Filosofia
A Pedra Filosofal
A Pedra Filosofal é um símbolo que não foi suficientemente compreendido por aqueles que, não possuindo profunda iluminação espiritual, dela se ocuparam em seus trabalhos literários.
Qual a origem da Pedra Filosofal?
Vejamos primeiramente o significado que tem a palavra Pedra; seguidamente veremos o que simboliza a frase: Pedra Filosofal.
Pedra, em latim Petra, chama-se Lithos em grego, é um composto mineral em que buscamos vários produtos necessários à nossa vida, como seja a pedra com que fazemos as nossas habitações, a mó que reduz os grãos a farinha para os variados usos alimentícios e outros; o ferro, de que são feitas as ferramentas dos variados ofícios, e outros instrumentos absolutamente necessários à nossa vida, e as máquinas, os caminhos de ferro, os navios, etc.; o chumbo, a prata, o cobre, o estanho, o ouro e outros metais que trazem à nossa vida segurança e comodidade. As pedras preciosas como o brilhante, o diamante e outras; o quartzo, de que se faz o mais límpido cristal, tudo isto o homem arranca à rocha dura, envelhecida pelo tempo. E tudo isto, antes de ser pedra foi terra, argila, como aquela de que se formou o nosso corpo; antes de endurecer, sobre a persistente acção do tempo, Saturno, o cristalizador, a rocha foi branda, mole, maleável, inconsistente. Mas o tempo, lenta e persistentemente, endureceu-a, refinou os seus elementos, dando-lhes assim maior valor, mais subtileza, tornando-os mais apurados, preciosos, como nós agora os consideramos.
E nesta obra colossal foram empregadas forças que chamaremos Espíritos da Natureza, e a quem os antigos ocultistas antigos denominaram Gnomos.
Os contos de Fadas, que as crianças tanto apreciam, encerram quase sempre uma parcela de verdade para nós desconhecida, mas perceptível para a criança, que antes de nascer conheceu essas forças da Natureza que sempre trabalham humilde e afanosamente para nós, para a Humanidade, dando-nos assim comodidade e conforto, alegria e segurança, ajudando-nos a evoluir, e tudo fazendo com o mais absoluto desinteresse!
O nosso corpo material, como a pedra, é feito de terra, de verdadeira e finíssima argila; e tal como sucedeu com a rocha, que foi primeiramente branda argila e depois solidificou, assim também uma parte dos nossos corpos solidifica, para que possamos erguer-nos verticalmente e sustentar a forma física que temos em pé: o esqueleto, que tantas vezes se converte em verdadeira rocha pela petrificação, sob a acção cristalizadora de Saturno, o tempo. Mas nesta obra transformadora, os elementais, os Espíritos da Natureza ou Gnomos, cuja missão é exercida no reino mineral e também no vegetal, tomam parte, integrados nos raios cristalizadores do planeta Saturno.
É muito conhecido e apreciado pelos arqueólogos este género e fósseis: ossos petrificados, convertidos em verdadeiras rochas e muitas vezes formando até parte das próprias rochas.
Os moldes de nossos corpos físicos são feitos pelos elementos por eles transportados até à matriz da que há-de ser mãe, e aí se continua ainda a sua ajuda inapreciável ao ser humano, pois eles cooperam na evolução da Terra e de todas as formas vivas que nele existe, embora este facto seja ignorado pela maioria dos seres humanos.
Somos ajudados invisivelmente, por verdadeiras hostes de seres espirituais e forças desconhecidas, nossos verdadeiros amigos e benfeitores totalmente desinteressados, que nada nos pedem como recompensa do que fazem por nós.
Somos um composto físico como o da rocha, e se não temos nos elementos constituintes dos nossos corpos os metais nem as pedras preciosas como a rocha, temos pelo menos os metalóides, ou seja, os elementos de que serão formados os metais e as pedras preciosas, assim como também aqueles que não possuem valor algum.
Quando em nossos corpos falta o ferro, o elemento mais importante do sangue, estamos anémicos; e quando faltam outros elementos ou metalóides, sofremos também outras enfermidades.
O que sucede na Terra sucede em nossos corpos. Assim, quando ao nascer de uma pessoa Saturno está dissonante com outro ou outros planetas, ele trará a tendência para formações calcárias ou cristalizações no corpo, criando-se deste modo verdadeiras pedras em alguns dos nossos órgãos, como no fígado, rins e bexiga, e também nas articulações o que já vimos em verdadeiros homens de ciência, que apresentam grandes deformações nas mãos1. De todas estas pedras ou cálculos, algumas são belas, pelas suas cores e pelas suas formas, porém o seu valor é nulo; o mesmo não diremos do sofrimento que ocasionam.
O que se opera na Terra, planeta onde vivemos degredados e muitos de nós com a pena agravada em prisão no lugar do degredo, passa-se também em nossos corpos, verdadeiros mundos em miniatura. E assim como na Terra agem forças desconhecidas do homem vulgar, também nos corpos humanos agem forças ocultas que impulsionam a nossa evolução, quer em sentido de aperfeiçoarmos a forma física, dando-lhe maior eficiência e, portanto, melhores condições de saúde e funcionamento, quer impulsionando a sua ascese espiritual, o regresso ao Trono do Pai, quer dizer, ao mais estado de pureza espiritual.
Quer queiramos, quer não, a nossa vinda a este mundo não é para gozo, como nós ardentemente desejamos, mas para evoluir, para nos aperfeiçoarmos, para regressarmos à prístina pureza. E por esse facto a Terra nos reserva a experiência que sofrem os metais no cadinho onde são fundidos, para serem libertos das escórias; Vivendo na Terra, deixando-nos atrair pelas coisas vis da Terra, nós somos enganados, caímos no erro e algum dia nos cansaremos de errar; e então nasce em nós o desejo de nos libertarmos das penas e aborrecimentos que são gerados nos falsos prazeres terrenos. Procuramos abandoná-los, substitui-los por outros de natureza espiritual, mais intensos e mais duradouros. Então é chegada a nossa hora da Iniciação, começamos a subir o nosso calvário, e como o Bom Nazareno, transportamos a nossa própria cruz, de que vamos libertar. Isto levará o seu tempo, e ainda que pareça eternizar-se, terá o seu fim, às vezes mais depressa do que podemos vislumbrá-lo. O que precisamos é de persistir heroicamente até ao fim, para que cedo atinjamos a coroa de glória que vamos tecendo e nos fará brilhar como se fôramos do mais fino e precioso ouro.
Jesus mudou o nome de um dos discípulos, talvez por ser o mais velho de todos, portanto aquele que tinha mais autoridade para guiar os seus companheiros e aderentes ao novo Credo, e no dia da sua prisão, quando dispunha de tudo para assegurar o prosseguimento da sua obra após a sua retirada deste mundo, que ia ter lugar no dia seguinte, no auge da emoção que dominava inteiramente os discípulos, esse a quem fora mudado o nome e que tão grande papel havia de desempenhar na dolorosa cruzada de propagar o cristianismo, mostrou-se decidido a seguir o Mestre para a prisão e para a morte. Então, calma e serenamente, Jesus, conhecendo a sua debilidade, diz-lhe “... não cantará o galo, antes que três vezes negues que me conheces”.
Isto nos mostra que nem o escolhido, nem o agora considerado como pedra angular da nova igreja estava suficientemente preparado para subir ao calvário com a sua cruz. Era fraco ainda; todavia, Simão fora chamado Pedro, quer dizer “pedra”, rocha que contém todos os elementos, dos mais grosseiros aos mais subtis, para que à sua volta fosse erguido o novo edifício espiritual, a nova corrente espiritualizadora que ficaria na história sob o glorioso nome de cristianismo.
Também no Apocalipse Cristo promete ao que vencer a batalha da vida, “uma pedrinha branca, e na pedrinha um Nome novo escrito, o qual ninguém conhece, senão aquele que o recebe”, isto é, o Herói, o vencedor da tremenda batalha da vida contra tudo quanto nos estorva a evolução, nos prende à Terra, aos vícios e imperfeições humanas.
As pedras aqui mencionadas são alegoria da edificação do Templo Espiritual, erguido sem ruído de martelo nem de instrumentos de artífices, mas no silencioso agir em favor dos outros, no bem-fazer constante e sem a pretensão de ser visto, quer dizer, agir bondosamente e a ocultas, sem esperança de recompensa, no firme aperfeiçoamento que sempre devemos realizar em nós.
Assim como a pedra foi bruta e a carinhosa, firme e paciente actuação do artista a talhou e lhe deu as mais variadas formas, assim também nós nos aperfeiçoaremos, nos poliremos, e havemos de brilhar como brilha a pedra preciosa, a brilhante de muitas facetas, e então podemos ter a certeza de que pertencemos ao número daqueles que se libertaram das condições da Terra.
A pedra branca simboliza o estado de pureza conquistado pelo esforço que fazemos para auxiliar outros seres no caminho da evolução, porque ajudando outros é que nós merecemos ser ajudados, e só praticando o bem e buscando enriquecer o nosso tesouro espiritual é que nos libertamos das condições penosas em que vivemos e nos vemos livres do cativeiro terreno.
Os Alquimistas, sociedade fraternista inteiramente consagrada ao estudo da Ciência Espiritual, durante a Idade Média, para escapar aos rigores inquisitoriais do “Santo Ofício”, fizeram constar que tinham descoberto a Pedra Filosofal e a arte de mudar a natureza dos metais, por forma que, de metais pobres fabricavam ouro puro. A ideia não foi compreendida, Os Alquimistas foram tomados como embusteiros e deixados em paz. Todavia, a sua importantíssima obra científica foi muitas vezes denegrida, mas assim mesmo eles puderam escapar às perseguições em voga nesses obscuros tempos, e sossegadamente prosseguiram nos seus trabalhos legaram-nos a química, que tão assinalados serviços havia de prestar à Humanidade.
Os Alquimistas são originários do Egipto antigo e o seu desaparecimento deu-se por ocasião do congresso internacional, secretamente realizado em Munique, na Alemanha, em 1614.
Quanto à conversão dos metais pobres em metais preciosos, foi coisa que os Alquimistas não tentaram, sequer.
O que eles mudavam eram os metais baixos, os nossos instintos e paixões vis, em metais preciosos, isto é, virtudes, forças espirituais, refundindo o homem velho. E, com os esses materiais, edificavam então o homem novo.
Os instintos, que são verdadeiros vampiros das energias espirituais, eram por eles sublimados, espiritualizados, convertidos em poderes do espírito, e como o ouro simboliza a mais alta espiritualidade. O Cristo mesmo, os Alquimistas tinham razão: eles passavam todos os momentos da sua vida empenhados em espiritualizar os seus adeptos, e assim de metais baixos fabricavam metais preciosos; de homens toscos, de pedras brutas, faziam homens polidos, espiritualizados, pedras trabalhadas com amor e arte, paciência e tenacidade.
Assim, tudo quanto era vil no homem e o prendia às coisas terrenas, era sublimado, fundido no cadinho espiritual, e assim, liberto das escórias, era um metal apurado, um ouro puro!
Foi este ouro puro que ficou conhecido sob os nomes de: Corpo Solar, Traje Dourado de Bodas, áureo Manto Nupcial, etc., tudo se resumindo na libertação espiritual.
O “corpo solar”, ou “áureo manto nupcial”, ou ainda “traje dourado de bodas”, são nomes por que se tornou conhecida a aura da cor do ouro, que permite a quem a conquistou ir aonde desejar, ao inferno mesmo, sem receber sequer o menor dano.
A Pedra Filosofal não é uma pedra mágica para fazer filósofos, mas aquela pedra branca que foi prometida a todo aquele que se lança na senda iniciática e algum dia a alcança; essa pedrinha branca é fabricada com a bondade, exercida sempre com alegria e sem interesse mesquinho: essa pedra branca, símbolo da vitória do espírito sobre a matéria, é a Pedra Filosofal.
Quem a quiser possuir, terá de construí-la, pelo seu aperfeiçoamento individual, constante, firme, porque só pela bondade, superior à esperança e à fé, nos chegaremos às fontes de Sabedoria e nos converteremos em filósofos e na própria Pedra Filosofal.
Todos somos como rochas, mas rochas de material denso, todavia capaz de ser transformado. O que temos de grosseiro em nós podemos convertê-lo em subtil e, com o tempo, a pedra bruta, áspera e escura que somos será transmudada em límpido cristal, brilhará como as mais belas pedras preciosas. Era isto que faziam os Alquimistas, que a partir de 1614 ingressaram na Fraternidade Rosacruz, por estarem identificados com os seus ensinamentos, famosos já desde o tempo antigo, em que se chamavam Essénios, Terapeutas, Naziritias e Nazarenos.
Se desejarmos possuir a Pedra Filosofal, tratemos de mudar inteiramente a natureza dos nossos hábitos, sublimando tudo quanto em nós for mau, grosseiro, e assim estaremos a transformar os baixos metais em preciosidades raras; assim estaremos juntando o nosso tesouro no Céu, onde acharemos quando deixarmos a Terra; estaremos aptos a receber a pedrinha branca com um novo nome, que só nós saberemos pronunciar. Esta é a Pedra Filosofal.
Já vimos como a pedra, a rocha se formou, e foi grosseira e se apurou até se converter em diamante; como na forma de quartzo a rocha se converte no mais puro cristal. Pois bem: assim mesmo, com paciência e firmeza na prática do Bem e da virtude, chegaremos a mudar em nós tudo quanto for grosseiro e vil e assim conquistaremos a nossa libertação das condições tristes e dolorosas da Terra, teremos a Pedra Filosofal e o Filósofo – o amigo da sabedoria – e mais ainda: teremos a Sabedoria, que não é deste mundo grosseiro em que vivemos, mas dos mundos superiores a que devemos ascender.
Alcemúr
1 Foi o caso do sábio português Dr. Egas Moniz.
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