EDITORIAL

Crítica da Tolerância Pura

O bem-fazer de Jesus, fruto generoso da sua alma grandiosa, tornava-o amável e compreensivo com os pobrezinhos, seus semelhantes, com os simples, com os de boa vontade. Mas com os escribas e fariseus – raça de víboras! – e aqueles que não eram "nem frios nem quentes", increpava-os, serena mas firmemente, usando uma terminologia pouco benévola e nada consoladora, como a do Baptista nas margens do Jordão (Mt 3, 3-20): hipócritas, sepulcros branqueados por fora e cheios de espurcícia no interior; estultos, cegos guias de cegos! Não havia no seu coração indulgência amiga para a maldade nem a hipócrita estratégia conciliadora de opostos antagónicos. E até numa ocasião tomou diante da incredulidade irreverente uma atitude terrível e eficaz: fez um látego, entrou no templo, e expulsou os que lá faziam negócio, dispersou as reses da Páscoa (Jo 2, 15), lançou por terra mesas e cadeiras (Mt 21, 12-14).

É que o sacro fogo que alimenta atitudes como esta descende em linha recta do conhecimento e da serenidade de quem pode afirmar "eu sei". Por isso, ao procurar manter a sua integridade nos juízos morais, o rosacruciano entrará inevitavelmente em conflito com os guardiães da moralidade já estabelecida ou da que se vai enraizando pelo enfraquecimento dos costumes e da moral, quer do ponto de vista religioso como do civil. Talvez até se encontre mais vezes sintonizado com aqueles cujos pontos de vista filosóficos parecem diferentes dos seus, em que o theos não seja o de um Deus Criador, mas cuja sensibilidade os leva a dar prioridade ao progresso espiritual das pessoas e ao ensino lógico contra qualquer forma de heteronomia, mesmo a do supranatural, Porque muito destes talvez estejam a tactear já um caminho para uma nova espiritualidade, à qual o rosacruciano deve responder com um diálogo inteligente e não com mera repetição de textos conhecidos. É neste sentido que deve ser entendida a tolerância, que é distinta da permissividade, como assinalou o próprio Jesus em Jo 8, 5-11. Neste passo bíblico, Cristo mostra compreender a razão do erro (pecado, diz-se no texto), mas não justificou a falta, isto é, não tolerou o erro. O que é preciso é não confundir a tolerância com a justificação, aceitando certas premissas religiosas como factos autênticos, mas com validade apenas dentro do "sistema religioso" a que pertence – como a Lei para os Judeus, que era o molde a que tudo tinha de se conformar. E, no entanto, chegou o dia em que a lei havia de ser motivo de escândalo para os que desejassem saber mais. As premissas religiosas ou filosóficas de hoje em dia são algo como a pressuposição da Lei que se interpunha entre o judeu e o Evangelho – e podem levar-nos a deixar a porta da nossa razão aberta para incorrer nos mesmos erros.

Por isso, quando a tolerância se confunde com a permissividade, ela está corrompida. E quando a corrupção começa na mente, na consciência, nas necessidades espirituais do indivíduo moderno, quando interesses heterónimos o absorvem antes ainda de o submeter à servidão do dogma, então o combate à sua desumanização e cristalização deve forçosamente iniciar-se onde começa: lá, onde a falsa consciência toma forma (ou é sistematicamente formada), isto é, sem partilhar da linguagem e do espaço que lhe são próprios. O rompimento com a falsa consciência, por conseguinte, pode proporcionar o fulcro de um crescimento espiritual mais amplo – ainda que num lugar infinitamente pequeno, para sermos exactos, mas de cuja ampliação depende a possibilidade de mudança e de crescimento espiritual no século actual. Na medida em que esse crescimento for contrariado pelo peso da tradição sobre as iniciativas, o progresso será diminuto. É que as ideias feitas viciam a imparcialidade e a objectividade; a menos que o estudante tenha aprendido antes a pensar em termos opostos, ele sentir-se-á inclinado a colocar os novos factos no contexto dos valores religiosos predominantes, prejudicando a aquisição e a comunicação de conhecimentos novos por lhe ficar vedada a purificação e o isolamento dos factos no contexto da verdade integral.

Há, por certo, pontos de vista que são comuns; mas a nossa visão do passado, do presente e do futuro do espírito humano é sobremaneira diferente. E é nesse caminho que o rosacruciano se deve encontrar, se quiser dar alguma coisa aos que por ele avançam. Na espiritualidade, como em tudo o mais, o segredo da nossa saída do pântano da estagnação não está, em meu entender, num "regresso às origens", mas numa reafirmação das nossas convicções, na certeza de que todos os nossos gestos e movimentos serão alvo da atenção alheia. A responsabilidade decorrente de tal atitude será enorme e implicará a necessidade de agir bem e em sintonia com os ensinamentos dos Irmãos Maiores, em todos os momentos vividos, para assim servirmos de modelo das virtudes da nossa ética1. Agindo assim, de forma científica, como ensina Max Heindel (entendo-se como "ciência" tudo aquilo que for provado pelo raciocínio válido e pela prova; as intuições da literatura e da filosofia tornam-se parte da ciência quando são provadas; só quando os pensadores se recusam submeter à discussão e à verificação se separam da ciência), construiremos o futuro espiritual sobre alicerces sólidos. De outro modo, os nossos ouvintes ficariam encantonados, como têm andado até aqui, numa escolha cada vez mais estéril entre uma e outra doutrina. Ora, é este o ponto crucial da mensagem rosacruz e também o ponto em que mais facilmente encontrará resistência na ortodoxia religiosa, mais empenhada nas categorias tradicionais. E isto é verdade não só ao nível dos eruditos, mas também a nível popular, donde bem depressa poderão surgir acusações de querer destruir, desta forma, certos valores tradicionais.

Por isso, o segredo para sair do pântano, repetímo-lo, está em ocupar o nosso próprio lugar, ao lado dos que procuram, a sério, encontrar um sentido para as coisas, etsi deus nom daretur, ainda que eles suponham que Deus não esteja lá. O segredo, repetimo-lo, está, afinal, em nos juntarmos aos que, na estrada de Emaús, se encontram confusos e, aí, no encontro do homem com o homem e na partilha do nosso pão comum, com estes gestos e sob eles, descobrir o incondicional com o Cristo das nossas vidas.

F. C.

 

1. Max Heindel, Ensinamentos de Um Iniciado, F.R.P., Cap.VIII, LxŞ, 2001.




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