FILOSOFIA
O Simbolismo Patriarcal
Quase todos os povos da antiguidade atribuíam a origem da sua própria civilização à existência de dez patriarcas, míticos ou reais, que eram a pedra angular de toda a Sabedoria Antiga. Assim, vamos encontrar, no Livro do Génesis, a série dos dez patriarcas ante-diluvianos (que viverem entre a criação do mundo e o dilúvio): Adão, Set, Enós, Quenan, Malaliel, Jared, Enoque, Matusalém, Lameque e Noé, de onde, segundo o Mosaismo, surgiu a nova raça humana, posterior ao Dilúvio.
A mitologia egípcia fundamentava a sua civilização, igualmente, numa série de dez divindades. Entre os hindus existem os Prajaptis, filhos de Viradj, em numero de dez, considerados os fundadores da sociedade e instigadores da prática religiosa. Na China, a civilização teve seu princípio impulsionada por uma década de famosos filósofos. Entre os acadianos, segundo o historiador-sacerdote Berosio, existiu igualmente um grupo de dez semi-divindades.
Nesta região, com os caldeus, surgiu ainda outra década, derivada do grupo citado acima.
Na Assíria, na Fenícia, na Pérsia, na Grécia e noutros povos, a década divino-patriarcal deixou traços indeléveis na vida social e religiosa desses países, ainda que, em cada um, conservasse os nomes regionais.
Diante de tantos apelativos sacros, reverenciados por infinito número de gerações, quedam-se extasiados os homens de hoje à procura das causas que determinaram a existência dessas dez entidades, simbólicas ou reais, cujos nomes todos os povos do Velho Mundo conservaram carinhosamente nos anais da sua História.
Hoje, os estudiosos preferem aceitá-los como símbolos das constelações, apesar da obstinação de alguns teólogos que, fechando os olhos a todo o raciocínio, continuam a aceitá-los como personagens reais1.
Fundamentado na teoria simbólica, já Roberto Brown Júnior havia publicado dois extensos artigos em The Academy, de 1 e 15 de Junho de 1893, na tentativa de aprofundar essa simbologia. Elaborou um quadro no qual assinala as principais estrelas de cada constelação ao lado dos nomes dos patriarcas da Caldeia, considerando-os emblemas desses astros.
Incompreensivelmente, a publicação em questão saiu completamente errada nas classificações zodiacais, deslocando as estrelas, incluindo algumas que não fazem parte do Zodíaco, etc. Se o trabalho é inaproveitável, não deixa de ser, contudo, uma bela tentativa para dar a conhecer a simbologia zodiacal.
Há, por certo, na mente do leitor, uma dúvida que é natural: Como podem os dez nomes dos patriarcas simbolizar os doze signos zodiacais?
Vamos explicar.
Todas as cosmogonias aceites pelos povos da antiguidade admitiam uma divisão tripla e outra quádrupla. A primeira, era a superior, celeste, divina e sagrada; a última, era a terrestre, inferior, material e concreta. Na primeira, cuida-se do espírito, da essência das coisas; na segunda, tratam-se dos quatro elementos básicos de que se formou a Criação: Ar, Água, Fogo e Terra.
Por essa razão, os povos antigos dividiam as eras em quatro grandes épocas. Os hindus chamavam-nas: Satya-yuga, Tretya-yuga, Dvapa-yuga e Kali-yuga. Os gregos possuíam as Idades do Ouro, da Prata, do Cobre e do Ferro. Os acadianos representaram essas idades nas figuras de um touro, de um homem, de um leão e de uma águia.
Os caldeus, os hebreus e os egípcios imitaram-nos. Na Índia, há a imagem de Addanari, onde figuram as cabeças de mulher, de leão, de boi e de tigre. No Livro de Ezequiel e no Apocalipse, está, perfeitamente copiado, o simbolismo acadiano. A soma destas quatro idades completa o numero dez (1+2+3+4=10), sendo, portanto, o número 10, ou década, a ideia perfeita de toda a Criação2.
Outro factor importante no emprego da série de dez patriarcas consiste na priitiva necessidade de ocultar às pessoas vulgares o número das doze constelações do Zodíaco. Para o povo, a "cintura-celeste" era representada pelos dez nomes seguintes: Carneiro, Touro, Gémeos, Caranguejo, Leão, Virgem, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes, ocultando-se, portanto, a existência dos signos da Balança e do Escorpião. O signo da Virgem consistia na amálgama consequente da assimilação dos dois signos esotéricos. Esse costume baseia-se na crença que admite o primeiro homem como sendo andrógino, isto é, possuindo os dois sexos simultaneamente. O signo da Virgem, ao incluir em si o signo Escorpião, representava esse hermafroditismo. Por esta razão, ainda hoje, na astronomia e na astrologia, se usam símbolos semelhantes para os dois signos.
Nos ladrilhos de cerâmica acadianos, estudados no século passado, encontravam-se os signos da Virgem e do Escorpião, separados, determinando o período da separação dos sexos, citado nos livros sagrados3. O signo da Virgem representava o género feminino e o do Escorpião, o masculino. Esta separação do signo andrógino originou a vulgarização de onze constelações, mantendo-se, porém, oculto, o signo da Balança.
Arago (Astronomie Populaire, I, pág. 135), descreve as dificuldades surgidas para os arqueólogos: a assimilação da Balança pelo Escorpião, nos ladrilhos acadianos. Esse problema só foi solucionado quando se encontrou um ladrilho no qual estava registada uma série de observações relativas ao planeta Vénus. Nesta peça de argila, os dois signos estavam reunidos sob o nome de Escorpião, porém, o seu autor teve o cuidado de dar o nome de "Ferrão do Escorpião" ao signo da Balança.
Finalmente, os arqueólogos puderam determinar as doze constelações zodiacais nos ladrilhos acadianos. É desde então que se costuma representar o signo do Escorpião pelo gancho que lhe termina a cauda.
O nome "Stathmos" (Balança) apareceu muito depois, separando já definitivamente os dois signos andróginos – Virgem e Escorpião. O seu nome, em grego, baseia-se na sua posição de intermediário entre os signos superiores (de Carneiro a Virgem) e os inferiores (de Escorpião a Peixes).
Dada a conhecer a existência dos doze signos, coube aos iniciados arranjar uma nova estrutura social-religiosa, passando, então, os reformadores a admitir grupos de doze entidades.
Assim, na Índia, os deuses Varuna, Yama, Avana, Surya, Soma, Kartíkeia, Kuvera, Kama, Ganesa, Pulhar, Indra e Agni passaram a presidir aos doze signos zodiacais. Entre os acadianos, coube esta honra a outros tantos deuses. Entre os gregos surgiram os doze deuses maiores: Zeus, Élios, Posídon, Hades, Dionisos, Hermes, Hera, Afrodite, Ártemis, Deméter, Atena e Perséfone. Entre os Hebreus apareceu a série dos doze filhos de Jacob: Rúben, Simeon, Levi, Judá, Dan, Naplitali, Gad, Ascher, Issacar, Zebulon, José e Benjamim.
Entre os romanos, os deuses gregos tiveram nomes locais, como sabemos: Júpiter, Apolo, Neptuno, Plutão, Baco, Mercúrio, Juno, Vénus, Diana, Ceres, Minerva e Prosérpina.
O cristianismo igualmente recebeu esta tradição, conservando-a no número dos doze apóstolos de Jesus: Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago (filho de Alfeu), Simão (o zelota) e Judas (filho de Tiago).
Portanto, fica esclarecida, uma vez mais, a palavra dos mestres, que asseguram que o progresso ininterrupto.
Os seus ensinos são conservados esotericamente, desde tempos imemoriais, nos próprios escritos sagrados lidos pelos povos.
J. B. Dubieux
Notas
1. Max Heindel, Cristianismo Rosacruz, Capítulo IX – As Alegorias Astronómicas da Bíblia.
2. O número dez é formado por l (a Unidade, o princípio de todas as coisas) e O (o círculo da eternidade nas suas diversas manifestações). É o número do ciclo perfeito.
3. Simbolizada, na Bíblia, pela "queda". Cf. Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, pág. 282 e seg., 2ª ed., Lisboa, 1989.
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