excitação, Difel, 1986; José Esteves, O Desporto e as Estruturas Sociais, Prelo Editora, Lisboa.
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