Educação Infantil
A Futura Educação da Criança
(continuação)
Não vamos fazer a história da evolução dos diferentes estádios da personalidade da criança, desde os primeiros movimentos instintivos, partindo das reacções sensorio-motrizes, até à obtenção das estruturas lógicas do pensamento. Essa análise, aliás sugestiva e interessantíssima, é de capital importância para a interpretação do comportamento da criança, cujo estudo constitui o objecto fundamental da psicologia genética.
Sabemos hoje que o desenvolvimento psíquico da criança está condicionado pela influência simultânea de vários factores individuais e sociológicos, tendo maior preponderância os caracteres natos impressos nos átomos-sementes dos veículos do ego, os genes da hereditariedade física, transmitidos pelos seus progenitores, a educação e o meio social. A evolução opera-se por uma constante adaptação do ser com o meio ambiente, segundo uma ordem sucessiva de estruturas globais de cada estádio, condicionadas essencialmente pelos germes que o ego traz consigo quando renasce, e a qual se expressa por um esforço de equilíbrio dos diferentes níveis psíquicos. A educação do indivíduo é sempre uma socialização de comportamento, pois consiste em fazer depender as reacções psíquicas e sociais dos moldes ambientais de sentir, de agir e de pensar, dos grupos: família, classe, religião, raça, nação, etc.
Nesta incessante coordenação e assimilação de esquemas, e acomodação dos reflexos ao meio social, se vai formando a personalidade, manifestada especialmente pelas tendências adquiridas. É na formação e desenvolvimento destas tendências que reside o papel fundamental da educação, as quais podem em larga medida completar, aumentar ou neutralizar as tendências inatas que o ego renascente traz em germe e que adquiriu em vidas passadas.
Os processos educacionais não devem pôr obstrução ao desabrochar destas tendências, ainda que se revelem de natureza inferior ou de índole má. Devem antes os pais usar de métodos julgados eficientes para que a energia psíquica dinamizada por essas tendências possa ser canalizada e utilizada na manifestação de qualidades opostas, que os pais se esforçarão por que sejam cultivadas por elas, sobretudo nas chamadas «crianças difíceis». As más tendências, ainda em embrião, por falta de alimento próprio, desvanecem-se e acabam por fornecer, ou pelo menos, por se reduzirem ao estado de latência.
As tendências caracterizam a personalidade, constituem o germe de toda a efectividade. Daí a sua importância. São forças bioquímicas, disposições, naturais ou adquiridas, que levam o indivíduo a reagir de certo modo aos estímulos, por movimentos ou actos adequados. São respostas do ser às situações, exteriorizadas pela acção. São sim directamente percebidas pelo sujeito; mantêm-se pré-conscientes, quando em estado de latência. Mas, quando na sua satisfação encontram obstáculo, tornam-se conscientes pelas reacções que provocam, – reacções geralmente de carácter negativo. Produzem, pois, certa actividade e são reconhecidas pelos seus efeitos.
Por elas o indivíduo tende a persistir e a expandir-se.
(Continua)
A. S. G.
[ Revistas | Índice | Anterior ]