FILOSOFIA
Deve-se Crer na Trindade?Segundo a filosofia de Pitágoras (séc. VI a.C.), os números constituem a chave de acesso para a compreensão das leis da harmonia do universo. São, por este motivo, símbolos da ordenação universal divina.
Para os pitagóricos, toda a forma se pode exprimir por meio de números. Isto é confirmado pelo Teorema de Pitágoras 1 . E, se essas leis maravilhosamente ordenadas, até então ocultas aos olhos humanos, podiam ser descobertas pela contemplação das formas numéricas, não se poderia esperar que, através delas, todos os segredos do universo podessem ser revelados?
Os números não foram lançados à toa no mundo. Dispõem-se de maneira equilibrada, como os intervalos concordantes da escala musical, segundo as leis universais da harmonia. É por isso que para os pitagóricos, os números não eram simples unidades de medida, mas o arché, o princípio originário de todas as coisas, a "união dominante e não criada da perseverança eterna da essência das coisas" 2 .
Os números deixam transparecer, por isso, a sobre-humana harmonia das esferas. Neste pressuposto, os números sagrados adquirem uma qualidade sacra. Temos, em primeiro lugar, o Deus criador, entendido como a unidade originária. O Um representa toda a sistematização, porque toda a construção em que não prevalece a unidade do princípio é viciosa. Manifesta-se por meio da dualidade. O Dois distingue sempre a combinação. Da tese e da antítese resulta a síntese da trindade (o triângulo). O Três caracteriza sempre a progressão que, não sendo ternária, se torna ilusória. Omnium trium perfectum, diziam os latinos: as três viagens simbólicas (infância, juventude e idade madura) das sociedades iniciáticas, a integração da dualidade (pai e mãe) na imagem da tríade (pai, mãe e filho), as três Parcas (divindades da mitologia latina, senhoras dos destinos humanos), as três Nornas da mitologia germânica (Urd conhecia o passado, Werdandi o presente e Skuld o futuro) 3 , etc.
Não é de estranhar, portanto, que a tríade deixasse vestígios no mundo pagão. Teve grande importância na teologia platónica do Renascimento, nos apócrifos cristãos, etc. Como base teológica da religião cristã vamos encontrar o dogma da Trindade 4 . De resto, no Cristianismo há inúmeros elementos ternários. Todavia, o reflexo desta divisão ternária não se limita aos assuntos religiosos.
Numa imagem alegórica, de Ticiano, vemos três figuras que representam o passado, o presente e o futuro (esta alegoria é frequente no mundo das artes; as Três Graças são fonte de inspiração frequente para pintores e escultores). Sugerem que o presente deve beneficiar das experiências passadas para não comprometer as acções futuras 5 . Até a sintaxe das línguas ocidentais revela que o tempo é dividido em passado, presente e futuro - formas às quais o espírito deve obrigatoriamente acostumar-se e que, na prática, são agora correntes para todos. Somos como que prisioneiros da linguagem, incapazes de fugir ao tempo que a sintaxe representa, ao decompor a duração pura e simples numa triplicidade aparentemente harmoniosa. Quer dizer que, de facto, ela exige de nós uma importante operação mental: a que consiste em perceber intuitivamnte que um dos aspectos, isto é, uma das formas do tempo, é sempre oponível às duas outras reunidas 6 .
Se recorrermos à analogia, a que se refere a regra hermética "como é em cima, é em baixo", que é um dos melhores auxiliares para compreender a evolução e a relação entre o visível e o invisível, entenderemos, então, que a Trindade, ensinada noutras épocas nos Templos de Mistérios, sem ver nela uma contradiçção. Também não existe contradição na unidade da luz do sol quando distinguimemos nela as suas três cores primárias (azul, amarelo e vermelho).
BIBLIOGRAFIA
Capra, Fritjof - O Tao da Física, 1989; Neroman, D. - Le Nombre d'Or, 1989; Jorn Asger - Do Método Trioléctico, 1989; Koestler, Arthur - Os Sonâmbulos; Wind, Edgar - Los Misterios Paganos del Renacimiento, 1972.
1 O Teorema de Pitágoras é a parte visível da montanha de gelo submersa. Não há relação evidente entre os comprimentos dos lados do triângulo rectângulo; mas se construirmos um quadrado em cada um dos lados, as áreas dos dois menores iguala exactamente a do maior.
2 Filolao, séc. V a.C.
3 Max Heindel, Os Mistérios das Grandes Óperas, Cap. X. Wagner serviu-se do tema na ópera A Valquíria.
4 No plano teológico, o simbolismo da Trindade oferece-nos uma boa ocasião de estipular com rigor a oposição do arianismo dos povos germânicos à romanidade dos Latinos: entre Pai e Filho, distinção de essências à qual os últimos se opõem de maneira absoluta. Esta oposição, liberta de toda a terminologia teológica, reaparece hoje na Europa nos planos científico, filosófico e artístico.
5 A ideia de que o tempo triádico é um vestígio do rosto de Deus recorda a teoria de Platão, Timeu, 37D-38B, em que as três partes do tempo "imitam a Eternidade", dando-lhe uma "imagem móvel".
6 Esta tripla polarização do Tempo, tal como vemos na linguagem, tem o seu reflexo no mundo da energia. Diz Lupasco, citado por A. Jorn: "A fim que qualquer acontecimento se manifeste, num momento e num sítio qualquer do Universo, é preciso que uma energia, que um dinamismo possa passar de um certo estado de potencialização para um certo estado de actualização, sem o que, rigorosamente actual ou actualizado, não poderíamos sequer falar de energia, de dinamismo: tudo seria estático, exposto desde sempre e para sempre. Qualquer energia, qualquer movimento energético, seja sob que forma for, implica um acontecimento antagonista e tal que a actualização de um provoca a potencialização (a virtualização do outro). É a união dos dois aspectos que tem o poder de o actualizar". Jorn admite também que a estrutura da cultura latina comporta uma actualização do passado-futuro e uma virtualização do presente, enquanto que, pelo contrário, as estruturas bizantinas e russas comportam um presente-futuro oponível ao passado e que, por fim, as estruturas nórdicas eram essencialmente actualização do passado-presente e virtualização do futuro.
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