Filosofia
A Metáfora do Deus Encarnado
V A Estrada de Damasco
1. Introdução
A pessoa não nasce acabada. Foi concebida para se criar a si mesma. Deus não nos criou, retirando-se em seguida. Pelo contrário, começou a criar, está criando, e continuará a criar o Homem até ele estar acabado. Com efeito, o homem nasceu para renascer. A humanização acontece como processo histórico. A lei da humanização conduz à emergência pessoal mediante relações fraternais a que Max Heindel chama serviço. São estas relações fraternais levam à convergência para a comunhão universal, que é uma comunhão humano-divina.
A dinâmica de humanização é um processo de autotranscendência. Emergir como pessoa é crescer em consciência espiritual. Neste processo, a interioridade espiritual da pessoa estrutura-se como um feixe de energias espirituais constituídas numa identidade única, livre, consciente, responsável. A intervenção de Cristo no homem acontece no interior da sua consciência individual. Na realidade, a consciência, também chamada mente consciente, não é apenas um elo que liga o espírito ao corpo1: é também, e sobretudo, um órgão de relação e tem uma estrutura dialogal. É o espaço onde se fazem ouvir as vozes dos outros que nos foram ajudando a despertar os valores e que ecoam do fundo do Espírito de Vida através da mente supraconsciente2. É por isso que podemos dizer que a consciência humana individual é o ponto de encontro da pessoa com Cristo e com os outros.
Claro que as pessoas humanas e as divinas não são iguais, mas existe uma proporcionalidade entre elas. Há, por isso, uma perfeita reciprocidade entre as pessoas divinas e humanas. Esta reciprocidade dá-se como interacção orgânica e está em processo a partir de Cristo. Estamos unidos a Cristo como os ramos da videira estão unidos à cepa (Jo 15,1-7). A seiva que alimenta esta interacção orgânica é o próprio Cristo. Há, pois, um aspecto da verdade quando se diz que a nossa consciência é a voz do “Cristo interno”. Todavia, nunca devemos entender esta intervenção como uma substituição. Cristo está connosco, mas nunca está em nosso lugar.
Com o estudo do episódio de Damasco, seguindo o raciocínio de R. Guardini que se baseou na descrição que dele faz o apóstolo, vamos começar a perceber como a intervenção especial de Cristo na vida de Jesus acontece como diálogo e iluminação no concreto das situações. Diálogo e iluminação porque, nesta relação, que é orgânica, a resposta da pessoa pode ser “sim” ou “não”. Cristo nunca se impõe. É à medida em que o Nazareno se afirma gradual e progressivamente numa linha de fidelidade sistemática aos apelos essenciais que o Espírito faz, no dia a dia, no interior da sua consciência humana, que se coloca numa condição singular em relação aos outros seres vivos. É que em Jesus, como veremos, o homem culmina na incorporação orgânica e dinâmica em Cristo.
2. A Estrada de Damasco
“A essência da pessoa humana na sua relação com Deus define-se, na consciência cristã, pela relação com Cristo e não por qualquer cerimonial religioso que se realize no espaço do mundo ou da história. As fórmulas decisivas que exprimem esta consciência estão contidas nas cartas de S. Paulo. Ele é um dos autores que viveu, com intensidade muito especial, a passagem à existência cristã e formulou a questão da sua natureza partindo da própria vivência dessa experiência.
Encontramos essas fórmulas construídas segundo o esquema: “o homem está em Cristo; Cristo está no homem” (Rom 8,1; 2 Cor 5,17, etc.). O pensamento aprofunda-se noutras fórmulas em que mostra o Cristo presente e agindo no crente como a enteléquia do homem natural.
O homem natural S. Paulo diz “carnal” entendendo-se não apenas o corpo, mas o todo natural, corpo e espírito, é penetrado por uma nova forma essencial que procura desenhar nele a imagem divina: “o Cristo interno” (Rom 8,29). Por outras palavras, em todo o cristão, através da sua actividade diária, deve realizar-se algo de mais profundo: a transformação do homem pela vida “mística” de Cristo nele. Estes pensamentos paulinos atingem a sua expressão mais vincada em fórmulas como esta: “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gál 2,20).
Todos estes dizeres paulinos têm uma importância decisiva na conclusão a que vamos chegar sobre a plenitude da vida de Jesus em comunhão com Cristo.
Note-se que as fórmulas citadas não são apenas modos ocasionais de falar; não são tão pouco a expressão entusiástica da vivência de Cristo, e nem ainda o procedimento de um educador religioso pretendendo dar aos discípulos um conhecimento de Cristo. Em vez disso, constituem o verdadeiro fundamento da consciência paulina do homem, e devem ser entendidas no sentido mais preciso.
Esta linguagem de S. Paulo cria dificuldades naturais ao pensamento moderno, habituado que está à nossa experiência natural da personalidade. A tendência natural é para explicar este estado de consciência segundo a maneira de pensar dos gregos, que entendia o êxtase como uma loucura momentânea. Nesta passageira alienatio mentis do culto dionisíaco, o espírito dos possessos já não estava em si, mas saía do corpo que era utilizado por uma personalidade extrínseca como nos médiuns. O fenómeno era comum a certos oráculos da antiguidade e era descrito como se o deus “entrasse” no sujeito inspirado para falar pela sua boca. Ou, então, eram os discípulos de Dioniso que se diziam inundados pelo seu deus ao ponto de julgarem que eram habitados por ele, impelindo-os para os actos que não teriam efectuado em outras circunstâncias3.
No caso de possessão, ou obsessão, identifica-se claramente a dissociação da consciência imposta pela personalidade intrusa, passando a vítima a viver, não uma, mas em duas formas de carácter e de comportamento4. Nestas situações, a personalidade de conjunto, na medida em que se identifica com uma das formas, pode dizer que a outra a “habita”. O “outro ser”, o obsessor, age mercê da sua iniciativa própria e de uma maneira que causa ao “hóspede”, ou médium, graves dificuldades.
O que S. Paulo quer dizer é inteiramente diverso destas experiências obsessivas. Fala-nos ele de uma verdadeira presença interior de Cristo pneumático (pneuma ou sopro: espírito). A descrição que dela faz afasta, em absoluto, qualquer hipótese de um estado obsessivo, extático ou patológico. Pelo contrário, esta maneira de ser constitui o fundamento estável de uma existência pessoal, de uma total clareza e da mais elevada seriedade.
Se, dito isto, considerarmos o episódio da estrada de Damasco, narrado por Lucas no capítulo 9 dos Actos dos Apóstolos, reconhece-se que esta vivência de S. Paulo significa, em primeiro lugar, uma prodigiosa libertação do aprisionamento do próprio eu, tornando-se o próprio Cristo o conteúdo da sua vida. E isto não apenas no sentido de que S. Paulo se apropriou destes conteúdo conscientemente, mas também no sentido literal.
É este o cerne na experiência de Damasco: Paulo experimenta a vivência da “entrada” de Cristo em si. O Cristo instalou-se conscientemente em si e tornou-se a “enteléquia” da sua existência. Apenas este “Espírito”, do Cristo, pode provocar um verdadeiro renovamento do ego e fá-lo sem atentar contra a dignidade, a liberdade e a responsabilidade da pessoa. É um renovamento que provém do Cristo, mas também, e ao mesmo tempo, da responsabilidade e liberdade pessoal do homem.
Por outro lado, este desenvolvimento da consciência de Paulo não significa apenas um simples entendimento intelectual, mas que o Cristo “entrou” efectiva e conscientemente na esfera da sua existência. O iniciado transformou-se então num outro e, não obstante, por aí se tornou verdadeiramente ele próprio. Por isso S. Paulo afirmou “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gál. 2, 19-20).
O pensamento de S. Paulo aprofunda-se noutras fórmulas que mostram Cristo presente e agindo como a enteléquia no homem natural. O homem natural, que S. Paulo chama carnal, entendendo por aí não apenas o corpo em oposição ao espírito, mas o todo natural, corpo e alma, é penetrado por uma nova forma essencial que procura vitalizar nele a imagem divina, o “Cristo interno”. Em todo o iniciado, através da sua actividade, através do seu destino e desenvolvimento, deve realizar-se algo de profundo: a transformação do homem pela vida do “Cristo interno”.
Este ponto de vista de S. Paulo tem uma importância decisiva na compreensão do modo como Cristo interveio em Jesus e é indispensável que não seja falseado nem enfraquecido.
F. C.
Notas
1 Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, F.R.P., LxŞ 2005, p. 74, 309, 310.
2 Id. Ob. Cit., p. 76.
3 Rafael López-Pedraza, Dioniso no Exílio, Paulos, 2002, S. Paulo, p. 36.
4 Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo; pp, 51-52; 417; Cf. Augusta Heindel, O Outro Lado da Vida; p. 18 e ss.
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