Editorial
Dar e Receber
O pleno desenvolvimento do homem não admite "compartimentos estanques". De pouco valerá o progresso económico e social, se à cultura do espírito e à educação não for dada a necessária vigilância. Nenhum pai gostaria de ter um filho que fosse um magnífico atleta e, ao mesmo tempo, um retardado mental; ou, o que é o mesmo, se fosse um cérebro prodigioso mas incapaz de utilizar um corpo físico diminuído por qualquer deformidade. O desenvolvimento humano deve realizar-se quer no plano físico, quer no plano mental e espiritual, evolucionando em harmonia plena com todas as virtualidades humanas que a criança em si trazia desde a origem. Esse desenvolvimento exige, portanto, adequada atenção e estímulo.
Se todos os homens são essencialmente iguais pela sua anatomia e na fisiologia, cumpre-nos descobrir por que razão a sua psicologia revestiu de formas tão variadas, a ponto de existirem divergências e oposições tremendas quanto aos conceitos que dela podem partir. Houve, assim, desequilíbrios e rupturas de direcção, e confusão de valores, que deram lugar a uma desorientação quase geral. Cada um procura acantonar-se no seu pequeno território, seja ele político, económico ou simplesmente religioso ou filosófico. O que fica de fora da sua atenção é a própria natureza humana, apesar de ser ela a parte mais importante da questão.
Ao longo dos últimos cem anos assistimos a um imenso drama metafísico, ao cabo do qual, unanimemente, os poderes civis e religiosos afirmaram o ideal comum de um desenvolvimento terreno, de um desenvolvimento social, de um desenvolvimento humano aqui, no trânsito do agora para o amanhã, ainda que as religiões se mantenham na posição de que, ao espírito, está reservado um destino "eterno" e transcendente baseado no curto desenvolvimento existencial terreno.
Esta posição religiosa reflecte o ideal clássico e helénico, em que a perfeição humana e social se enraíza no passado. Mas no Ocidente, o ideal é judeo-cristão, oposto ao helénico. Com Moisés e o advento de Cristo, surgiu na história a dimensão do futuro. O que na verdade o conceito filosófico ocidental postula, relativamente à evolução humana, é que o presente exprime não só o resultado do passado mas também uma carência, ou alienação, relativamente ao futuro. A prática das virtudes morais, a fidelidade e o aperfeiçoamento espiritual são algumas condições necessárias para que o homem mereça, no futuro, a salvação das limitações do passado.
De facto, o desenvolvimento económico, social, etc., pouco poderá beneficiar, só por si, a nossa vida e a nossa felicidade, que dependem igualmente daqueles outros factores. É necessário então promover o conhecimento e a melhor compreensão do ser humano e da sua posição dentro do mundo, além de outras condições da nossa existência. Neste particular, estamos realmente atrasados e até desorientados, sem saber como nos conduzir para encontrar o caminho que mais possa convir à nossa evolução. As ciências humanas obedecem a outros princípios, por vezes de significação oposta, o que torna a solução destes problemas mais complexa e difícil. Este campo é espantoso para a investigação, e pode ocupar-se de incalculável número de problemas relacionados com os nossos sentimentos mais profundos e com tudo o que nos emociona, que nos faz vibrar, trazendo-nos alegria ou sofrimento. E como nada está isolado e tem significação única, pois tudo se processa segundo continuações provindas das circunstâncias ocorrentes, o desenvolvimento ético-social e económico-tecnológico pode e deve ser cada vez mais solidário e complementar com o desenvolvimento espiritual e intelectual.
Este ideal ainda está longe de se encontrar generalizado em todas as estruturas, em todos os níveis, em todas as consciências. Muitos continuam conservadores, agarrados a velhos mitos, acomodados em confortos e preguiças mentais. A generalização deste ideal de desenvolvimento espiritual consciente é, sem dúvida, uma condição que se deve preencher, para que seja possível despertar mais depressa o potencial humano latente que nos é referido nos ensinamentos rosacrucianos.
Sublinharemos agora que esta generalização, da qual depende a felicidade de todos nós, só é exequível se tivermos uma estratégia de desenvolvimento orientada para o estudo e compreensão do homem em evolução, integrada num ponto de vista do próprio universo evolutivo e essencialmente realizável em termos práticos. Nesta ordem de ideias, compete-nos não só ajudar cada um a debruçar-se sobre a cultura do espírito e a compreensão integral do homem, mas também a ajudá-lo a distinguir entre a mera opinião dominante, ou generalizada (a doxa dos gregos), da realidade do espírito, e o conhecimento dessa realidade assente em bases teóricas mas concordantes com os factos e a investigação da filosofia rosacruciana (a episteme).
E como não há desenvolvimento social, autêntico e pleno, se o esforço individual não se orientar para a imagem espiritual do homem, capaz de corresponder ao conceito rosacruciano, diremos que tal objectivo apenas será factível se o nosso projecto de desenvolvimento for planeado, de modo que una e complementarize o conhecimento e a sua transmissão, o que já é bom, mas, além disso, que o materialize em acções concretas, visíveis e duráveis, dirigidos para solidariedade e a educação. O Projecto Heindel é uma forma sui generis de introdução à filosofia rosacruciana. Talvez não haja outro projecto actual em que se ponha tanto afã, tanto interesse e até tanta angústia vital como neste plano de acção, que reúne uma verdadeira estratégia de desenvolvimento capaz de conduzir os compartimentos estanques dos aspectos económico, social e espiritual ao sentido da unidade necessário ao desenvolvimento humano autêntico e pleno – de quem dá, sabendo dar, e de quem recebe.
F. C.
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