EDITORIAL
Projecto para o Século XXI
Todas as correntes filosóficas – e até a de uma "escola filosófica" como a dos rosacruzes – podem degenerar de tal forma que os seus problemas se confundam com a prestidigitação de ideias vazias de conteúdo – ou esvaziadas de acções concretas.
Esta degeneração é uma consequência da ideia errada de que é possível filosofar sem nenhuma relação com problemas concretos do dia-a-dia. O que caracteriza a filosofia rosacruz não é só a qualidade do conhecimento que ela aproveita, nem o recurso a um palavreado chamado filosófico, nem o estudo ou discussão de problemas disciplinares em certos compartimentos-estanques, mas sim a maneira como o filósofo – o rosacruciano – consegue transmitir o que de vivido e vivencial ela constitui.
Quer isto dizer que o estudo da filosofia não se pode fazer por via da simples memorização de conhecimentos, mas sim no sucesso da comparticipação do aprendiz de filósofo no acto de filosofar. E como se faz essa comparticipação? É aqui que reside todo o segredo, toda a grandeza e toda a dificuldade da filosofia rosacruz: para se comparticipar nela tem que viver-se o projecto que ela encerra. Ora, este viver a filosofia rosacruz não se ensina no sentido passivo do termo; só encontra a nossa filosofia quem de raiz a procura, quem já sabia da sua existência, embora só com dificuldade a reconhecesse nos seus múltiplos aspectos formais. Avulta aqui a necessidade de uma motivação interior, de uma estrutura psicológica adequada, capaz de dinamizar a vida espiritual do estudante, que possa estruturar uma atitude sui generis perante o seu eu e a realidade envolvente. Portanto, a transmissão do conhecimento filosófico de índole rosacruz deve realizar-se por meio da progressiva revelação ao aprendiz de filósofo da maneira de sintonizar a necessidade de conhecimento total da realidade total com os vários acessos a esse conhecimento. É assim que essa aprendizagem vai consistir na identidade vivencial entre o estudante e os seus pares, identificação feita, por via formal, por meio da discussão dos temas de que a filosofia é bem no fundo aquilo que ele já intimamente procurava.
A consciência de o estudante, ou filósofo-aprendiz, ser um homem-em-evolução, integrada numa visão evolutiva da própria humanidade, é o fim último da filosofia rosacruz. Mas a fase anterior, a da compreensão de que é um ser indesligável da realidade que foi, que é, e que poderá vir a ser, umbilicalmente ligado aos seus concidadãos, é essencialmente factual. Quer dizer: a plena compreensão do nosso ideal filosófico não se pode escapar à prova do confronto directo com situações concretas do dia-a-dia. Sem esta prova de fogo, não pode impor-se de maneira pedagógica nos tempos que correm, e muito menos nos vindouros, por não conseguir, sem ela, avaliar o tamanho das dificuldades, definir prioridades, prognosticar soluções e intervir, a tempo e horas, para as concretizar.
O tempo actual é de transição. Todos sentimos que vivemos num tempo de rápidas mudanças na sociedade e no comportamento humano. Há novos modos de ver e de viver, de comportamento, de maneiras de pensar.
Temos de concordar que existem aí muitos contra-valores, mas também encontramos, frequentemente, valores e mesmo novos valores.
O que é preciso é que o rosacruciano tenha sempre em mente a sua própria identidade e a maneira como a sua colaboração pode ajudar o ser humano a crescer e a realizar-se, sabendo discernir o que é bom, sem perder a riqueza do passado e sem receio de avançar, abraçando os valores do tempo presente. É preciso não cair no anacronismo psicológico, o pior de todos segundo L. Febvre, por ser o mais comum em todo aquele que não tem o sentido da mudança histórica, ou se limita ao superficial, sem ter em conta que os sentimentos, as emoções, os valores morais e os próprios avanços do raciocínio podem ter, também eles, a sua história. É preciso estar atento aos "modelos" culturais hodiernos e às reacções pessoais, para não cair em situações análogas às daquele antigo hábito de decidir e impor o casamento sem ter em conta a intervenção dos sentimentos individuais dos dois prometidos.
Posta assim a necessidade de intervir, é preciso orientar a atenção para os novos problemas e oportunidades, definir os novos interlocutores e os seus diversos contextos; dar-lhes propostas para reflexão suficientemente atractivas e enriquecedoras e renovar a metodologia para se evitar a imprevisibilidade e a perda da capacidade de intercomunicar e do interesse pelo que é autêntico.
Compete-nos, então, lutar com paciência e coragem, mediante um coerente exercício da activação objectiva dos nossos valores, para transcender a existência quotidiana, o mundo do viver comum, para fazer culminar a actividade pessoal em momentos de criatividade e de solidariedade. Tudo isto exige, claro está, uma estrutura psicológica capaz de preservar aquela qualidade que permite o sacrifício do descanso e do interesse pessoal.
Uma observação, mesmo superficial, do método a seguir convencer-nos-á de que é preciso, por um lado, estabelecer o diálogo com sectores ou ambientes esquecidos e, por outro, realizar esforços no sentido de melhorar a estratégia da acção, tendo em conta que o tempo da divulgação já terminou. Vivemos agora no tempo da consolidação e da demonstração dos conceitos e teorias, o que nos obriga a caminhar contra aparentes conveniências mundanas sem nos deixarmos contaminar por aqueles ingredientes que os temerosos e passadistas utilizam para desculpar o adormecimento dos corpos e a indiferença dos espíritos.
Coerente exercício da acção e escolha de novos modelos de intervenção social devem ser os meridianos definidores da nossa intervenção futura no desenvolvimento integrado das capacidades e atitudes que viabilizem a utilização prática dos conhecimentos que promulgamos.
F. C.
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