Filosofia
O Cristo Interno
Confunde-se muito o espiritualismo com as grandes manifestações emocionais. Na verdade, esta relação não tem qualquer fundamento. Pelo contrário. O género de espiritualidade desenvolvida e associada com a natureza emocional do corpo de desejos é extraordinariamente enganadora. Uma das suas variedades é a que se verifica entre as audiências dos movimentos religiosos do “despertar”, os quais exaltam a emoção ao mais elevado grau. Se alguns dos participantes desenvolvem nesses meios um enorme fervor religioso, este é sempre de curta duração, para desgosto dos seus dirigentes, que acusam os discípulos de revelarem pouca firmeza na sua fé. Nem poderia outra coisa acontecer. Os responsáveis desses movimentos religiosos garantem poder salvar as almas por meio da participação nos seus cultos, em que há um forte recurso ao poder da música e dos sons harmónicos. Usam-se cânticos rítmicos revivistas. Fazem-se apelos em tom de voz com adequadas variações de intensidade. E até se recorre a instrumentos como o tambor e os pífaros. Ora, tudo isso tem sobre o corpo de desejos o mesmo poder efectivo que as tormentas que encrespam o mar. Depois da tempestade vem sempre a bonança. Quem tiver despertado a verdadeira espiritualidade jamais se poderá sentir salvo de um instante para o outro, como se tivesse encontrado de repente o sétimo Céu, para logo, no dia seguinte, se considerar um desprezível pecador e sentir-se no mais profundo abismo.
A verdadeira espiritualidade apoia-se no corpo vital, que é o veículo da razão. O corpo vital é suficientemente forte para persistir no caminho escolhido. Por isso, a conversão só é definitiva quando se enraíza neste veículo, que é muito mais desenvolvido que o corpo de desejos, cuja principal característica é ser de natureza emocional e volúvel, causa da aparente conversão das massas.
O corpo vital é o veículo da propagação. A reprodução da espécie faz-se por intermédio de um dos éteres inferiores: o éter de vida. O “eu superior” ou “cristo interno”, por seu lado, forma-se por meio dos dois éteres superiores – o luminoso e o reflector – desse mesmo corpo.
Ora, à semelhança de uma criança, que precisa de alimentos da região química do mundo físico para se nutrir e chegar ao estado adulto, também o nosso “Cristo interno” carece de ser alimentado para se desenvolver. O corpo físico desenvolve-se pela assimilação de substâncias que pertencem à região química do mundo físico (sólidos, líquidos e gases) e o crescimento do Cristo interno está associado, por sua vez, ao aumento do volume dos dois éteres superiores, que chegam a formar uma nuvem luminosa e suficientemente grande para envolver o corpo de quem tiver suficiente discernimento para querer elevar-se espiritualmente. Com o tempo, esta nuvem revestirá o terreno peregrino com uma luz tão brilhante que ele, efectivamente, “caminhará na luz”. Por meio dos exercícios dados na Escola Rosacruz dos Mistérios Ocidentais, pode conseguir-se, com o tempo, a separação entre os dois éteres superiores e os outros dois inferiores. Será possível, depois disso, sair – conscientemente – do corpo físico, deixando-o como no sono, envolvido e vitalizado pelos dois éteres inferiores. Tornar-se-á então um “auxiliar invisível”.
Max Heindel
In O Véu do Destino, Cap. II
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