Editorial
A Nova Crise
O Mundo inquieta-se. O mundo inquieta-se por causa das crises. Não só por causa das crises, mas sobretudo porque as informações da imprensa e da rádio, as imagens das revistas e da televisão, já não permitem ignorá-las.
É evidente que muitas das crises que hoje nos preocupam existiram noutras épocas. Guerras, crueldades, hierarquias sociais erradas. Houve épocas obscurantistas, tal como houve pragas e epidemias, miséria e fome. Mas também houve conquistas e glórias do espírito e a nossa época é beneficiária delas.
Na Grécia registaram-se crises de ordem social-económica no século III a. C. Ficaram assinaladas pela grande difusão de cultos misteriosos, que proporcionaram o advento do monoteísmo. Tal facto corresponde, no século XVI, às crises da Reforma e da Contra-Reforma. E no decurso dos séculos XVII e XVIII as populações descontentes, que a progressiva indústria acumulava na Inglaterra e em França, preparavam já futuros grandes conflitos sociais. Embora separadas na vasta perspectiva da História por longo período de 21 séculos, é evidente o paralelismo das situações sócio-económicas.
Toda a história da Europa ocidental seria dominada, desde o século XVI ao século XIX, pela luta entre tendências opostas que se manifestaram paralelamente nos sectores da actividade económica, social, política e intelectual: o autoritarismo e o liberalismo, como conceitos humanos da vida.
A independência da América, ocorrida em 1775, havia de precipitar tremendas crises morais, intelectuais e económicas. Nessa época era caótica a situação interna da França. Chegada ao ápice da saturação, essa crise interna deu lugar, em 14 de Julho de 1789, à Revolução Francesa.
Pode dizer-se que a Revolução Francesa abriu um novo ciclo da História. Deu lugar, chamemos-lhe assim, à conciencialização social do homem, estabelecendo-lhe os direitos e as obrigações perante a vida.
É indiscutível que hoje se respeitam direitos universais. No Ocidente, já não é possível, de modo ostensivo, fazer a exibição pública de crueldades. Reconhecem-se direitos e liberdades antes impensáveis. A nossa época pode não ser espiritualmente muito melhor que as anteriores, mas é, certamente, aquela em que já não se consente o pior de outras épocas.
Se lermos qualquer jornal ou revista sem ideias preconcebidas, optimistas ou pessimistas, daremos conta de atrozes penúrias que devastam diversos países em diferentes regiões do globo. O exame de alguns dados, tanto mais tocantes quão simples, permite concluir que uma das mais evidentes disparidades é a que respeita às disponibilidades alimentares por habitante. Há países que dispõem muito mais de 3000 calorias por dia. Outros têm muito menos de 2000. Quer dizer: a quantidade de alimento disponível é inferior ao mínimo vital.
Este desequilíbrio é devido a múltiplas causas. Talvez a principal seja o grau de desenvolvimento económico. Certos “modelos de desenvolvimento” promoveram o abandono da agricultura de produção local baseada em condições naturais favoráveis. Deram a “garantia” de que o aumento do fluxo de mercadorias, obtidas com base em menores custos de produção, seria capaz de erradicar a pobreza e a fome.
Esta receita mostrou-se incapaz de resolver o problema. A distância entre as soluções abstractas, aparentemente simples e tidas como certas, e a materialização dos seus efeitos, é enorme. Chega a ser alarmante. O aumento dos preços dos cereais e do petróleo deu origem a crises alimentares em diversos países. Estas crises estimularam invitáveis tumultos sociais. Chamaram-lhes “motins da fome”1.
Centrando agora a atenção na realidade interna do país, pode dizer-se que o fenómeno da pobreza também se encontra largamente difundido na sociedade portuguesa2.
Nos últimos anos vêm sendo notadas até novas formas e pobreza associadas à persistência da actual crise social e económica. Têm clara incidência na instabilidade social e de valores3.
A persistência deste fenómeno e a sua inserção estrutural nos nossos sistema de vida colectiva e de organização social, dá origem a uma nova crise: a crise da esperança.
A crise da esperança, aquela virtude que a humanidade sempre tivera, de esperar que o futuro lhe oferecesse a oportunidade de melhorar as condições de vida, de encontrar o remédio para as suas mazelas do dia-a-dia, instala-se gradualmente como doença crónica.
Para quê estudar, aprender, fazer projectos, investir, se o futuro, a que todo o esforço pessoal se dirige, se mostra incerto?
Os resultados visíveis da falta de esperança — as drogas, a imoralidade, a delinquência, a indiferença do público desinformado — ocultam um efeito de consequências imprevisíveis: carência de motivações e empobrecimento da imaginação criadora. Cada vez mais estéreis ou, pelo menos, mais inertes, dão lugar à resignação e à instalação na subsídio-dependência.
Deter as grandes linhas do desenvolvimento económico é impossível. Mas podemos enriquecê-las, humanizá-las, adaptá-las ao escopo de uma realização integral do homem, no seu corpo e no seu espírito, no seu ser pessoal e no seu ser social. É importante falar em desigualdades, injustiças, necessidades diversas. Mas também é preciso falar em dor e sofrimento, e ver mais de perto os complexos problemas humanos sem recurso à habilidade retórica nem a racionalizações abstractas.
A filosofia rosacruz tem uma consciência clara sobre o homem e o mundo. É o que chamamos sabedoria ou visão omnicompreensiva da realidade total. Tem igualmente um ideal, que é um projecto de enriquecimento do homem em harmonia com o mundo. O nosso olhar filosófico, dirigido ao todo, permite avaliar, com certa antecedência, o tamanho e o peso dos obstáculos e prognosticar as grandes prioridades nas vias de acesso a objectivos projectados pelo ideal.
Assim, a filosofia rosacruz pode catalisar e apressar determinadas realizações, corrigir desvios, orientar, enfim, os processos de desenvolvimento para o sentido do progresso do homem e do mundo contidos no seu ideal.
Temos, portanto, a nosso cargo, a tarefa de ajudar à compreensão dos mecanismos indispensáveis para a autoconsciencialização do ser espiritual e à compreensão do valor desta nova crise. Pode implicar a deslocação do seu centro de gravidade, de ideias, de crenças e de hábitos, para um espaço incerto, através de uma viagem incerta. Haverá certamente perdas, transformações, deteriorações. Mas semelhante deslocação pode ser também o ponto de partida de uma grande e até completa, ou quase completa, renovação.
Falta “apenas” enquadrar melhor a nossa visão e o nosso ideal na estruturação, ou na reestruturação, dos sistemas e dos métodos de ensino e de expansão cultural. Um “apenas” que é muito, mas que é a única solução, em profundidade, para compreender que vale a pena investir no futuro, pelo qual trabalharam e sofreram gerações e gerações de seres humanos — precisamente os que edificaram o progresso moral, científico e técnico de que deveríamos legitimamente orgulhar-nos.
F.M.C.
Notas
1 Dominique Baillard, Como Disparou o Mercado Mundial dos Cereais, in “Le Monde Diplomatique”, ed. Portuguesa, Maio de 2008.
2 Sofia Lobato Dias, Há Dois Milhões de Pobres em Portugal, in “Diário Económico”, 16 de Outubro de 2007. A pobreza infantil atinge 23%, e 21% da população adulta; Helena Norte, Pobreza Atinge ...; in “Jornal de Notícias”, 20 de Maio de 2008.
3 No vasto e impreciso conceito de probreza podemos identificar os seguintes tipos fundamentais: 1. Biológica (inclui doença, deficiência, orfandade, etc); sócio-económica (subalimentação, falta de assistência médica, desemprego, etc.; comportamental (comportamentos não regulares, desagregação familiar, toxicodependência, prostituição...); sócio-cultural (iliteracia, falta de autonomia sócio-cultural...)
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