FILOSOFIA

Dramas Infantis

Geralmente faz-se da criança a ideia errada de um ser, com vida sim, mas sem a capacidade de discernimento. Julga-se, a maior parte das vezes, que aquele ser é apenas um corpo, ao qual não pertence a faculdade de sentir e pensar. No entanto...

O Que é Uma Criança?

A criança observa, guarda, imita e julga-nos com tal segurança que raras vezes se afasta da verdade1. O que não sabe é expressar-se com clareza porque não está ainda na posse das palavras, a sua mente não funciona em pleno e, por isso, não sabe adaptá-las.

No seu rosto de lutador perpassam vislumbres das suas tendências: astúcia, o arrojo, o egoísmo, bondade, etc., virtudes e defeitos escondidos na sua fragilidade. As suas faculdades positivas só despertarão algum tempo depois do nascimento. Desenvolvem-se2 segundo as leis da evolução. Podem moldar-se às técnicas e atitudes que favorecem o crescimento se se tomarem em consideração as suas possibilidades afectivas (relacionadas com o corpo de desejos), sensoriais (associadas ao corpo vital) e intelectuais (que dizem respeito ao mundo do pensamento).

A criança aceita sempre a direcção educativa quando se realiza dentro de um sentimento de amor. Pode não compreender intelectualmente, mas sente sempre. A sua evolução afectiva condiciona a evolução intelectual, as suas capacidades de recepção, de memorização, de integração e de expressão. Nessa evolução a família desempenha importante papel.

A família

A família é o meio natural da criança. A influência da família exerce-se nos mais variados domínios e durante todo o tempo de formação da criança. Para traçar a acção da família sobre a criança, devemos realçar a influência dos avós, dos irmãos e, principalmente, dos pais.

Casa de Pais, Escola de Filhos

É da sua mãe que a criança recebe as primeiras influências. Por isso, a relação da mãe com a criança é de capital importância para o seu desenvolvimento. Basta observar, nas casas a que noutros tempos se chamavam asilos ou orfanatos, as crianças privadas de amor paterno. Por mais familiar que seja o ambiente, ficam marcadas, por toda a vida, por uma frustração, a frustração do amor dos pais, do amor pessoal de cada instante. Por isso, o modo como os pais amam os filhos, a sua firmeza ou a sua fraqueza, tem, evidentemente, a sua importância. Mas o que é ainda mais importante e insubstituível, é o facto de existir amor.

A imagem da mãe ocupa lugar fundamental na consciência, porque a primeira grande crise da sua existência envolve profundamente a mãe. A amamentação, as carícias, os cuidados maternos, tendem a neutralizar a sensação de medo que desperta logo depois do nascimento3.

A imagem paterna é mais importante noutra fase da vida, quando a criança toma conhecimento do mundo exterior, além dos limites do lar. Essa importância é maior quando muda os "dentes de leite", por volta dos sete anos4.

Quando a acção materna se mostra deficiente, a sua imagem fica obscura e a adaptação da criança à vida diária torna-se negativa. Enfrenta situações com atitudes derrotistas, com medo ou, até, mais tarde, com agressividade. Se a acção do pai é deficiente, a falta do exercício do poder, de firmeza moral, em resumo, de carácter, a consciência da criança desenvolve-se pela assimilação dos exemplos vividos em redor (isto é, pela imitação), havendo rejeição desses exemplos, dando origem a complexos.

Dramas Familiares

Há pais que falham na sua função de educadores. A criança é rejeitada e às vezes maltratada e abandonada. Estudos feitos em asilos mostram que as crianças abandonadas eram mais atrasadas em quase todos os aspectos do desenvolvimento: na capacidade de lidar com os outros, na linguagem, na iniciativa, no desenvolvimento moral, etc.

Para ajudar crianças rejeitadas ou abandonadas é preciso ter compaixão. Esta compaixão não significa comiseração por alguém que está em situação difícil. Significa mais do que ter pena dos que choram, quer dizer, que se pode penetrar no significado das causas que deram origem a esse abandono.

E assim vemos que há seres que nascem com enorme dificuldade para se ligarem a quem quer que seja. Nascem em ambientes que lhes são tão estranhos que não recebem qualquer simpatia - nem a dos pais! Ou se tornam órfãos, ou são abandonados. Em tais casos, a sua alma anseia por algum carinho e afecto - que é exactamente o que ela recusou dar numa vi-da anterior.

Há, também, casos em que, apesar do profundo amor que lhe era votado pela família, o desleixo e irresponsabilidade permitiram que se lançasse sobre os familaires a desonra e a vergonha. Quando esta alma se dispuser a liquidar a sua dívida, ver-se-á abandonada e alvo da antipatia de se aproximar5.

Pais ricos não são, necessariamente, bons pais. Para a criança, o que é importante é a sua estrutura familiar. Na medida em que nos esforçarmos por a manter, ajudar a manter e compreender as causas da rejeição, ajudaremos essas pobres almas a tirar o melhor proveito da lição que resolver aprender. A criança rejeitada e ou abandonada é um desafio para a humanidade. E, no mesmo grau da sua capacidade para sobreviver, apesar da adversidade, podemos considerá-la como uma esperança e não como símbolo de desespero.

F. C.


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