EDITORIAL
A Era da Paz
Qualquer que seja a consequência futura da enorme convulsão que se vive actualmente, no mundo e na Europa, é evidente que ela é o prenúncio de uma "nova era".
Já se tomou consciência de que a escravatura e a guerra são irmãs gémeas. E elas estão a ser convincentemente condenadas pela promoção da pessoa humana, pela fraternidade entre os homens e pela solidariedade internacional.
Todavia, prosseguimos ainda como escravos, escravos ingénuos, e não raro pretensiosos, que se julgam homens livres, quando não passam de simples bonecos movidos pelos operadores. Vivemos uma "nova era" de escravatura, talvez tão terrível quanto foram todas as outras do passado, de todos os tempos.
É a escravatura da propaganda, tão poderosa em relação às coisas, quanto às ideias. Na verdade, somos conduzidos e manobrados por ideias e sentimentos que nos são inculcados, que nos fazem agir e marchar obrigatoriamente até à morte. É uma agressão à nossa dignidade, uma manobra contra a nossa liberdade, um verdadeiro crime contra a criatura humana, que nos leva a manifestar certas ideias sem, contudo, sermos capazes de ter pensamentos próprios.
É verdade que o tronco, a roda, e outros instrumentos de tortura, foram substituídos pela televisão, rádio, jornais e outras hidras de mil cabeças, das quais se torna difícil, ou mesmo impossível, escapar. As nossas ideias, os nossos pensamentos, as nossas tendências, correm o risco de não serem puramente nossas, mas sim serem-nos enxertadas no cérebro, no espírito, em todo o nosso ser e assim passarmos a agir como pobres bonecos movidos por cordões.
E, em relação às guerras, estamos numa situação absurda. É incompreensível que dela não nos tenhamos ainda libertado. Na verdade, é ingénuo e ridículo que os homens que comandam o mundo possam cometer erro tão brutal, como esse de conduzir as nações à carnificina. Isto é tanto mais ridículo e lastimável, quanto cada país julga ser o outro o culpado, e procure eximir-se de qualquer responsabilidade. Não dá uma impressão de imbecilidade e tolice?
Ora, a paz em que as nações podem convergir eficazmente, não é outra senão a paz activa, cujo dinamismo lhe vem do conhecimento, do máximo de clareza para cada um dos seus cidadãos. "Conhece-te a ti próprio"1, é um dos mandamentos fundamentais que têm em mira o fortalecimento e a felicidade do homem e, portanto, a eliminação de todas as formas de escravatura e da guerra.
De facto, tudo se resolve com a educação. Hoje, o filho na família e o aluno na escola são educados para a submissão... ou rejeição da autoridade. A educação é orientada segundo a ideia-chave da confusão entre o que nós somos e o que nós fazemos. Essa ideia condutora destrói a integridade pessoal. Neste tipo de educação, a responsabilidade consiste unicamente em responder perante o temor de uma autoridade exterior, sem que se assuma a responsabilidade pessoal perante o tribunal da consciência.
É, assim, uma educação para o egoísmo, que orienta para o conservantismo espiritual, para o "fazer" e o "ter", em vez de para o "ser" e o "amar".
O que é preciso, é que a educação ajude a discernir a violência sofrida da violência provocada. A primeira que deve ser atacada é a violência sofrida pelo outro, e não, egoisticamente, a violência sofrida pelo eu. Se não formos em socorro da violência sofrida, do outro, tornamo-nos cúmplices da violência provocada.
Parece ficar claro que só neste quadro se pode iluminar o espírito e romper a cadeia da violência.
F. C.
1. "Conhece-te a ti mesmo para conheceres os deuses e o universo" – famosa frase inscrita no pórtico do templo de Apolo, em Delfos. Foi adoptada como lema pelo grande filósofo grego Sócrates.
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