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Jesus Morreu na Índia?Há várias "estórias" que nos falam da sobrevivência de Jesus ao suplício do crucifixo. Dizem umas que ele viajou para a Índia e aí morreu. Outras escolhem um cenário mais próximo e referem a fuga de Jesus para Massada, onde teria vivido e combatido os soldados romanos.
Tais contos baseiam-se em lendas antigas e até em algumas passagens bíblicas. Vamos analisar uma delas.
As senhoras ricas da época tinham o costume de dar aos condenados vinho com mirra, para amortecer os sentidos e reduzir o sofrimento. Há poucos pormenores acerca das horas de sofrimento de Jesus no patíbulo. Em resposta à singela queixa "tenho sede", ter-lhe-ão dado esta mistura numa esponja 1 . Recusando-a 2 , pareceu aceitá-la mais tarde 3 , morrendo de seguida.
Há, de facto, uma possibilidade — que é admissível segundo os relatos dos Evangelhos, se forem analisados fora do contexto geral da obra — que José de Arimateia tenha planeado salvar Jesus com a intervenção dos Essénios, hábeis médicos. Devido à sua posição influente, obteve, como sabemos, algumas concessões. E, ao dirigir-se a Pilatos para reclamar o corpo de Jesus, José de Arimateia usa até, segundo o relato bíblico, a palavra soma que significa, em grego, "corpo vivo" (Pilatos responde-lhe referindo-se a ptoma, isto é, "cadáver").
Esta é a origem comum das duas versões mais conhecidas da sobrevivência de Jesus à crucifixão. A partir daqui, as estórias divergem.
Uma das versões admite que Jesus se dirigiu para a Índia. É esta que nos interessa, por se relacionar com a pergunta do nosso leitor. Na Índia, Jesus teria usado o nome de Yuz Asaf primeiro, e de Isa Masih depois. O objectivo, segundo os seus autores, seria o de pregar às Dez Tribos Perdidas de Israel.
Esta convicção parece ter origem numa obra indiana, chamada Bhavishya Maha Purana, que foi talvez escrita por volta do ano 115 d.C. e publicada com o apoio do Marajá de Caxemira. Não se pode dar muito crédito a esta obra. É estranho que alguém se identifique primeiro com um nome e logo a seguir com outro. Além disso, não há nenhuma boa razão que explique por que Jesus, se tivesse de facto viajado para a Índia, teria escolhido o nome de Yuz Asaf. Nem há tão-pouco qualquer ligação linguística entre os dois nomes. Yuz Asaf, pelo contrário, assemelha-se a Jehoshafat, isto é, Josafat, associado à lenda de Barlaão, um eremita, e Josafat, um príncipe indiano 4 . Foram canonizados pela Igreja Católica Romana em 1583 e colocados no martirológio cristão, tendo-lhes sido consagrado o dia 27 de Novembro. A história destes dois personagens foi contada por S. João Damasceno, que viveu em Jerusalém (675-749 d. C.).
E quanto a Isa Masih, é, segundo alguns autores, a versão árabe-muçulmana de Jesus Cristo.
Os textos bíblicos, por seu lado, não apoiam a possibilidade de Jesus ter viajado para o Oriente. De facto, Jesus sempre circunscreveu a sua mensagem ao povo judeu e à região em que viveu. Afirmou ter sido o enviado para as ovelhas perdidas de Israel 5 . E instruiu os apóstolos a não irem a nenhuma região de gentios ou cidade samaritana 6 . Ele próprio respeitou sempre estas instruções e nunca ultrapassou os limites geográficos do país de Israel para exercer o seu ministério.
Por isso, a ideia de ter viajado para o Oriente, a fim de aí proclamar a sua mensagem, parece ser contrária ao que entendia ser a sua missão messiânica.
O ponto de vista esotérico, especialmente o rosacruz, também não concorda com a hipótese da viagem. O grande sacrifício do Calvário foi absolutamente necessário para que a evolução da vida na Terra prosseguisse em ritmo desejável 7 . Cristo utiliza geralmente o Espírito de Vida (relacionado com o Mundo do Espírito de Vida), como o seu corpo "físico" 8 . E como este aspecto do tríplice espírito está relacionado com o corpo vital 9 que, por sua vez, tem a sua expressão mais elevada no sangue, foi necessário que o sangue de Jesus fluísse para que, por meio dele, o espírito solar, Cristo, conseguisse purificar os veículos do planeta. E assim Jesus teve de ser morto. Se tal não acontecesse, a evolução demoraria muito mais tempo e muitas das formas de vida, inclusive humanas, perderiam até a possibilidade de continuar a evoluir. 10
A. A.
1 Spongia somnifera. Foi usada mais tarde, na Itália, no século XV, como anestesia (mistura de ópio, alface, cânhamo, etc.)
2 Marc. 15, 23.
3 João, 19, 29-30.
4 Esta lenda é uma adaptação cristã da história do nascimento e juventude de Buda.
5 Mat. 15, 24.
6 Mat. 10, 5.
7 Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 2ª ed., pág. 294.
8 Idem, pág. 297.
9 Idem, pág. 312. Ver também Diagramas 5, pág. 80 e 2, pág. 44.
10 Idem, págs. 320, 321.
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