Filosofia
O Baptismo Cristão
O baptismo é uma cerimónia reconhecida por todas as confissões cristãs. Tem este nome por causa do rito central com que se realiza: baptizar (do grego baptizein), significa "mergulhar". Consiste na imersão, ou na ablução com água, de uma pessoa ou de várias ao mesmo tempo, que aderem ao cristianismo. O procedimento do baptismo mediante a água é mais antigo que a religião cristã, e na antiguidade mais remota estava em uso entre numerosos povos: Caldeus, Fenícios, Persas, Egípcios, Hebreus, Gregos e Romanos. O baptismo com água era condição obrigatória da consagração aos mistérios de Ísis; a consagração ritual mediante a água praticava-se também nos Mistérios designados por "Eleusinias" (festas que se celebravam em Eleusis, em honra da deusa grega Deméter – a Ceres dos romanos). O baptismo era também obrigatório no culto de Mitra. Em todos os casos similares, o baptismo, por meio da água, era um ritual mágico purificador que, em geral, se achava vinculado às prescrições curativas ou profiláticas da magia medicinal.
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No culto cristão, a este antigo procedimento mágico procurou agregar-se um valor complementar moral e simbólico, mas a essência não variou com eles. Qualquer que tenha sido a intenção dos autores de tal costume, o que é certo é que o uso actual está envolvido nas mais grosseiras superstições.
Função Simbólica da Água
Quando o Novo Testamento nos fala do baptismo, raramente se refere à água (Act 8, 36 e 10, 47; Ef. 5, 26; Hb 10, 22). Mas como na prática apostólica mais primitiva se usava a imersão, não é possível nenhuma dúvida acerca da sua função ritualística. A Didaqué (7,1)1, doutrina do primeiro século, exigia água corrente (água viva), mas a Bíblia não dá nenhuma especificação.
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Do ponto de vista das valências simbólicas, a água das fontes (água viva), é um elemento sempre favorável, positivo, não sexualizado; a água "aprisionada", das piscinas, pias ou bacias, é antes de mais ambivalente e essencialmente matricial, portanto feminina. Traz consigo a bipolaridade, vida e morte, gestação e destruição.
Simbolismo do Fogo
Em todas as civilizações de culturas, o fogo desempenhou um papel importantíssimo. Como acontece ainda hoje, ele representava a energia essencial: para iluminar, cozer alimentos e para aquecimento. Para além de um elemento importante da vida humana, o fogo representa também uma força purificadora e destruidora implacável. Visto a partir do Sol, que ilumina e dá vida à terra inteira, o fogo recebe o estatuto de divindade mais importante no panteão de muitas civilizações e culturas.
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Em certos mitos antigos de criação é posta em realce a oposição entre o fogo e as águas. Tais mitos têm fundamento na experiência diária: é com água que se apaga o fogo. Na Bíblia esta oposição aparece no início do Génesis "O Espírito de Deus pairava sobre as águas". João Baptista faz esta oposição quando contrapõe o seu baptismo de água aos baptismo de Jesus: "Eu baptizo-vos em água para vos mover ao arrependimento; mas Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu... Ele baptizar-vos-á com o fogo do Espírito Santo". (Mt 3, 11).
Como lemos na obra de Max Heindel, Iniciação Antiga e Moderna, há uma íntima relação entre o fogo que penetra até ao coração de quem é capaz de alimentar um "sacrifício vivo" e o lume que ardia no Altar dos Sacrifícios do antigo templo de mistérios simbolizado no Tabernáculo do Deserto. Efectivamente, o termo "puro" (do latim purus), vem do termo grego que significa fogo (pyr) e daí vem a relação profunda entre Espírito e fogo que purifica o coração do crente2.
É certamente por esta razão que o autor dos Actos dos Apóstolos (Act 2, 1-13) não encontrou melhor maneira de falar do espírito que purifica, conduz e anima o novo Povo de Deus. A dimensão ritual do baptismo dos primeiros discípulos, em forma de língua de fogo, significa que eles ficaram imersos no "espiritual fogo espinal da alma-rubi"3.
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Sacramentos
Os ritos que os gregos designavam por mysterion e os latinos por sacramentum, são, fundamentalmente, cerimónias de admissão e compromissos: os sacramentos são sinais, ou cerimónias, pelas quais os homens se integram numa Igreja.
O sacramento, evocando algo santo e sagrado, não é conhecido na igreja antiga. O baptismo é, portanto, uma simples liturgia, tal como a Igreja Ortodoxa o define: acção colectiva pela qual os cristãos invocam as bênçãos divinas sobre certos objectos materiais, como o pão e o vinho, a água e o óleo, ou sobre pessoas4.
O número de sacramentos conservou-se indefinido. O processo de diferenciação começou no Ocidente. No século XIII os escolares seleccionaram sete, como tendo sido ordenados pelo próprio Cristo. O Oriente não participou dessa escolha, evitando comprometer-se com certa artificialidade de classificação que tentava achar verdadeira "matéria" e "forma" para todos os sete sacramentos das Sagradas Escrituras.
No século XIV, Wycliffe desafiou a doutrina sacramental assim definida. O seu protesto foi aproveitado por João Huss e pelos boémios. Os reformadores do século XVI, Martinho Lutero, João Calvino e Ulrico Zuínglio, opuseram-se aos ensinamentos romanos e elaboraram os seus próprios sistemas ao longo das linhas primeiramente delineadas pelos primeiros teólogos latinos, levando o ensinamento escolástico à sua conclusão lógica.
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Assim exposta às repercussões da controvérsia ocidental, a prática sacramental conservou-se na igreja protestante liturgicamente menos rica que na igreja romana, e nesta mais formalizada que na Igreja do Oriente5.
Verdadeiro Baptismo
Em nossa opinião, a reflexão deve partir do baptismo de Jesus. Não do baptismo recebido das mãos de João, o qual não tem importância cristológica como rito, mas somente como data. O verdadeiro baptismo de Jesus ocorre na sua morte. Não se podem ignorar nesta reflexão textos como Mc 10, 38-39 e Lc 12, 50. Longe de serem casos à parte no plano semântico, constituem, muito provavelmente, a chave de uma teologia bíblica do baptismo, como o estudo do simbolismo permite demonstrar. Nestes textos, o estatuto da água (subentendida) é unicamente simbólico.
Se analisarmos os textos que se relacionam com o baptismo veremos que, se João imerge as pessoas da água do rio, símbolo da imperfeição, Jesus imergirá o mundo num vento sagrado e num fogo do alto, perfeitamente livres e exclusivamente simbólicos: Mc 1, 8; Lc 3, 16; Jo 1, 33; Act 1, 5.
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Conclusão
Os ritos – as danças sagradas, as orações, as genuflexões, os hinos, etc., – são processos que põem o corpo e o espírito do participante em comunicação com o ritmo da colectividade na qual se integra, e também com o ritmo do mundo, a que Platão chama "música das esferas". As doutrinas sagradas assim transmitidas, atravessaram séculos sob duas formas bem diferentes. Uma, sacerdotal, conservada pelas igrejas, que perseverou até aos nossos dias e que se exprime através do simbolismo dos diversos ritos e liturgias, verdadeiras enciclopédias de símbolos incompreendidos. Outra, iniciática, que trava a degenerescência natural do simbolismo. Esta via de desenvolvimento espiritual estuda e interpreta a correspondência que há entre as diversas ordens de realidade representadas pelos símbolos, cujas diferentes variedades, palavras, sinais, gestos e acções representam, de um modo sensível, realidades superiores e conceitos ininteligíveis para os crentes. Têm a função dos antigas lendas e mitos que, sob a forma de uma memória ancestral, escondida na capa de uma narrativa simples, encerra um conjunto de dados doutrinais que pertence à sabedoria antiga6.
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Quanto ao baptismo das crianças, o Novo Testamento guarda silêncio total. Além disso, o baptismo infantil foi associado a superstições que desfiguram a realidade (banho de regeneração que liberta de toda a culpa, por exemplo). Transformou-se num simples acontecimento social, vazio de conteúdo cristão. Sendo, como se pretende, um rito (ou liturgia) da entrada na "Nova Aliança" (Mc 16, 16; Gál 3, 17; etc), não é inconsistente associá-lo à circuncisão dos judeus (Col 2, 11).
"O verdadeiro baptismo consiste num processo espiritual para alcançar uma finalidade de natureza espiritual. Pode acontecer no deserto ou numa ilha isolada e não depende de qualquer cerimónia física. Nada impede que ele ocorra em qualquer momento, de dia ou de noite, no Verão ou no Inverno – quando o candidato sentir, com a devida intensidade, a vontade de conhecer as causas do seu sofrimento e de saber como poderá aliviá-lo"7.
A água surge, portanto, na memória imanente, ancestral, como símbolo matricial e resíduo incompreendido das águas da Atlântida onde o homem primitivo evolucionou8. O baptismo, infantil ou adulto, pelas razões aduzidas, à luz da revelação bíblica e do estudo criterioso da reencarnação, não é condição para a "salvação". O texto de Mc 16, 16, se historicamente suspeito, está doutrinariamente correcto: não diz que o homem é condenado pela falta de baptismo, mas por recusa da fé.
Os rosacruzes superam facilmente o dilema da integração da fé e da razão na vida diária ao expressar a relação da fé com a vida intelectual segundo a formula fides quaerens intellectum – a fé que procura conhecimento. Como Abraão, que se vira para a transcendência e abandona a fé clânica e a lógica tribal, o rosacruciano considera a cada realização do saber científico como um novo marco na via para a ascensão.
(Resumo do texto publicado)
Ariel
Notas
1 Didaqué; Ed. Paulus; S. Paulo, 1989.
2 Max Heindel, Iniciação Antiga e Moderna; F. R. P., Lxª, 1999; pp 29-48.
3 Id., Iniciação Antiga e Moderna, pp 105-106; Cf. pp 33-37.
4 Nicolas Zernov, O Cristianismo Oriental; Arcádia, Lxª, 1972; pp 308-310.
5 Max Heindel, Recolecciones de Un Mistico; Libreria Sintes, Barcelona, s/d; Cap. V, pp 43-52.
6 Id., Mistérios das Grandes Óperas; F. R. P., Lxª 1997. p. 6.
7 Id., Iniciação Antiga e Moderna; F. R. P., Lxª, 1999, p. 87.
8 Id., The Rosicrucian Philosophy in Questions and Answers; L. N. Fowllers, London, s/d.; nº 97, pp 197-198.
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