FILOSOFIA
O Código da Bíblia
O que há de mais significativo na vida humana, assim como no ambiente em que se processa, é de nela existirem concepções certas, demonstráveis, mas igualmente outras supostas, ilusórias, capazes de simular a realidade. Desde, porém, que possam ser demonstradas como irreais ou falsas, então não haverá já razão para serem aceites ou admitidas.
Ora, isto nem sempre é fácil, pelo menos em termos práticos. Quando entra em jogo a natureza humana, que parece estar mais à vontade por caminhos falsos e a acreditar em realidades que não passam de fantasmagorias e falácias, as coisas tornam-se mais complicadas. A situação mais característica é a das diversas superstições sociais, convicções políticas, mesmo simples conveniências, e até de certas interpretações bíblicas, algumas recentes, capazes de "decifrar" um suposto código matemático existente na Bíblia e "prever" coisas fantásticas, como a morte de Lincoln, Isaac Rabin, de Gandhi, de Kennedy, etc 1 .
Sabe-se que, na Antiguidade, eram os sacerdotes os únicos detentores dos documentos escritos. Eram eles os exclusivamente iniciados no segredo da palavra escrita, que interpretavam em favor das classes dominantes: reis, clero, guerreiros 2 . O excedente da população vivia na mais pura ignorância das coisas registadas, com ar de mistério, nos tijolos e papiros. Havia toda uma classe de comentadores para decifrar esses dizeres, tantas vezes subreptícios e capciosos. Ainda hoje ela existe, mesmo entre pessoas que gravitaram à volta do nosso círculo rosacruciano, que escrevem e falam com irresistível pendor para adulterar a forma e o fundo daquilo que lhe chegou aos ouvidos, insinuando revelações de algum dignitário e, procedendo assim, julga, talvez, servir a sua reputação como artista-aprendiz que excede em beleza os mestres que o antecederam: alguma vaidade, muita inconsciência.
Pode-se viver assim dentro de um mundo fictício, cujos valores se impõem, por vezes, como mais reais do que a própria realidade.
Vamos estudar um exemplo, já antigo, que se relaciona com as especulações em torno do número apocalíptico, 666.
No tempo de S. João, o autor do Apocalipse, no final do primeiro século, a Grécia e a Palestina faziam parte do Império Romano. Os imperadores atribuíam-se títulos como Deus, Divino, Salvador e outros; e faziam-se adorar por meio de imagens, colocadas em templos que lhes eram dedicados, com rituais que incluíam o uso de incenso e sacrifícios. Os sacerdotes encarregados deste culto chegavam a recorrer à magia para forçar o público a participar nesses cultos.
Reinava então o Imperador Domiciano, chamado o "Nero Calvo" (81-96).
Diz S. João "Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta, porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis" (Ap. 13, 18).
Para compreender o significado deste versículo, devemos recordar que, nas línguas hebraica e grega, as letras têm valor numérico e são usadas como algarismos. É, em parte, como em latim; o I = 1, X = 10, L = 50, etc. Somando os valores numéricos das letras de um nome próprio obtém-se o número desse nome 3 . Mas o inverso já não é assim, porque de um número pode-se obter uma infinidade de nomes. Vamos ver como.
O 666 é chamado o "numero da besta", e é o exemplo mais conhecido da guematria bíblica. Alguns comentaristas já consideraram praticamente todos os candidatos possíveis ao título, que é o do Anticristo. Cita-se com mais frequência o Imperador Nero, que tem, como sabemos, o título de César.
Se escrevermos o seu nome (na forma grega, Neron) e título, com letras do alfabeto hebreu, encontraremos o equivalente numérico, que é 666: Se eliminarmos o "n" de Neron teremos 616, valor também referido em muitos manuscritos antigos do Apocalipse e, talvez, o mais provável.
Se admitirmos que o Apocalipse foi escrito no ano 95, de acordo com a tradição e certos pormenores do contexto da obra, isto é, já no final do reinado de Domiciano, assassinado em 96 d.C. 4 , Nero é um candidato errado, pois já tinha falecido. Teremos então de procurar outro. Não é difícil encontrá-lo, pois a lista é grande. Servem os nomes de Calígula, Trajano, ou até a inscrição do próprio selo imperial.
O selo imperial romano, usado entre 95-96 d.C., de acordo com alguns relatos conhecidos, tinha a inscrição, em grego: IA KAIEAPOE, (ano 14 do reinado de César). A soma é (14+20+1+10+200+1+100+70+200) = 616.
Com um pouco de paciência, podem-se até "descobrir" informações ainda mais extraordinárias. Por meio de algumas operações aritméticas com as idades dos patriarcas, Adão, Set, Enós 5 , etc., há quem suponha encontrar referências "evidentes" ao número de Avogadro, à velocidade da Luz, quer no actual sistema métrico decimal, quer no sistema métrico egípcio-babilónico, ou no hebreu antigo, e a outras descobertas da Física moderna! 6 .
Uma das provas mais demonstrativas de quanto o ser humano se encontra perdido no mundo é o da multiplicidade de opiniões e convicções que existem sobre a Bíblia, relacionados com a vida diária em todas as esferas de acção. Tão variadas e numerosas, e tão cheias de absurdos são a maior parte delas, que, em geral, acarretam malefícios sem conta para o ser humano, quer pelas ilusões que alimentam, quer pelas exigências que impõem, designadamente nas actividades das seitas e novas religiões. E isto repete-se também em relação à política, à economia e a outros elementos da nossa existência.
É preciso compreendermos bem os conceitos alegóricos referidos na Bíblia, e libertarmo-nos de algumas fantasias verbais e imaginárias, de concepções vetustas e de criações essencialmente cerebrais e ideológicas. A lógica e o que é demonstrável deveriam ter, como diz Max Heindel, mais poder para se imporem pela sua própria força.
Nós, que temos os pés fincados na realidade, devemos considerar que o estudo sério, incluindo o da Bíblia, deve ser o maior objectivo para o nosso progresso intelectual e espiritual, e a chave segura e apropriada para resolver os graves problemas que nos cercam.
F. C.
1 Michael Drosnin, O Código da Bíblia, Lisboa, 1997. Os eruditos israelitas desacreditaram o texto, considerando-o "manipulação com fins comerciais".
2 Gregos e romanos pendiam fortemente para a supersticiosa interpretação dos textos jurídicos, como se fossem escritos por mãos infalíveis. Conta-se que certo habitante de Atenas alugara um burro para lhe levar as bagagens a localidade distante. A viagem era longa e o calor esbrazeante. Cansado, sentou-se o homem à sombra do burro, enquanto este descansava também. Tanto bastou para que o dono do animal, informado do sucedido, cobrasse um pagamento suplementar porque, interpretando o texto ao pé da letra, ele não dizia que quem alugava o burro também alugava a sombra. Esta história revela-se um precioso exemplo do respeito um tanto supersticioso pelo texto escrito, a que se dá apertadíssima interpretação.
3 A análise deste significado numérico, combinado com o literal, deu origem à "guematria", corrupção da palavra grega "geometria".
4 Cf. Eusébio, História Eclesiástica, III, 17-18.
5 Gén., V.
6 José A. López, La Bíblia Quántica, Madrid, 1992.
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