Filosofia

A Metáfora do Deus Encarnado

VII – O Campo Divino


O âmbito deste capítulo é o vasto plano de consciência, ou Mundo do Espírito de Vida, que permite a conexão de Cristo com o mundo. Como iremos ver, o “mundo”, incluindo todas as criaturas que aqui evolucionam, não é qualquer coisa que pode ser acrescentada a Cristo pela palavra “e”, mas que está em Cristo e Cristo nele, de tal forma que é possível falar-se do “campo crístico” como o físico fala de um campo magnético. Como todas as analogias, especialmente as impessoais, são muito incertas, vamos desenvolver este assunto.

O Campo Crístico

Diz Max Heindel: Jesus “foi educado pelos Essénios e alcançou elevado grau de desenvolvimento espiritual durante os trinta anos em que usou o seu corpo”1, “...um Raio do Cristo Cósmico desceu e encarnou”2; “Quando Cristo entrou no seu corpo, era um discípulo de grau avançado”3; e “Cristo tomou posse dos corpos de Jesus e empregou-os até ao final da Sua missão, no Gólgota”4.

Talvez a este propósito seja bom precisar duas noções. Em primeiro lugar, o que significa exactamente, neste contexto, “descer”. A conclusão a que chegarmos levar-nos-á directamente à reavaliação do sentido da palavra “entrar”.

Duas respostas a esta questão.

Em primeiro lugar o problema da “elevação”, do ponto de vista da filosofia rosacruz, directamente relacionado com o suposto movimento de “descida”.

Ao interior contrapõe-se o elevado; à interioridade a elevação. Encontramos o alto e a altura em todos os pontos do domínio existencial. Antes de mais, em sentido espacial: o segundo andar de uma casa encontra-se acima do primeiro. É raro, porém, que estas representações sejam exclusivamente espaciais. Introduzem-se facilmente nelas um elemento de valor. O carácter de valor reforça-se em representações como o “ponto mais elevado de uma vida”. Aqui, o processo de vivência que em si nada tem a ver com “alto” e “baixo”, compõe-se de sentimentos, de tensões e distensões, de actos e conteúdos de actos, embora as palavras possam dar um enganador sentido espacial. Mas a palavra “altura” aparece também na ordem espiritual. Falamos então de um “pensamento elevado”. Nada tem a ver com a extensão da sua profundidade: é “elevado por ser nobre e difícil de atingir”.

Na literatura religiosa encontramos reflexo idêntico. Diz S. Paulo “Uma vez, pois, que ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas lá do alto...” (Col 3, 1-2). O apóstolo não tinha qualquer constrangimento em usar esta linguagem. Podia usá-la para aquela gente, tanto mais que, nesse tempo, o valor moral e espiritual da linguagem era proporcional à distância a que as personagens se encontravam no espaço. Todos aceitavam que se falasse num Deus “lá em cima”, embora o povo rude pudesse entendê-lo de maneira mais grosseira que os gnósticos. Mas, para S. Paulo, esses modos de dizer eram tão metafóricos como o são para nós. Na verdade, esta “elevação” nada tem a ver com a noção de espaço físico e a dimensão de altura. É independente dela e não consente, sequer, comparação com ela. O Novo Testamento tem consciência desta realidade. Mostra-a bem a parábola das Bem Aventuranças, ou ainda a lição segundo a qual quem se eleva terrenamente será rebaixado no céu, etc.

A “altura”, dentro da nossa visão actual do assunto, não é, pois, um simples dado, nem um estádio na hierarquia do real, nem um grau de ordenação de valores, nem um lugar objectivamente psicológico ou metafísico. Na literatura rosacruz, o “alto” – o ponto a partir do qual se faz a “descida” – é o lugar onde está Cristo. Esta elevação nada tem a ver com as dimensões do espaço. Ele próprio é a altura.

Identificado assim um dos polos do “espaço” existencial do espírito, o “alto”. Tentemos agora estudar a natureza do polo oposto, o “baixo”, a “interioridade” espiritual, de modo análogo àquele por que estudámos o primeiro. Sigamos de novo Max Heindel: “O Mundo do Espírito de Vida difunde-se pelos espaços interplanetários e interpenetra os planetas individuais. Este mundo forma um limite ou elo comum entre os planetas e, da mesma forma que para ir da América à África é necessário ter um barco e poder dirigí-lo, também se requer um veículo apropriado ao Mundo do Espírito de Vida, sob o domínio consciente, para poder viajar de um a outro planeta”. De facto, este plano de consciência “põe-nos em relação com outros planetas do nosso sistema solar”5.

O Mundo do Espírito de Vida é, por conseguinte, um campo, ou contexto espacial, que permite a integração de Cristo com as criaturas. Confere ao Cristo o poder de ser Cristo; às criaturas, o poder de serem elas mesmas; e a Cristo e às criaturas o poder de estarem dinamicamente inter-relacionados. Recorde-se também que “os mundos e planos cósmicos não estão por cima uns dos outros no espaço: os sete planos cósmicos interpenetram-se uns nos outros e a todos os sete mundos. (...) Pelo facto de se interpenetrarem uns nos outros, Deus e os outros grandes seres mencionados não se encontram muito distantes no espaço. Eles interpenetram todas e cada uma das partes dos seus próprios reinos e, ainda, os de maior densidade. Estão de igual modo presentes no nosso mundo. Actualmente, e de facto, encontram-se ‘mais próximos de nós do que os nossos pés das mãos’. É uma verdade literal que ‘Nele vivemos, nos movemos e temos o nosso ser’ (Act 17, 128-29), porque ninguém pode existir fora destas Grandes Inteligências que, com a Sua vida, interpenetram e sustentam o nosso mundo”6.

É esta característica que assegura aos seres que evolucionam conscientemente neste plano de consciência a plena comunhão com todas as criaturas existentes no espaço nele compreendido. Confere-lhes o conhecimento perfeito de todos os acontecimentos e do que há na interioridade do ser humano – incluindo os mais recônditos pensamentos e sentimentos. Chama-se a isto omnipresença e omniconsciência.

O estudante rosacruciano tem noção da presença de Cristo como da benigna realidade circundante diante da qual a vida se patenteia a cada momento. Para o estudante rosacruz, a vida é resposta, abertura e obediência ao movimento e ao momento do Cristo, que irradia de dentro do nosso planeta como força impulsionadora da vida no planeta7.

Para perceber tão claramente quanto possível o que é o interior e o que está dentro, partamos daquele Salmo 138 (139), onde encontramos uma das meditações mais penetrantes, em toda a história da literatura, sobre o sentido e a presença de Deus. Nele perpassa, como em nenhum outro trecho, o sentido da irresistível omnipresença divina em todas as direcções – acima e abaixo, atrás e à frente, dentro e fora. Esta omnipresença significa que o nosso isolamento é uma coisa pública; que o centro de todo o nosso ser é abrangido pelo centro de todo o ser, e que o centro de todo o ser situa-se no centro do nosso ser. Isto leva-nos imediatamente à reavaliação, dentro de todo este contexto, do sentido da nossa interioridade.

O Cristo está, por isso, seguramente, dentro de nós – mas pode não ter alcançado a nossa interioridade. A interioridade do espírito é o ponto – usamos novamente uma palavra inadequada – em que o espírito, a profundidade das nossas vidas, se encontra, individual e colectivamente, com o fogo vivo do Cristo, que o acende. É nesse limite interior que está o Cristo interno, não de uma maneira estática, passiva, mas activamente. É constituído pelo germe da substância crística que no início da nossa evolução ficou incrustada no ego e da qual se há-de formar um novo veículo, o dourado manto nupcial8.

Este ponto é particularmente significativo porque é ali que o Cristo evidencia o seu dinamismo relacional humanizador. Entre as pessoas humanas e as pessoas divinas há uma proporcionalidade que assenta nos dados pessoais. A intervenção de Cristo no desenvolvimento das criaturas situa-se ao nível da sua presença dialogante e iluminante por meio do princípio crístico já existente no homem. É esta afirmação mais fundamental da Bíblia. O homem não é Cristo, nem Deus, mas pode tornar-se parecido com Deus, pode imitar Deus, por assim dizer. É a Sua imagem: eritis sicut dei. Na verdade, a ideia da imitatio Dei, de aproximação com Deus, exige a premissa de que o homem seja feito à imagem divina. Na Bíblia, este conceito de aproximação com Deus encontra-se, por exemplo, no Levítico 19,1-2 ... “santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”!

Assim, Cristo é a interioridade máxima e a dinâmica da humanidade. O Cristo interno da literatura rosacruz não é mais do que a própria interioridade humana à espera de ser activada Esta activação é que permite o robustecimento dos poderes latentes do espírito e a sua irrupção no mundo interior, facto que o torna, acima de tudo o mais, tal como foi querido pelo Criador. No espírito humano subjaz desde sempre a inexprimível possibilidade de uma relação cognitiva com a mente de Cristo. Quando o homem, pelo conhecimento, entra nesta relação, acorda nele a vida nova que nele se realiza. Torna-se então o homem tal como o Criador o pensou e as faculdades divinas e infusas despertam-se-lhe. É então que o ser humano é capaz de conhecer o Cristo por aquilo que Ele é com mais verdade. É esta união consciente com Cristo que se torna visível e tangível no corpo que se designa “manto dourado de núpcias”.

Esta consciência de si só é atingida no interior do próprio eu, da totalidade desse mesmo eu, na medida em que participa da totalidade da existência.

Em Jesus deparamo-nos com um homem na completa união com Cristo, sujeito às vicissitudes e tentações da existência humana, mas vencendo-as mediante a vontade e lucidez. Na pessoa de Jesus encontramos alguém em quem as possibilidades crísticas já existentes no homem chegaram ao seu mais cabal desenvolvimento. Por isso, ele é o ponto supremo de contacto entre Cristo e a humanidade.

Cristo, não podia construir para si um corpo vital nem um corpo denso9, porque “nunca passou por uma evolução semelhante à do Período Terrestre”10. Além disso, “ninguém pode habitar um corpo mais eficiente do que aquele que é capaz de construir11, do que resulta uma impossibilidade material de o Cristo se inter-relacionar directamente com os veículos denso e vital de um ser humano. Os anjos, uma hierarquia que se encontra no limiar da onda de vida da espécie humana, que está “apenas” a um grau acima, só conseguem agir por intermédio do corpo vital12. Embora tenha ajudado a construir o cérebro não o podem utilizar13.

Os espíritos lucíferos, arcanjos, manifestam-se através da consciência interna14, instigando actividades mentais. Por essa via “falaram” à mulher. À mulher, porque ela é “concêntrica”: vive para o seu corpo, está de alguma forma centrada nele, gira à sua volta. O homem vive para o exterior. A história bíblica da “queda” ilustra o modo de agir das hierarquias divinas e como elas estimularam a imaginação feminina, através da qual ajudaram a evolução da espécie humana15.

Cristo não poderia usar um procedimento ainda mais rude e compulsivo.

(Continua)

F. C.

Notas

1 Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo; F.R.P. LxŞ, 2004: pp 299, 300-301.
2 Id., Cristianismo Rosacruz, The Rosicrucian Fellowship, 1929, Cap. XVI, p. 341.
3 Id., Conceito Rosacruz do Cosmo, p. 300-301.
4 Id., Ob. cit., id. p 300.
5 Id., Ob. cit., pp 46, 297.
6 Id., Ob. cit., p. 142.
7 Id., Temas Rosacruces, Vol I; Ed. Kier, 1985; pp 89-90.
8 Id., Iniciação – Antiga e Moderna, F.R.P., LxŞ, 1999; p. 57.
9 Id., Conceito Rosacruz do Cosmo, id., p. 299.
10 Id., Ob. cit., p. 300.
11 Id., Ob. cit., p. 104.
12 Id., Ob. cit., p. 274.
13 Id., Ob. cit., p. 229.
14 Id., Ob. cit., p. 230.
15 Id., Ob. cit., p. 283.




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