EDITORIAL

Amor Profanado

De repente, o interesse pela criança tornou-se de tal forma impressionante que alguns pedagogos e psicólogos caíram no "pedo-centrismo", que considera a criança como o próprio centro de gravidade do mundo!

Esta concepção simplista é própria, naturalmente, das almas cândidas e dos espíritos superficiais. Na realidade, toda a criança traz ao nascer um património pessoal de tendências, de temperamentos – que são a base do carácter – de memórias, etc., em maior ou menor dose, conforme os casos, que a hereditariedade não pode explicar.

É em função destes elementos que se deverá estudar e ajudar a criança, para a compreender, para a conduzir e para a melhorar.

Se os destinos do mundo dependem da direcção que se marcar à criança e da educação que se lhe der – De meninos se fazem os homens, disse Max Heindel1 – compreende-se bem como o conhecimento infantil desempenhará, cada vez mais, um papel fundamental.

Reside aqui a primeira dificuldade. O período infantil é substantivo; é em grande parte a chave para a compreensão dos períodos subsequentes que, por ele, são preparados e condicionados. Mas não se tem dado suficiente importância ao facto de a criança imitar, nesta fase da vida, muitas vezes sem saber que imita e sem querer imitar.

Não deixa de ser contraditório, por isso, que, ao mesmo tempo que estuda e enaltece a criança, a dinâmica social mostra ignorar, na sua educação, a importância do exemplo e a escala de valores e equilíbrio social que se deseja alcançar.

O problema impõe-se como extremamente complexo, como está por demais demonstrado, sobretudo pelos programas que, nos domínios da política e da economia, cogitam sempre esta questão, embora sempre mais como objecto de promessa. A sua realização, no entanto, é sempre acompanhada de decepções, quando não de revoltas. Põe-se uma pergunta: quem é, ou quais as forças, que, nos bastidores impedem a realização dos programas? A questão é complexa. Para aligeirar a resposta, diremos que na sociedade moderna, cujo nome de guerra é sociedade de consumo, que se caracteriza pelo desenvolvimento dos meios materiais e pela proliferação de objectos económicos, o mundo inteiro é transformado num centro comercial. Torna-se cada vez mais um mundo sem qualquer sentido de história ou de continuidade cultural, funcionando contra a profundidade pessoal e auto-reflexão crítica. Todos os comportamentos são influenciados. Até nas escolas, que se transformam em estabelecimentos de uma indústria de entretenimento, com alunos a assumirem o papel de consumidores ou clientes a quem é preciso agradar. E, naturalmente, o comportamento sexual. A mobilização comercial tende a apresentar-nos a sexualidade como um artigo de consumo, com o carácter de divertimento e, portanto fora do contexto biológico-social e de toda a responsabilidade recíproca de dois interessados unidos por uma relação sentimental.

Esta liberdade sexual não é em nada o fruto puro e bem compreendido do conhecimento. Pelo contrário, é um novo género de opressão. Continuamos escravos, escravos ingénuos e pretensiosos, que se julgam homens livres, quando não passam de simples bonecos movidos pelos cordões dos operadores. Vivemos assim uma nova era de escravatura, talvez tão terrível, tão desumana e perniciosa quanto o foram todas as do passado, imposto pela lógica consumista. O que é verdade é que os velhos padrões tradicionais, da moral e da sociedade, têm sido solapados e estamos diante de um mundo novo, principalmente de um ser humano novo, diferente pelas suas exigências culturais e possibilidades técnicas e sociais. Estamos diante de problemas graves e temerosos, que tanto pode ser o consumo de tóxicos, quanto a alimentação inadequada, em geral prejudicial pelo seu artificialismo, como pela forma incoerente como se pretende usufruir de todas as cómodas criações técnicas que proporciona a civilização, mas, cumulativamente, querer despojar-se de todas as incómodas criações morais da mesma civilização. São questões abertas à nossa investigação, que ganhará em ser realizada no sentido de evitar que a intervenção da razão se sobreponha à natureza, por não perceber que pode desrespeitar o ritmo e a harmonia do conjunto.

Não é cómico ver que brilhantes críticos, quer façam parte de instituições privadas ou ocupem lugares públicos, se levantam contra a imundície pornográfica e a favor da protecção infantil, mas realizando apenas combates de retaguarda, completamente ultrapassados pelos acontecimentos? Parecem lutar contra moinhos de vento, enquanto cartazes, revistas, filmes e programas televisivos e a Internet promovem a separação progressiva da sexualidade e das formas morais tradicionais. E tudo isto a pretexto da liberdade e modernismo.

Devemos estar a parecer ingénuo: esses oradores não apreciam a inocência; é-lhes indiferente, se é que a não depreciam. Parece-nos estar a ouvi-los dizer: "Então supõe possível, mesmo reprimindo draconianamente a pornografia, que as crianças de hoje sejam assim tão ignorantes dessas coisas como as de há vinte ou trinta anos?".

Ao que respondemos: "É certo que a inexperiência infantil, com a sua ingenuidade e a sua curiosidade, não pode durar eternamente e desaparece depressa. Mas o importante é que o pano não se levante antes do tempo. Não há interesse algum em antecipar, sem necessidade, o que a seu tempo virá. Na falta de uma educação que ajude a criança a contrair o hábito e o gosto do dever e a adquirir hábitos sãos que formem a sua estrutura moral, a sua personalidade e o seu carácter, as influências internas das suas tendências e as influências exteriores da educação e dos exemplos podem levá-la à perversão, com pesados reflexos sobre a futura estabilidade e a maturação das relações conjugais e sociais".

Do ponto de vista sexual a criança não é uma entidade amorfa. As forças do sexo, ou vitais, encontram-se em estado de latência e seria imprudente ignorar este facto. É à divulgação precoce, violenta e copiosa do que é a vida sexual, seja qual for a sua proveniência, com que prematuramente se dissipa o profundo mistério do amor físico e se cresta a frescura e a graça infantil, que chamámos "profanação do amor". Max Heindel lembra a importância da fantasia no ensino, particularmente neste campo, de acordo com a idade da criança. A importância da fantasia é muito grande na configuração da sua personalidade e do bem estar social, tão importante para o equilíbrio do espírito. Por isso, o ensino, por meio dos contos tradicionais, deve ser levado em conta na educação infantil e na formação do carácter.

A instrução escolar não basta – mesmo admitindo que o ensino sexual, dado nas escolas, não se torna uma forma de excitação erótica precoce nem uma introdução ao pornografismo proxenético.

Não basta em parte alguma e muito menos em Portugal. É preciso educar o carácter – o conjunto de valores imorredouros, que levamos connosco vida após vida, que faz o nosso destino. É preciso fornecer à criança, nas relações familiares, uma aprendizagem moral – que a fará honesta; e uma aprendizagem social, para a cidadania – que a tornará forte e decidida sem aniquilar a individualidade.

Dê-se, então, à criança, uma educação integral, exaltando-lhe a alma no amor das acções belas e fortes preparando-a para a vida como ela é: árdua, mas compensadora; difícil, mas nobre.

F. C.

 

 

1 Max Heindel, O Véu do Destino, F.R.P., Lisboa, 1996, p. 45.




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