EDITORIAL

Agir para Ensinar

Para a maioria das pessoas a vida revela-se extraordinariamente simples. Basta-lhe repartir a sua existência por várias ocupações, domésticas e profissionais, e depois confiar ao sono a reparação do corpo físico. E tudo isto sem que se lhe aflore, talvez, a questão do porquê das coisas, da vida toda ela. Aceita sem pestanejar as convenções, os lugares-comuns, esquecendo a própria realidade humana e os valores que a redimem e elevam. Vive na procura do prazer fácil pela veneração das coisas e dos objectos, entregue à avidez hedonista do mundo, ao seu apetite de exploração e açambarcamento e, por tendência natural e não cristã, toma o mundo como o lugar de divertimento e de prazer. Mesmo quando julga participar nos sofrimentos dos outros, o que faz é torná-los adoráveis pretextos para se enternecer sobre si própria, para se envaidecer por actos sem pureza de intenção. Ensaia relações de domínio e de sujeição e, nestas condições, aquilo a que é tentada a chamar "altruísmo" não passa de exploração espiritual de outrem, de exercício de influência ou de poder sobre alguém, numa perspectiva moral utilitarista, em que o "útil" não se refere aos outros, antes a si próprio. Pobre e quem pensa assim, vítima da sua vaidade, da sua ignorância ou da sua ilusão.

Se, por um lado, o homem não deve limitar-se a cumprir natural e passivamente as leis da evolução biológica, também não deve, por outro, abandonar-se aos instintos do momento, procurando apenas o que possa haver de melhor para o seu bem-estar. E é preciso ainda que não se consagre a lutas factícias na ânsia de assegurar o triunfo sobre realidades exteriores, o prestígio pessoal e até, quantas vezes, o domínio dos outros. Deve é espiritualizar-se e espiritualizar, ir intervindo activamente, com os seus conhecimentos, sobre o eu e o mundo, numa perspectiva de serviço, mas sem nunca se emparedar na volúpia do domínio.

É certo que não se pode ser humano sem a experiência do erro. "É a errar que aprendemos!" O desenvolvimento da nossa consciência faz-se pelo método do ensaio e do erro. Poucas vezes agimos bem e acertamos. Mas a consciência dos nossos erros e pequenez deve comover-nos e deixar-nos comovidos com os erros dos outros. É assim que poderemos aprender e a ter compaixão (a palavra latina compati significa "sofrer junto"), misericórdia (o latim mittere cor traduz-se por "enviar o coração") e disponibilidade para ajudar os outros, em vez de nos ensoberbarmos numa espécie de teomania, como se nos julgássemos deuses. É claro que a nossa compreensão – ou, se lhe quisermos dar outro nome, a nossa tolerância – supõe sempre a existência de limites protagonizados pelos valores, ideais e disciplina que defendemos.

Aquele que sabe, diz o Conceito Rosacruz do Cosmo1, por outras palavras, age para ensinar e fazer agir. A sua razão de ser consiste em dar para enriquecer os outros – como se escutássemos a pitonisa: "O que deres aos outros ser-te-á devolvido multiplicado".

O papel da filosofia rosacruz, neste conjunto de processos espiritualizadores, é o de constituir-se orientação da cultura em geral, de fundamentar através desta o progresso e de servir de meio de evolução do cosmo, no qual se contém a própria evolução do homem, esclarecendo as relações que se estabelecem dentro dele e que ele estabelece com os outros no mundo, e, ao mesmo tempo, iluminar, as grandes vias de libertação espiritual.

F. C.

 

 

1Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, F.R.P., 3ª ed., pág. 93-96




[ Revistas | Índice | Seguinte ]