EDITORIAL

Jogos de Guerra

A raiz lúdica da actividade humana é uma realidade bem conhecida. Nas actividades infantis adquire uma importância fundamental. A criança tem absoluta necessidade de brincar. Tudo isto já foi demonstrado de maneira categórica pela observação médica, e também pela psicologia, pedagogia e sociologia. Brincar é a única actividade autêntica e instintiva que a criança pode exercer, sendo o resto, a educação e a imitação, processos de formação do carácter.

A influência dos brinquedos é tal que se torna necessário dar-lhe muito mais atenção, sobretudo àqueles que estimulam a agressividade. É preciso que o brinquedo e os jogos não levem a criança a confundir a distracção com a destruição, o prazer com o sofrimento e a guerra com o jogo. O que parece da maior evidência hoje, é que, se éticamente se considera inadmissível que se confundam uns com os outros, o que se observa é a impertinência de tal confusão. Com o desenvolvimento social a violência e a crueldade adquiriram um certo estatuto de naturalidade com as séries televisivas e jogos para computadores onde a violência é a nota dominante.

O progresso "tecnotrónico", como lhe temos chamado, é uma realidade. Todo e qualquer indivíduo acabará por ser afectado pela técnica e pela electrónica. Tudo isto é impressionante e vastamente explorado pelo comércio. O mais grave, todavia, é que muitas dessas actividades parecem agir em detrimento do ser humano e conduzir à diminuição das suas qualidade superiores, daquilo que, afinal, o deve ter levado à situação actual. E bem poucos já conseguiram reconhecer que esse caminho pode estar errado, justamente como consequência do nosso progresso material, daquilo que temos conseguido inventar e descobrir. Na verdade, estamos a ser desumanizados, o que talvez represente o sintoma mais grave com que o desenvolvimento nos pode ameaçar.

Com a utilização dos computadores, o princípio agressivo da guerra foi aplicado à técnica do jogo num processo em que o aspecto lúdico se afasta do prazer da competição emocional para se situar a um nível diferente, mais cerebral, frio e menos sensível. Há uma certa regressão, passando a criança ou o jovem a agir como algumas espécies actuais de insectos – caso das abelhas e das vespas – que atacam de modo instintivo e meramente automático.

Nestes jogos, que associam a violência ao jogo, abstraem-se os factores humanos e a guerra, cujos ingredientes são inegavelmente idênticos aos do jogo 1 , torna-se um simples acto de destruição de coisas ou de símbolos, aparentemente inofensivo.

Disse Max Heindel: "Não é necessário emitir qualquer espécie de argumentos para provar que a última guerra foi muito mais destruidora do que qualquer outro conflito registado na História. A explicação é simples: esta luta foi levada a cabo por homens de cérebro, superiores aos homens de músculo. O engenho humano, que em tempo de paz havia produzido tantas obras úteis, foi colocado ao serviço da destruição. Pode mesmo afirmar-se com inteira segurança que, se houver outra guerra dentro de cinquenta ou cem anos, é muito provável que a Terra fique despovoada" 2 .

De facto, a comercialização de tais jogos estimula a despersonalização da realidade humana e à abstractização do sofrimento. E o que pode acontecer é que, no futuro, por meio desta abstracção patológica, as decisões do adulto sejam tomadas ignorando totalmente os seres humanos, os objectos culturais, a riqueza histórica, tornando a guerra uma simples realização mecânica que permite atingir certos objectivos utilizando o terror e, para tanto, recorrendo à violência, à crueldade, à chantagem.

Na perspectiva da evolução progressiva, a convergência da Humanidade começa já a ser um facto. Principiou a despontar no horizonte por volta de 1945, nos escombros da guerra mundial. A unidade planetária está já a realizar a planetarização técnica e, em boa parte, a científica. A instrução universaliza-se. As várias civilizações interpenetram-se e sentem a sua a interdependência mútua. E entre os factores dessa convergência assinalamos o económico, o social, e o espiritual.

Mas, o que comanda o desenvolvimento global do mundo, não é, todavia, a estruturaa económica, mas a ideia: toda a revolução válida é fruto de uma ideia que se pôs em movimento e que não pode travar-se. Na sua base deve estar o respeito pela pessoa humana e o apreço pelos seus valores que, universalmente, já ninguém ousa sequer pôr em dúvida. Por isso, os efeitos práticos formadores – ou deformadores – dos brinquedos e jogos infantis, devem ser analisados e envolvidos num juízo ético de cunho universal que, inevitavelmente, impedirá reduzir os seres humanos a coisas ou números. Só deste modo se evitará que a criança se transforme num actor grotesco em cena no palco lúgubre da violência mundial.

F. C.

Notas

1 Johan Huizinga, Homo Ludens – O Jogo Como Elemento da Cultura, Ed. Perspectiva; S. Paulo, 1999, p. 101 e seg.
2 Max Heindel, Ensinamentos de um Iniciado, Fraternidade Rosacruz de Portugal; LxŞ, 2001, p. 80.




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