FILOSOFIA

O Autodomínio

Quem não sabe dominar-se, procura dominar os outros! E o contrário é igualmente verdadeiro: todo aquele que tem domínio sobre si, não deseja dominar ninguém. Não tem necessidade de o fazer.

E, no entanto, ser-lhe-ia facílimo "impor", doce e irresistivelmente a sua vontade. Não lhe seriam necessários esforços para se fazer obedecido. O tirano, o dominador, esses exigem submissão passiva, automática. A criatura humana, que tem domínio sobre si, não aceita nem busca tal submissão, pois sabe que ela é apenas material e sempre pronta a romper-se. Entretanto, essa criatura irá ao infinito, levando após si multidões, porque pode provocar, nas colectividades, a compreensão mútua entre cérebros e corações. Pois, chegados a esse grau, para quê mais obediência imposta, passiva ou resignada? Todos atingirão a perfeição do autodomínio. Pode-se ir ainda mais além: progride-se, mesmo sem necessidade desse domínio próprio, porque se é impelido, suave e seguramente, pela força do amor. Essa é a grande potencialidade do Cristo. Enquanto César era obedecido cegamente e cegamente odiado, Jesus é amado e obedecido espontaneamente, em grau e essência, através do tempo e do espaço.

Todos os que têm por missão material dirigir devem compenetrar-se dessa verdade. Compenetrar-se, isto é, fazer essa verdade penetrar em si e aí viver: no coração e no cérebro; nos músculos e no sangue, nos nervos e nos ossos. Que cada movimento, ideia ou palavra seja estritamente o necessário e controlado, com rigor, pela vontade.

Até os pais, os educadores por excelência, todos, enfim, devem possuir, em primeiro lugar, o domínio de si próprios. Há pais que se julgam com o direito de viver sem serem contrariados, sem se privarem de nada, sem abafar a ira, a impaciência, a preguiça e a ignorância. Alegam já terem conquistado esse direitos por serem adultos. Ora, isto só desperta nas crianças o desejo de crescer para mais depressa fazerem o que muito bem quiserem! Eis uma educação errada, capaz de levar a criança a crer que o domínio deve ser exercido contra os fracos – neste exemplo, os filhos. Há educadores (e quantos encontramos nas escolas infantis), que vivem numa desordem pessoal cuidadosamente ocultada mas que são de extremo rigor com as crianças, sem nada conseguirem delas porque a disciplina externa que pretendem impor devia corresponder ao seu modo de sentir, pensar e agir na intimidade.

O domínio sobre as coisas materiais não tem, só por si, nenhum efeito sobre o espírito. É o pensamento, que é a fonte de poder, que deve ser o alvo dos nossos esforços. Só há uma força capaz de dominar e conduzir os outros sem rejeição: é o exemplo, que deve estar em harmonia com a nossa maneira de pensar e sentir.

O pensamento que se disciplina, concentra-se e reforça-se. A luz débil e difusa torna-se um foco poderoso, capaz de provocar um incêndio, se for concentrada por meio de uma lente. E é por isso que os grandes condutores da humanidade irradiam uma luz que atrai, vivifica, esclarece e afasta a sombra da ignorância. É por isso que lhes colocam, à sua volta uma aureola simbólica, o resplendor cujo clarão tem origem no espírito de serviço.

Aquele que se domina a si próprio jamais poderá ser dominado, seja por quem for.

Luísa C. Branco




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