O QUE A BÍBLIA NOS ENSINA

O Filho do Homem

A expressão "filho do homem", que aparece mais de 75 vezes no N.T., já era usada no judaísmo muito antes do nascimento de Jesus. Entrou no vocabulário dos hebreus através dos escritos do profeta Ezequiel nos primeiros anos do século VI antes de Cristo1.

Quando o rei Antíoco IV, conhecido por Epífanes, um rei cruel, subiu ao trono da Palestina, no ano 175 a. C., os Judeus atravessavam o mais trágico período da sua existência, só comparável ao holocausto alemão. Foi então que floresceu a literatura apocalíptica e a expressão "filho do homem" se vulgarizou. As obras mais importantes do género apocalíptico foram o livro de Daniel e o livro apócrifo de Enoque.

Foi no livro de Daniel que a expressão "filho do homem" adquiriu significado mais complicado. Durante a visão, Daniel deu conta de ter visto alguém, como um "filho de homem"2. Mais tarde esta expressão tornou-se um título pessoal, que Isaías associava a um messias esperado. Quando se escreveu, depois, o livro de Enoque, a expressão "filho do homem" já era um sinónimo de Messias ou Salvador, uma entidade celeste preexistente, a quem Deus havia confiado uma tarefa terrena3.

A tradição messiânica desenvolveu-se. Esperava-se um messias capaz de renovar os "milagres" do Êxodo: a travessia das águas do Jordão, distribuir pão no deserto, expulsar os demónios. No século II a. C. estas imagens, que já estavam fortemente arraigadas na literatura judaica, persistiram até ao século II d. C.

O Filho de Deus

A expressão "filho de Deus" também se encontra na literatura grega antiga, a começar pela Odisseia, de Homero4, e numa inscrição antiga, em Priene, cidade da Jónia, na qual se comemora o nascimento do Imperador Augusto.

Aparece frequentemente no Novo Testamento, que só conhecemos em grego, e que não representa os primeiros testemunhos escritos. Constituem versões de documentos mais antigos, como se vê em Lucas (Luc. 1, 1-3). Não temos sequer uma única linha desses textos originais5. Foi a partir dessas fontes originais que nasceram três narrativas semelhantes, cujos autores, segundo a tradição, são Mateus, Marcos e Lucas, os "sinópticos".

Um judeu que lesse os evangelhos ficava com uma ideia diferente dum grego. Um judeu, ao ler a palavra grega "Christos", sabia que era a tradução de "messias", isto é, ungido, e associava-a a um "rei". Não era assim para os gregos, porque, entre eles, os reis não eram ungidos.

Começa aqui o mal-entendido acerca do significado da expressão "filho de Deus". Os gregos, habituados a ouvirem falar das aventuras dos seus deuses, que hoje conhecemos por meio da mitologia, não tinham dificuldade em aceitar a noção de um "filho de Deus". Mas não fazia sentido, para eles, o ritual da unção6.

É preciso levar em conta, também, a estrutura das línguas orientais, que têm grande predilecção pelas imagens. Para o semita, o autor de um retrato seria "um pai da imagem", um mentiroso, um "filho da mentira". E é neste nível que ele entende a expressão "filho de Deus".

Nas línguas semíticas, a expressão "filho do Deus" significa apenas uma relação entre um homem e Deus. Para um judeu, que nem sequer ousa pronunciar o nome de Deus, era impensável que Ele se pudesse revestir de roupagens humanas e entender esta relação em termos biológicos. Mas um grego, que partilhava da ideia de exterioridade de Deus, não excluía a hipótese de Ele se mascarar de homem, mesmo que fosse só para se envolver em aventuras terrenas.

No tempo de Jesus, a expressão "filho de Deus" era familiar aos judeus, que se consideravam, todos eles, como filhos de Deus. Mas, a partir do momento em que o cristianismo passa para outras formas de expressão e de pensamento e começa a separar-se do solo natal, a metáfora foi interpretada à letra7.

A Incarnação Cristã

A incarnação cristã é outra coisa diferente da máscara grega. O que disse S. Irineu, e com ele toda a Patrística: "Deus fez-se homem, para que o Homem se possa fazer Deus", assinala a ruptura da continuidade que o termo judeo-cristão esconde. É certo que "o Verbo se fez carne", não no limitado sentido da carne de um corpo, mas na "carne" de tudo o que existe, neste e noutros sistemas solares8.

O grande erro consistiria em reduzir esta "descida" de Deus ao homem, simplesmente no seu local de acção física, e em só querer compreendê-la do ponto de vista da cultura em que se manifestou a sua mensagem, que é destinada a todos os homens do planeta, na língua e cultura de cada um.

Com Paulo, o cristianismo popular pode reclamar-se herdeiro do pensamento grego e prolonga a sua concepção da exterioridade de Deus, que dirige de longe, lá do Céu, as coisas humanas. Mantém a concepção de um Deus exterior, que castiga, perdoa e dá ordens. É a tentativa de compreender e exprimir as relações de Deus para com o mundo, por meio de categorias mundanas que, tomadas em sentido absolutamente literal, dá, como resultado, a ideia de um Deus "lá em cima", "fora do mundo", quando, na verdade, toda a criação se deu "dentro de Si mesmo" e "não de Si mesmo"9.

E isto leva-nos directamente à necessidade de reavaliação, dentro deste contexto, não só da pessoa e obra de Jesus, como de toda a Bíblia.

Como Ler a Bíblia

A obra de Max Heindel Cristianismo Rosacruz, e particularmente o nono capítulo, As Alegorias Astronómicas da Bíblia, é um texto de encorajamento para quantos trabalham na investigação bíblica. É preciso ter em conta, nesse estudo, os novos instrumentos de trabalho, as novas ciências auxiliares, porque também há – e haverá sempre – novos problemas para resolver. Em síntese, o estudo da Bíblia deve levar à sua releitura, tendo em conta:

– A correcta interpretação da Bíblia

É preciso evitar a leitura "fundamentalista"10. Esta forma de ler a Bíblia exclui qualquer esforço de entender o texto que tenha que ver com o seu crescimento histórico e desenvolvimento. Não admite que os textos inspirados tenham sido escritos em linguagem humana, redigidos por autores humanos, cujas capacidades e possibilidades eram limitadas. Trata o texto bíblico como se tivesse sido escrito directamente por Deus. Não reconhece que o texto tenha sido formulado numa linguagem condicionada por uma dada época.

O fundamentalismo bíblico dá origem, com facilidade, ao aparecimento das seitas.

– A correcta leitura da Bíblia

Tem em devida conta os limites da interpretação literal, e analisa também o sentido simbólico, alegórico, figurativo e histórico.

– A importância dos textos originais

Deve ter-se em conta, tanto quanto possível, a importância fundamental dos textos originais (grego, hebraico, aramaico), e a crítica textual.

– Uso de normas científicas

Dado os progressos a que se chegou nos estudos e métodos históricos, é possível conhecer-se a personalidade do autor, o género literário usados no Oriente e as suas ligações com a história, a arqueologia, etc.

Assim, pode-se ter em conta todas as influências que um dado autor recebeu da sua época, as suas fontes, a finalidade da obra, os processos estilísticos, etc. O estudioso só terá a ganhar com esta reflexão.

F. C.

Bibliografia

Floristán, Casiano – Conceptos Fundamentales del Cristianismo, Madrid, 1993; Panikkar, Raimon – La Trinidad y la Experiencia Religiosa, Madrid, 1989; Spong, John Shelby – La Resurrección, Mito o Realidad? Barcelona, 1996; Velasco, Francisco Diez de – Los Lenguagens de la Religión. Mitos, Símbolos e Imágenes de la Grecia Antigua, Madrid, 1998.

 

1. Ez., 2, 1; 3, 3; 5, 1.
2. Convém não esquecer que a expressão corrente "filho do homem", parece estar errada. Em aramaico, a frase é bar enás e significa literalmente "alguém com figura humana". Traduzida para o hebreu, escreveu-se bem adam, que significa apenas "um homem". E, finalmente, na tradução grega, escreveu-se ho hyiós tou anthrópou, de onde vem "o filho do homem". Cf. Spong, pág.161.
3. 1 Enoque, 46.
4. Cap. 14, 152-166.
5. Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 2ª ed., 1989, pág. 253.
6. No fim do século I, Flávio José, na única referência incontestável que fez a Jesus, diz que Jacob (Tiago), era "irmão de Jesus, chamado o Cristo" (Antiguidades, XX, 9, 1). Quando o evangelho de João foi escrito, os cristãos falavam, em geral, o grego. Por isso, o evangelista teve de explicar que Christos era a tradução de messias. Cf. Jo. 1, 41.
Ainda hoje, na cerimónia de coroação dos poucos reis que existem na Europa, se usa este ritual. Isabel II, do Reino Unido, foi ungida com óleo bento em 2 de Junho de 1953.
7. Quando a teologia começou a tornar-se autónoma e a pretender uma orientação exclusivamente bíblica, iniciou o processo, ainda não interrompido, de introdução da ideologia na fé. Aborda as origens pretextando, sistematicamente, que o que não deve ser não pode ser, para depois descobrir nos textos o que se deseja lá pôr.
8. Max Heindel, ob. cit., pág. 143.
9. Max. Heindel, ob. cit., pág. 151.
10. A expressão "fundamentalista&qot; surgiu no Congresso Bíblico Americano, em Niagara, Nova Iorque, em 1895. Refere-se à "inerrância" bíblica.




[ Revistas | Index | Anterior | Seguinte ]