FILOSOFIA
Recordação de Vidas Anteriores
II Parte
A Sua Importância. Interpretações Possíveis(continuação)
Desordem da Identidade de Género
As desordens da identidade do género (também conhecidas como disforias de género), tais como a homossexualidade, têm sido atribuídas às influências parentais, durante a infância (40). Não existe, porém, qualquer prova de que esta condição seja provocada por factores ambientais. Tal como na homossexualidade, há factores biológicos, como por exemplo o síndroma de Klinfelter, que são relatados em alguns casos mas não noutros (41).
As afirmações dos pacientes possuem talvez pouco valor explicativo em questões de natureza etiológica. Apesar de tudo, vale a pena referir que três pessoas que fizeram operações de mudança de sexo (e cuja vivência foi relatada por si ou pelos seus pais em revistas de divulgação) não consideravam os seus pais responsáveis pela convicção que tinham desde tenra idade de que estavam de certa forma num corpo com o sexo errado (42 a 44).
Nenhuma destas três pessoas afirmava lembrar-se de uma vida anterior. Fui consultado por duas pessoas que desejavam fazer uma operação pai a mudarem de sexo, e elas também tinham a certeza que os seus pais nada tinham feito para provocar a sua disforia de género.
Elas pensavam que a sua forte preferência de género derivava de uma vida anterior, embora não se lembrassem dela. A sua explicação para a condição presente pareceu plausível, mas permaneceu sem qualquer confirmação.
Rejeição dos Pais
Muitas das crianças que dizem lembrar-se de uma vida anterior afirmam ter outra família. Por exemplo, uma criança pode dizer à sua mãe: "Tu não és a minha mãe verdadeira. A minha mãe verdadeira está noutro lugar..." e nomeiam uma comunidade. A criança pode fazer comparações que desqualificam a mãe biológica, que ela considera fingidora, comparando-a com a que considera mãe "verdadeira", dizendo, por exemplo, que esta última é mais bonita ou mais generosa. Crianças como estas exigem muitas vezes ser levadas à outra família e podem até concretizarem a ameaça de lá irem sozinhas; algumas concretizaram, de facto, a ameaça por falta de atendimento do seu pedido.
Os psicólogos clínicos e os psiquiatras conhecem desde há muito pais que se referem aos filhos como se fossem pessoas estranha à família. A alegação por parte de uma criança de que a sua família biológica não lhe pertence, era bem conhecida na primeira década do século XX. Freud (45) escreveu um artigo acerca deste fenómeno e interpretou-o de acordo com as suas teorias, como sendo uma fantasia. As crianças alienadas, como estas, podem demonstrar pouco ou nenhum afecto para com os pais que, por seu turno, demonstram grande afecto por elas.
Kanner (46) observou que as crianças que eram mais tarde identificadas como autistas frequentemente não reagiam quando os pais as pegavam ao colo.
Algumas das crianças afirmam lembrar-se da sua identidade numa vida anterior, que relacionam com uma pessoa falecida da sua própria família: um dos pais ou irmã da mãe. Nestes casos, a criança parece, lembrar-se, efectivamente, da vida deste parente. Em tais situações a criança adopta, com frequência, para com os seus pais, uma atitude de igual para igual, se não mesmo de superioridade. Por exemplo, pode chamar o pai (ou a mãe) pelo nome que lhe era dado pelos avós, em vez de o tratar por "pai" (ou "mãe"). Estas crianças, às vezes, demonstram particular afecto ou antagonismo para com outros membros da família – o que correspondem a atitudes semelhantes da pessoa falecida para com essas mesmas pessoas.
Até os pais de crianças que não se lembram de uma vida anterior comentam, por vezes, atitudes do mesmo género nos seus filhos. Uma das mães disse, por exemplo: "a minha filha comporta-se comigo como se fosse a minha tia, não a minha filha".
Manifestações Precoces de Diferenças de Temperamento
Os informadores de alguns casos de crianças que dizem lembrar-se de uma outra vida, às vezes reparam que elas apresentam características temperamentais comuns às da pessoa falecida. Por exemplo: podem manifestar tendência para a hiperactividade. Em três casos que estudei, tanto a criança quanto a pessoa falecida eram claramente muito reactivos.
Os investigadores da área do temperamento ou da personalidade observaram que os recém-nascidos apresentam diferenças importantes entre si, com poucos dias de vida (47, 48). Charles Darwin, que sistematicamente registou a expressão das emoções nos seus próprios filhos durante a infância, reparou que os rapazes mostravam tendência para atirar objectos, tais como livros ou paus, às pessoas que os ofendessem, enquanto que as raparigas nunca o fizeram (49). Os autores que encontraram estabilidade nas medidas de personalidade ao longo das várias fases da vida até à idade adulta, favoreceram as explicações através de factores ambientais (50, 51) ou biológicos (52). Nenhum, até agora, sugeriu que uma componente temperamental pudesse derivar de uma vida anterior.
Conduta Moral Distintiva Precoce
Entre as crianças que eu ou os meus colegas estudámos, 10 lembravam-se de vidas em que foram marginais ou ladrões. Estas crianças mostraram todas, desde muito pequenas, tendência para se comportarem de uma forma violenta e ou para roubar. Um grupo muito maior lembrava-se de ter sido vítima de assassínio na sua vida anterior e, muitas delas, mostravam, desde cedo, atitudes de vingança para com os assassinos da vida anterior. Várias chegaram mesmo a ameaçá-las de morte. Três delas chegaram a pegar em armas quando viram os assassinos – ou pessoas que evocavam a sua lembrança – na sua aldeia.
Outras crianças lembram-se de vidas em que foram excepcionalmente piedosas, generosas e gentis. Estas mostraram precocemente os mesmos traços. Por exemplo: eram, quando comparadas com outros membros da sua família, mais generosas com os pedintes e mais desejosas de visitar lugares e participar em cerimónias religiosas.
Num estudo sobre crianças delinquentes de Glasgow (8-21 anos) comparadas com crianças não delinquentes, Stott excluiu outros factores que pudessem ter contribuído para a delinquência e concluiu que esta era de origem pré-natal, ou seja que a sua origem estava em algo de prejudicial que aconteceu durante a gestação do bebé (53).
Glueck e Glueck (54), numa investigação de longa duração com crianças da escola secundária entre os 6 e os 14 anos, descobriram que as crianças que tinham comportamentos mais violentos e agressivos na escola tinham maior tendência a mostrarem comportamentos sociopáticos na idade adulta do que as crianças avaliadas como mais bem comportadas. Os autores atribuíram a manifestação precoce do mau comportamento a uma combinação de factores biológicos e sociais.
Coles (55), num livro que aconselhava os pais a começar a educação moral dos seus filhos muito cedo, citava o caso de um bebé de 7 meses que desenvolveu o hábito continuado, depois verificado pela mãe, de atirar o seu biberão para o solo quando já não queria mais leite. A mãe via nesta atitude uma manifestação de prazer que advinha de a obrigar a curvar-se para recolher o biberão. Coles mostrou-se surpreso pelo facto de o comportamento de uma criança tão jovem indiciar já tão tal grau de egoísmo, mas não deu qualquer explicação. Podemos admitir outra explicação para este comportamento mas concordo com Coles acerca da possibilidade de se poder distinguir já nesta idade os rudimentos do comportamento moral, mesmo antes de começar a influência parental.
Sinais de nascimento
Há crianças que dizem lembrar-se de vidas anteriores que têm, frequentemente, sinais de nascimento que correspondem a feridas ou a outros sinais na vida alegadamente recordada. Numa série de 895 casos, recolhidos em nove países de diferentes culturas, 309 (35%) tinham estes sinais de nascimento (56). Os sinais de nascimento destas pessoas só muito raramente são simples manchas de hiperpigmentação – que todas as pessoas, de uma forma geral, podem ter. A maioria apresenta profundas escaras que não têm, regra geral, qualquer pelo ou cabelo. Algumas são hipopigmentadas. As que são planas e hiperpigmentadas são usualmente maiores do que os sinais comuns e frequentemente localizadas em zonas pouco vulgares, como a cabeça, as pernas ou os pés.
A correspondência entre os sinais de nascimento e feridas ou outros sinais no corpo da pessoa falecida foram verificados em documentos médicos, usualmente post mortem, em 43 dos 48 casos (esta série incluía 6 casos com um defeito de nascimento, os restantes casos tinham sinais de nascimento (56)).
Pasricha (19) publicou relatos de 10 casos adicionais (2 com defeitos de nascimento e 8 com sinais de nascimento), entre os quais 6 tinham documentos médicos comprovativos.
Alguns dos sinais de nascimento destes casos mostram detalhes pertinentes que reduzem a probabilidade de a semelhança resultar do mero acaso. Em 18 casos, nos quais a morte na vida anterior havia sido provocada por um ferimento causado por tiro de pistola, a criança apresentava duas marcas: uma, correspondia ao ferimento causado pela entrada do projéctil, e a outra, do lado oposto, à saída do mesmo. Em 14 destes casos uma das marcas, ou sinais, era visivelmente maior do que a outra, o que está de acordo com o aspecto habitual destes ferimentos: o que é provocado pela entrada do projéctil é mais pequeno e bem definido do que o outro, maior e de contornos irregulares.
Em 20 casos conhecidos, o cadáver tinha sido marcado por um dos presentes, quase sempre da família, com uma substância corante. Um bebé que nasça mais tarde, na mesma família, pode apresentar um sinal de nascimento no mesmo local onde o corpo havia sido marcado; alguns destes bebés, quando começam a falar, apresentam memórias da vida da pessoa em causa (56). Dois colegas meus investigaram recentemente 18 casos adicionais deste tipo, que serão em breve publicados.
(Continua)
Ian Stevenson
Prof Cat. da Universidade de Charlottesville, Virgínia
E. U. A.
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