EDITORIAL
Adelaide da Conceição Santos Pardal de Brito
Deponho, com profunda tristeza, tremor e respeito, a respeito dessa formidável rosacruciana, Adelaide de Brito, minha querida esposa.
Sim, ela participou inteiramente, intensamente, das dificuldades e objectivos da Fraternidade Rosacruz de Portugal. Conhecia-a melhor que ninguém. Por ela viveu. Por ela sofreu. Por ela deu inteiramente a sua vida. Eis uma mulher que se entregou à Verdade. A Adelaide deu provas de fortaleza admirável, mas sempre despojada de qualquer aparato acidental, de títulos e honrarias mundanas, dos elementos acessórios que não raro dificultam e iludem o progresso do espírito. Ela foi um dos nossos. Ela quis beber até ao fim o cálice reservado ao apóstolo. Sofrer, para ressurgir. Ir até ao fundo do sacrifício, conhecer a alegria e a dor, a vida e a morte. A Adelaide, com a sua invulgar dimensão espiritual, amava o convívio com todos os que procuravam a Fraternidade. Foi sensível como poucos à dor alheia, o que a fazia sentir-se irmã dos outros, responsável pelos outros. Agiu sempre, até ao fim, com uma simplicidade e resignação absolutas. Coração misericordioso inclinou-se espontaneamente para o serviço como as vergônteas para a luz. E sofreu a sua própria mágoas em silêncio. Em silêncio! É nele que se revela o pudor das almas sábias e prudentes. Dentro dele cabe tudo o que é grande: o amor que não se exterioriza, o sonho e a beleza que não se extingue, a cultura da rosa mística oculta no fundo dos corações. Eis o que me comove e impressiona. A Adelaide, mãe extremosa, conheceu bem as minhas fraquezas para as transfigurar através do dom da sua participação. Quando tudo parecia perdido, ei-la que caminhava ao nosso lado, como uma companheira, uma peregrina, uma irmã. Num gesto mínimo, num olhar súbito de compaixão, numa palavra de amor e coragem. E o nosso coração, de repente, abrasava-se. Ei-la. Era a Adelaide que nos impregnava de coragem para recomeçar tudo, para contrariar a adversidade, para vencer o desespero, o que lhe conferia aquela dimensão espiritual, ampla e profunda, que é tão invulgar. Maior do que eu, és tu sem dúvida. Maior porque muito melhor. Tu foste boa continuamente e eu, querendo sê-lo muitas vezes, poucas o fui, na realidade. Venero-te. Venero em ti a beleza única, a beleza espiritual.
Claro que a morte não é a rainha do pavor. Claro que ela não consiste no fim do destino humano. Claro que ela não é mais do que uma simples mudança de ambiente e de estado. É certo que nada perece e nada morre, a não ser o revestimento, a forma, o invólucro carnal, em que o espírito, encarcerado, se debate, luta, sofre, aperfeiçoa-se; morre a forma, mas rebrilha a alma. Tudo isto é verdade. Todos os dias nos confrontamos com estas realidades. Mortos andamos nós, que nos julgamos vivos; mortos na vida, para ressurgir vivos na morte. Mas como impedir o desfilar dos dias vazios, em que a memória só enxerga, através das lágrimas, as visões do passado comum? Como evitar as bagas do pranto, quando tudo repousa em silêncio profundo? Como impedir que a dor saia, rouca, do coração angustiado? Afinal, Cristo, na sua dimensão humana, também chorou diante do sepulcro de Lázaro.
É nosso dever registar, com a mais clara sobriedade, o retrato desta rosacruciana, discípula de Francisco Marques Rodrigues, e expressar aqui a nossa gratidão e a homenagem e a de quantos a conheceram. O seu exemplo tornar-se-á permanente por força da integridade da sua existência e pelo elevado conceito em que a tiveram todos quantos a conheceram.
E eu, espero, serenamente, o reencontro. Juntos, Adelaide, continuaremos o projecto iniciado.
A todos quantos nos acompanharam nos dolorosos momentos, – e muitos foram – vivendo intensamente os ensinamentos rosacrucianos, expressamos a nossa gratidão.
Francisco M. de Brito Coelho
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