O QUE A BÍBLIA NOS ENSINA

Saulo e os Essénios

II

(conclusão)

Depois de ter sido preso, Jesus foi levado a casa do sumo sacerdote. A narrativa deste passo bíblico descreve Pedro dum ponto de vista desfavorável. Note-se, todavia, que, quando Jesus foi preso, todos os discípulos fugiram, com excepção de Pedro e João. Segundo João, estava acompanhado de outro discípulo que conhecia o sumo sacerdote. E assim conseguiu entrar no pátio da sua casa.

No relato de Lucas, a história está escrita com todo o cuidado, culminando com um olhar significativo que Jesus lança sobre Pedro. O leitor sente aumentar gradualmente a intensidade emocional.

João tem uma opinião de Pedro muito mais suave. Ao contrário de Lucas, omite não só o cumprimento da profecia como o amargo arrependimento do patriarca.

A Negação de Pedro

Pedro não ouviu o galo cantar, porque a criação de aves de capoeira era proibida em Jerusalém. Este e outros eventos não foram escritos com a intenção de que a frase fosse tomada à letra, como demonstra a escolha cuidadosa das palavras. Na rápida sucessão de acontecimentos, que decorrem entre a prisão e a execução de Jesus, temos outro exemplo. É de tal modo apertada que, para além da flagrante incredibilidade – como fazer sair da cama Pilatos ou Antipas antes de o dia nascer – deve ser encarada unicamente como sumário dos acontecimentos.

Ressalta ainda o facto de Pedro ter proferido a negação, segundo o relato conhecido, perante serviçais, em condições que, de modo algum, o obrigavam a fazê-lo. Se Judas se suicidou, de acordo com os evangelhos, depois da traição, Pedro, ao contrário, mantém-se como dirigente da comunidade cristã de Jerusalém. Por isso, Goguel1 põe em dúvida a autenticidade histórica deste passo, já que, a ser verdade, Pedro dificilmente reocuparia as suas funções de patriarca da comunidade.

As Epístolas de Paulo

Uma das mais desconcertantes características das Epístolas de S. Paulo é a falta de referências aos milagres de Jesus. É lícito perguntar se os terá conhecido. De facto, Paulo converteu-se depois da lapidação de Estêvão, por volta de 32-34, quatro anos após a crucificação. Não conheceu os evangelhos, que ainda não tinham sido escritos2. Sabia mal os divinos logia e as parábolas. Teria sido informado por Lucas? Talvez, mas ele foi um companheiro episódico, e só o conheceu quinze anos depois da conversão. Também não pode ter recebido conhecimento dos onze, porque, como sabemos, foi um perseguidor do cristianismo até ao acontecimento de Damasco.

Recordemos o que nos disse na carta aos Gálatas3: "Fiquem a saber que o evangelho que vos anunciei não é de origem humana. Não o recebi nem aprendi de qualquer pessoa. Foi Jesus quem mo deu a conhecer". Esta afirmação implica que Paulo se considere não só um apóstolo, mas um profeta inspirado, não dependente do evangelho (boa nova) dos testemunhos directos de Jesus. E, por outro lado, que tivesse recebido instruções directamente de Jesus.

A última conclusão dá origem a algum cepticismo. Com efeito, do ponto de vista exclusivamente bíblico, o ensinamento de Paulo diverge, em alguns pontos, dos testemunhos directos de Jesus. Do ponto de vista histórico, esta afirmação implicaria que Paulo tivesse dialogado longamente com Jesus depois da crucificação. Ora, isto não corresponde à breve experiência de Damasco. Neste existem sérias dificuldades históricas, lógicas e exegéticas.

A Evolução do Dogma de Jesus

Os primeiros cristãos eram judeus ortodoxos. Continuaram a observar a lei e a assistir aos serviços na sinagoga e no templo. A eles se juntaram numerosos prosélitos, gregos e judeus de língua grega, que haviam regressado do estrangeiro para viver na capital.

Para compreendermos a transformação do dogma de Jesus, é preciso analisarmos o estrato social a que pertenciam os primeiros cristãos e seguir as suas transformações. As primeiras comunidades eram formadas por entusiastas, oprimidos social e economicamente, unidos pela esperança e ódio. O seu estado de espírito vê-se claramente em Lucas4. O que nos diz revela mais do que simples manifestações de ansiedade e esperança. Encontramos o mesmo ânimo na história do homem pobre, Lázaro5, em algumas palavras de Jesus6 e também na carta de Tiago, escrita em meados do século II7.

Predominava então a doutrina da adopção, isto é, a crença de que o homem Jesus fora elevado a um deus.

Paulo dirigiu-se às camadas sociais mais baixas8, mas também, sem dúvida, aos comerciantes e pessoas abastadas e cultas.

E depois deu-se a primeira grande modificação, na composição dos crentes, quando a propaganda cristã se voltou para os pagãos. Gradualmente, outro elemento social, mais educado e rico, aderiu às comunidades cristãs. Paulo, na verdade, era filho de um rico cidadão romano. Tinha sido fariseu (no sentido etimológico) e, portanto, um dos intelectuais que hostilizavam os cristãos e era por eles detestado.

Em meados do século II, o cristianismo conquistou adeptos nas classes média e alta do Império Romano, principalmente no seio das mulheres. Penetrou na aristocracia dominante.

No fim desse século, o cristianismo deixou de ser uma religião só dos artesãos pobres e dos escravos. E Constantino tornou-o religião do Estado no século IV.

Com essa modificação social, económica e política da maioria dos crentes, modificou-se o conceito de Jesus, de Cristo e de Deus: o homem não foi elevado a Deus, mas Deus desceu para se fazer homem. É esta a base no novo conceito, que culminou na doutrina de Atanásio, adoptada no Concílio de Niceia, que eliminou da fórmula o carácter revolucionário da doutrina antiga9.

A transformação teológica reflectiu a modificação social. E assim, em vez de se manter uma religião de rebeldes, que estimulava o crescimento espiritual individual, à semelhança de Jesus, a nova crença das classes dominantes procurava, antes, sossegar as massas e torná-las obedientes e conformistas. O cristianismo tornou-se "revisionista".

Conclusão

O que se sabe da vida e ensinamentos do cristianismo da Idade Apostólica está contido, em grande parte mas não exclusivamente, no Novo Testamento.

O que o N.T. nos conta acerca das relações de S. Paulo com os outros apóstolos e as querelas desse tempo é uma visão unilateral, ainda que em duas versões. Uma é a do próprio S. Paulo. A outra é a de S. Lucas. Nos Actos, manifesta logo a clara intenção de apresentar S. Paulo como o arquitecto e pioneiro do novo cristianismo do último quartel do primeiro século.

Na sabedoria dos nazarenos, que sobreviveram nos ensinamentos da patrística, há bastantes passos que revelam não só a harmonia entre a lei e o culto, mas também a existência de mistérios ou ensinamentos secretos, "que não podiam ser revelados senão aos iniciados" e distinguiam os que estavam "dentro" e os que ficavam de "fora". Nos ensinamentos paulinos também encontramos claros indícios da sua formação esotérica. E, por isso, pode-se admitir a possibilidade de ter ocorrido uma forma sobrenatural de transmissão do conhecimento. Que viu a Jesus é ele próprio quem o afirma, mas em ocasião diferente do episódio de Damasco.

Todavia, a sua estratégia, privilegiando os gentios, privou o povo judeu de um ensinamento que lhe era particularmente destinado10.

E, com o passar do tempo, o ideal messiânico transformou-se numa religião institucionalizada, estruturada societariamente, que acabaria por se comprometer, em muitos casos, com os adversários históricos de Jesus: o Estado, os poderosos e os fariseus11.

F. C.

 

Bibliografia

Casiano, Floristán – Conceptos Fundamentales del Cristianismo, vol I e II, Madrid, 1993; Cesareia, Eusebio de – História Eclesiástica, vol II e III, Barcelona, 1993; Josefo, Flavio – Antiguidades de los Judíos, Vol I, II e III, Barcelona, 1994; Manzanares, César Vidal – El Judeo-Cristianismo Palestino em el Siglo I, Madrid, 1995; Martinez, Florentino García – Los Hombres de Qumrán. Literatura, Estrutura Social e Concepciones Religiosas, Madrid, 1997; Schonfield, Hugh J., Nuevo Testamento Original; Barcelona, 1989; El Partido de Jesus, Barcelona, 1988; Weddig, Frick, El Juicio Contra Jesus, Barcelona, 1993; Vidal, Senén – Las Cartas Originales de Pablo, Madrid, 1996.

 

1 Goguel, M. Das Leben Jesu, Zurich, 1934, citado por Weddig Frick.
2 A ordem dos textos canónicos é inversa da ordem cronológica. O evangelho de Marcos é mais antigo do que o de Mateus. F. Bauer, fundador da Escola de Tubingen, demonstrou que a parte principal do Apocalipse datava do ano 68. Tudo indica, de facto, que as cartas de Paulo tenham menos 60 anos que o Apocalipse. É revelador o facto de Eusébio, na sua História Eclesiástica (III, 27; 4, 29), dar a notícia de muitos cristãos que, no séc. II, se recusavam a aceitar os escritos de Paulo. E Justino, apologista cristão, ignora-o totalmente.
O estabelecimento da cronologia real dos livros do N.T. é de importância fundamental para o estudo da história do cristianismo e da sua evolução.
3 Gal.. 1, 11.
4 Luc., 6, 20
5 Luc., 16, 21
6 Luc. 18, 24.
7 Tiago, 5, I e seg.
8 I Cor. 1, 26-28.
9 Os partidários de Atanásio descobriram que, com o auxílio de um pequeno erro ortográfico, a sua doutrina podia continuar. A palavra homoousios, da mesma natureza, foi substituída por homoiousios, de substância semelhante. De um lado, Jesus era idêntico ao Pai, do outro era parecido com ele. Entre os dois havia apenas uma letra de diferença! O dogma ariano foi uma das manifestações finais do movimento cristão primitivo.
10 Cf. Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 2ª ed., Lisboa, 1989, págs. 248-249.
11 Max Heindel, ob. cit., pág. 304.



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