EDITORIAL

Novos Horizontes

Nestes dias de vida rápida e rotineira, raramente reservamos tempo para a contemplação de metas e horizontes. Os modelos costumeiros de rotina e das convicções populares ajustam-se perfeitamente à maioria das nossas preocupações diárias. Estamos aparentemente resignados a aceitar as coisas pelas suas aparências. A chapa-batida dos faladores é moeda aceitável. A ênfase no próximo e no imediato reduz a nossa preocupação acerca do que se estende mais longe, no conhecimento, no tempo e no espaço. Esses novos horizontes não nos preocupam. Nem sequer pensamos neles. As grandes transformações que já se têm operado são quase insignificâncias que apenas tocaram de leve os nossos horizontes imediatos.

Agora, porém, estamos em condições muito mais graves, que já se fazem sentir. A influência daquelas modificações não será apenas social, sobre a política, os valores sociais, o trabalho, etc. Atingirão directamente o ser humano. É por isso que o futuro deve ser uma das preocupações de todos nós. Poder-se-á dizer mesmo que as transformações que se devem operar nas próximas décadas serão de tal modo importantes como as experimentadas durante o lento processo evolutivo desde o animal até à experiência humana.

O mais grave é que muitas dessas transformações poderão actuar em detrimento do ser humano, automatizando-o, desumanizando-o, diminuindo-lhe as suas capacidades superiores, aquilo que afinal o trouxe até ao lugar que ocupa na escala evolutiva. No entanto, poucos reconhecem este perigo. De importância visível, são as transformações no campo das comunicações. A tecnologia em geral, e as comunicações electrónicas em particular, podem ter grande importância no progresso, particularmente pela possibilidade de difusão de conhecimentos. Mas é natural duvidar de a dependência de um constante fluxo de informação, com a consequente perda da capacidade crítica, não ser um problema semelhante ao da dependência de outros tóxicos.

O cinema, a televisão, a internet e outros recursos das comunicações tornaram o mundo demasiado pequeno e igual. Criaram a conhecida "aldeia global", como lhe chamou McLuhan. As novas conquistas são conhecidas quase no momento da sua descoberta. O pior é que, raramente, mesmo contribuindo para o nosso conforto, elas enriquecem os nossos atributos humanos, os atributos essencialmente humanos. Poucas vezes ajudam a desenvolver a nossa tríplice natureza, espiritual, intelectual e física, e a fazer da vida uma obra prima, isto é, uma conquista, pela excelência, do direito ao ar que respiramos, ao pão que comemos, aos prazeres espirituais que a vida tão largamente nos proporciona.

Vemos agora o que há de errado com os velhos horizontes. Há elevado número de pessoas que ainda vive nos estreitos limites das suas velhas maneiras de pensar. Acreditam em fantasias absurdas, julgando-se capazes de se adaptarem às coisas da vida e do mundo actual, permanecendo nas suas antigas e cómodas convicções. Não procuram saber os motivos por que as coisas são como são, por que se revestem desta ou daquela forma, e qual a sua origem. Não se importam com o facto de a mais insignificante das coisas ter a sua razão de ser. O seu progresso é trôpego e incoerente por causa da indiferença pela acção dos "meios ocultos de persuação", como a televisão, a publicidade, ou qualquer outro meio de comunicação de uma sociedade livre. Aceitam uma boa parte da superinformação disponível, com os sentidos embotados, sem reflectir acerca do que ela tem de subinformação e de informação-ficção.

Para o aperfeiçoamento do carácter e para a verdadeira felicidade da vida, é necessário mais do que isso. Aquilo de que precisamos, é de andar alerta e prevenidos contra o que possa diminuir a nossa dignidade, e termos em conta o perigo da influência negativa da rotina prosaica da vida actual sobre a finura das nossas faculdades espirituais. O que é preciso, finalmente, como disse Érico Veríssimo, é "defender-nos de toda a palavra, de toda a linguagem que nos desfigure o mundo, que nos separe das criaturas humanas, que nos afaste das raízes da vida".

F. C.




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