EDITORIAL

Alimentação, Instinto e Cultura

Quanto mais investigamos a extensão da vida e as causas da morte, tanto mais chegamos à conclusão de que uns quantos maus hábitos e outras tantas doenças são os grandes responsáveis pelo desaparecimento prematuro de muita gente útil.

É certo que a idade média das populações se elevou espectacularmente nos últimos anos. Como diria o senhor de La Palisse, hoje só não chega a velho quem morre novo. Todavia, a maioria de nós continua a temer o prolongamento da velhice, inútil, rabugenta, isolada e, sobretudo, com falta de saúde.

Se a vida e a saúde nos interessam tanto, que a maior desgraça é perdê-las, temos de fazer tudo o que for possível e valha a pena para as conservar. E isso exige uma reflexão profunda sobre as causas de alguns dos nossos (maus) hábitos e certos "vícios" – toxicomanias – diários.

O que se torna essencial é saber se por detrás desses vícios não pode haver qualquer realidade, qualquer elemento capaz de ter contribuído para a formação desses hábitos, para tornar uns mofinos, tristes, atrasados, talvez infelizes, ou influenciar outros na sua vida de família e sociedade, no arroubo das suas paixões e criações. O que é preciso é saber porque somos dados a certas abominações e se elas não terão origem em algumas "necessidades" do organismo, devidas, por exemplo, a deficiências alimentares. Até que ponto o indivíduo mal alimentado não irá procurar nos alcalóides (álcool, cafeína, nicotina, teobromina, heroína) a atenuação de carências e intoxicações resultantes de alimentação errada? Vejamos apenas o caso de um alimento tradicional: o pão.

Se for completo, é um alimento digestivo (por causa das diástases), nutritivo (devido aos ácidos aminados, fosfatos de cálcio e outros minerais que contêm a base proteica) e, até, protector (graças às vitaminas e ao óleo essencial que se encontra no germe).

O pão branco, panificado rapidamente, mal cozido, indigesto, privado de diástases, pobre em proteínas e em minerais, leva à procura de alimentos como a carne e subprodutos alimentares. Usando alimentos completos, capazes de satisfazer as células, não haverá razão para recorrer a produtos animais em tão grande quantidade, ou consumir estupefacientes.

É curioso ver que o aumento do consumo de carne, de alucinogénios e drogas semelhantes, inclusive os calmantes, sedativos e até dos alimentos açucarados pelas crianças, ocorre desde o início do actual século, depois da instalação das moagens mecânicas. Até a culinária, que era uma arte de tradição, foi revolucionada pelos artificialismos da industrialização, que cada vez mais nos afastam das condições próprias e espontâneas da natureza. É compreensível que a modificação de um alimento, a sua preparação e conservação, possam introduzir modificações ainda não perfeitamente conhecidas e, consequentemente, acarretar consequências imprevisíveis para o organismo, tendo em conta as suas necessárias e lentas adaptações. Nesse sentido, é possível que os próprios medicamentos sejam mais prejudiciais do que se pensa, podendo afectar órgãos e tecidos pelo simples motivo de a eles não estarem ainda habituados ou adaptados.

Isto nada tem de estranho ou incompreensível. Afinal, o que parece de maior evidência, desde que Noé plantou a vinha, é que as grandes transformações alimentares constituem o factor que mais tem influenciado a existência do ser humano, foi até responsável pela diferenciação das espécies.

Eis algumas questões abertas à investigação. Muito ganhará, certamente, em ser realizada no sentido de analisar até que ponto a intervenção da razão1 está a falsear imperativos biológicos e naturais, como a alimentação e a reprodução, revolucionando-a pelos artificialismos já mencionados. Os "instintos naturais" e os velhos padrões tradicionais, morais, sociais, alimentares (alguns obviamente errados) por meio dos quais o passado alerta contra os abusos, tem sido solapados pelas exigências culturais, técnicas e sociais da actualidade. Os caminhos naturais, assim desviados, implicam que a nossa capacidade espiritual fique rebaixada, se torne mais comum, mais igual, de nível mais baixo e medíocre. Aproximam-nos cada vez mais da máquina em prejuízo dos nossos atributos humanos.

Do que precisamos é andar alerta e prevenidos. Já existem tantas vítimas de tão variados engodos, económicos, sociais, educacionais, científicos, etc., que já é tempo de desconfiarmos e suspeitarmos de tudo que nos possa prejudicar ou trazer sofrimento, quer diminuindo a nossa liberdade, quer a nossa saúde ou a dignidade.

F. C.

 

1 No sentido técnico, em que a "razão" é reduzida à capacidade de "raciocinar". Não obstante ser competente em aspectos lógicos e metodológicos, desumaniza o homem quando separada da razão ontológica-intuitiva.




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