Editorial
A Violência e a Crise do Poder
Ensina-nos a História que a civilização – complexo de valores morais, intelectuais, sociais e económicos – só se desenvolve paralelamente ao valor individual posto ao serviço de cada um daqueles sectores de actividade humana e mantém-se por um equilíbrio constante dos citados valores. A rotura do equilíbrio pressupõe imediatamente a falência dessa civilização.
Em face do desmoronamento intelectual, moral e material do século V e VI nada mais restava ao homem não o refúgio em regiões para além da vida comum. O individualismo egocêntrico orientou as religiões para o fim exclusivo da salvação da alma, dando-lhe um carácter antropocêntrico. Daí o motivo dos grandes movimentos místicos que tomaram enorme amplitude, seja pelo budismo seja pelo cristianismo.
Chegámos ao século XXI. A História, que não se compadece com as flutuações e limitações das teorias e doutrinas criadas pelo homem, limita-se a registar como essas doutrinas, por limitadas que sejam tiveram ou têm as suas causas e surtiram efeitos, sem deixar de movimentar multidões e determinar épocas de transição da Humanidade.
A civilização ocidental atravessa uma época de crise: é contestada de um modo que ameaça os seus próprios alicerces. Todos sentimos a alta da insegurança social, na vida privada e nas ruas.
Ora, se quisermos fazer uma análise das causas da actual crise do ponto de vista rosacruciano, a verdade total tem de constituir a regra. Só ela se revela libertadora. Só ela convence e é eficaz.
O que se vê estar em causa são os homens – e não apenas números de qualquer estatística. São seres solidários de um mesmo destino, terrena e extra-terrena ou espiritual – e não um mero agregado de mónadas incomunicáveis.
O que está a minar a civilização ocidental e se encontra na origem do clima de violência, mais do que as guerras, o terrorismo, as lutas de classes e as insolências dos estudantes extremistas, são as estruturas culturais-religiosas que alimentam a injustiça e o desprezo pela dignidade da pessoa1.
E também aqui, dentro de portas, no nosso país, temos exemplos que nos ajudam a compreender este assunto.
No vício da nossa sociedade histórica que veio evoluindo até hoje, há alguma coisa que apela para o seu desequilíbrio crescente.
A tendência para a contestação, e até para o vandalismo crescente, vem sublinhar uma das mais inquietantes realidades do nosso tempo: o facto de o nosso destino individual estar ligado por uma espécie de atavismo espiritual aos destinos dos membros da família, da nação e de outros povos. Isto permite-nos compreender que estas crises, que resultam da acumulação de elementos e factores patogénicos, capazes de espoletar tendências agressivas, apelos insistentes à violência, ao aparecimento de gostos inferiores e às manifestações mediocráticas que agora atinge um clímax extremamente crítico, têm origens remotas e semelhantes às que deram origem à I Guerra Mundial2.
Nesta violência transparece uma outra crise generalizada, a do Poder – crise que pode vir a ser doença que selará o destino, cada vez mais complexo da nossa sociedade.
Esta crise não reside na falta de meios, materiais ou técnicos, de ideias ou de princípios, mas sobretudo na carência extrema de prestígio, carência que torna o Poder quase completamente vazio, por a comunicação social acentuar, com facilidade, as fraquezas intrínsecas, tornando cada vez mais difícil fingir ou conquistar o necessário distanciamento prestigiante.
Um tema do nosso tempo é, assim, a existência de prestígio, que está socialmente subalternizado e confinado a um número espantosamente limitado de representantes, entre eles os rosacrucianos, que sabem conciliar os ditames da razão com o sentimento da fé.
Para resolver esta crise não podemos contar senão com algumas dessas pessoas, sem cargos importantes nem celebridades conhecidas, mas que são capazes de dar ao Poder a capacidade de influir e de agir no sentido da transformação de determinada realidade, humana e cósmica.
No domínio que nos ocupa, a acção deste Poder deve ser dupla: construir uma casa habitável para as condições do mundo que está a vir, e preparar as pessoas para nela viverem. E essa preparação assenta na educação. Sem educação, quase se pode dizer, o homem é apenas uma possibilidade. Sem educação, ao nível humano, o homem fica reduzido, nos seus gostos e nos seus hábitos, quase ao limite dos animais com os quais possa conviver.
Para solucionar a crise, é preciso definir, ou redefinir, os fins e os meios da educação, tendo em conta que a vera educação remete sempre para as concepções últimas do Homem, do Mundo e da Vida, para a questão os fins e dos meios, e para a floresta altamente densa das implicações no universo de cada acção e consequente reacção.
Educar é, portanto, uma necessidade, por ser a expressão no homem do determinismo universal. Sem a educação a humanidade do homem pode perder-se: pode regressar à barbárie, à animalidade3. E além de ser um direito, a educação é também um dever. Um dever do indivíduo e do grupo. À crise radical que atravessa o mundo e à qual nenhuma nação consegue escapar ou sequer, no limite, pode escapar, a educação é um elemento salvador. As espantosas desordens intelectuais e morais que atingem a humanidade, a impressão do desabar de mundos, de formas de pensar e de valores tradicionais, num remoinho sem precedentes, tudo isso nos persuade a assumir, com uma dupla atitude de lucidez e decisão, a tarefa de educar.
Mas a educação deve ser uma espécie de tarefa instauradora e promotora de valores – e não apenas uma aprendizagem de memória, de fixação de nomes, datas, factos, que levam, mais cedo ou mais tarde, à integração passiva no meio social, à busca egoísta do dinheiro, do poder e da glória. É uma forma de preencher o vazio do ensino, sem alma e sem espírito, conduzindo quase sempre ao regresso tardio a uma fé religiosa capaz de dar respostas onde a escola se calou, ou a outra espécie de fé, uma fé ideológica-política, que também tem respostas prontas para as interrogações humanas.
O que é certo, em qualquer destes dois casos, é que a adesão é mais um alistamento do que um empenhamento criador. O que é preciso, portanto, é que a escola, como transmissora de cultura, realize, graças à capacidade humana de ensinar e de aprender, o apetrechamento prático e profissional com vista à sociedade tecnológica, e preencha o clamoroso vazio da escola de hoje, vazio espiritual, pelo cultivo das qualidades criadoras, do dinamismo mental e da consciência de valores.
Não será incompleta uma educação que esqueça a dimensão da transcendência do ser humano e que não ajude a vencer a tradicional incapacidade para distinguir o real do simbólico e o verdadeiro do falso?
F.M.C.
1 Cf. Samuel P. Huntington, O Choque das Civilizações; Ed. Gradiva, 1999.
2 Max Heindel, Ensinamentos de um Iniciado; F.R.P., 2001; págs. 63-67.
3 Id., Conceito Rosacruz do Cosmo; F.R.P., 1998; pág. 268.
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